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A PISTA QUE A CIDADE NÃO QUIS PERTO: A CONSTRUÇÃO DO PORTO SECO E A TRAVESSIA DO CARNAVAL PARA A ZONA NORTE
25 de setembro de
2026, nº 23Série especial | Victor Raphael
Porto Seco, 20 anos depois — como a decisão de erguer o sambódromo a 16 quilômetros do Centro repartiu o Carnaval de Porto Alegre entre o espetáculo e o esquecimento, e o que diziam os jornais e as rádios do tempo em que isso foi decidido. Há quem diga que a história do Carnaval de Porto Alegre é, no fundo, uma história de endereços. Antes de existir o Complexo Cultural do Porto Seco, os desfiles das escolas de samba já tinham ocupado ao menos 12 lugares diferentes, quase todos entre o Centro e a Cidade Baixa. O primeiro, em 1949, aconteceu na antiga Praça Senador Florêncio, hoje Praça da Alfândega. Dali para a frente foram anos de Avenida Loureiro da Silva, a Perimetral, entre 1970 e 1980, e depois quase duas décadas na Avenida Augusto de Carvalho, ao lado do Parque da Harmonia, até 2003. Quando os tambores finalmente deixaram o coração da cidade, em fevereiro de 2004, levaram consigo o samba, os carros alegóricos e os barracões para o bairro Rubem Berta, na Zona Norte, numa área de 178 mil metros quadrados que já era conhecida como Porto Seco pelo grande número de empresas de transporte de cargas instaladas ali. A empreitada — anunciada como o "sambódromo gaúcho", um complexo cultural que funcionaria o ano inteiro — nasceu sob promessas que até hoje não se cumpriram: as arquibancadas fixas, com capacidade para 40 mil espectadores, nunca saíram do papel. Como toda decisão que muda a geografia de uma festa popular, essa não foi pacífica. Foi discutida em ao menos quatro projetos, travada por moradores, vereadores e juízes ao longo de dez anos, e retratada de formas muito diferentes pelos jornais e pelas rádios da Capital.
A ideia de dar ao Carnaval um templo permanente não é antiga nem original. Inspirou-se diretamente no Rio de Janeiro: nos anos 1980, governado por Leonel Brizola, o governo estadual carioca entregou à cidade uma Passarela projetada por Oscar Niemeyer. Porto Alegre passou a desejar algo parecido, que abrigasse não só o Carnaval, mas também os desfiles de 7 e 20 de Setembro — daí a escolha proposital do nome genérico "pista de eventos", para não afastar os tradicionalistas e os militares. O primeiro gesto concreto veio cedo. Em 1988, o então prefeito Alceu Collares chegou a lançar a pedra fundamental de um sambódromo na própria Avenida Augusto de Carvalho, no Centro. O projeto, porém, não andou. E foi a partir de então que a disputa se arrastou por mais de uma década e meia, registrada com minúcia pela imprensa gaúcha. Em 1994, na gestão de Tarso Genro, veio a primeira proposta formal: um parque de eventos dentro do Parque da Harmonia, onde acontece o Acampamento Farroupilha. A ideia mobilizou tradicionalistas, entidades carnavalescas e órgãos do Judiciário instalados na região. A pressão foi tamanha que uma comissão especial da Câmara de Vereadores rejeitou a proposta. No ano seguinte, em 1995, um mandado de segurança do Movimento de Justiça e Direitos Humanos impediu que um novo projeto — desta vez no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho — sequer fosse à votação. Em 1998, já na gestão de Raul Pont, a Prefeitura tentou instalar a pista entre o Estádio Beira-Rio e o Parque Marinha do Brasil. Outra vez a resposta foi "não". Os moradores do bairro Menino Deus chegaram a entrar na Justiça para embargar a licitação da obra, alegando problemas com barulho, depredações e aumento da violência — justificativas que, segundo as pesquisas sobre o tema, têm o condão de tratar o Carnaval "como um outro da cidade". Em 2001, o terceiro projeto tentou o bairro Humaitá, em área próxima à BR-101, onde hoje fica a Arena do Grêmio. Apesar de parte dos moradores ser a favor, a maioria do bairro rejeitou a ideia. Como nenhum dos três funcionou, moradores das regiões da Restinga e do Porto Seco se ofereceram para receber o equipamento. O fiasco de 2002 e a manchete que enterrou uma era Enquanto a cidade debatia o futuro sambódromo, os desfiles seguiam acontecendo na Avenida Augusto de Carvalho, com estruturas improvisadas montadas a cada ano. Na madrugada de 12 de fevereiro de 2002, esse modelo chegou ao limite. Sem espaço para manobrar as alegorias, carnavalescos da Imperadores do Samba quebraram o meio-fio da Avenida Loureiro da Silva para conseguir remover um carro abre-alas estragado. A escola entrou na avenida cinco horas depois do previsto, e as agremiações seguintes passaram diante de arquibancadas vazias, já com o sol a pino. O episódio, registrado como um dos mais tristes da história do Carnaval porto-alegrense, rendeu uma manchete que ficou na memória da cidade. Zero Hora estampou, taxativa: "O Carnaval de Porto Alegre fracassa". A foto dos carros parados sob o sol e das arquibancadas desertas virou argumento definitivo para quem defendia um local próprio. Dois dias depois desse fiasco, na edição de 13 de fevereiro de 2002, o Correio do Povo publicou a matéria "Sambódromo: dez anos de impasse", em que a secretária substituta do Planejamento Municipal, Cláudia Damasio, resumia o dilema: "A falta de aceitação da comunidade residente no entorno das áreas analisadas é o pior entrave." A reportagem tratava o sambódromo como questão ainda em aberto, a ser definida pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA). A escolha que deixou as escolas com gosto de traição Em março de 2002, o CMDUA decidiu. Entre as três opções que se ofereceram — Humaitá, Restinga e Porto Seco —, o conselho votou: 12 votos para o Porto Seco, 7 para a Restinga, 3 para o Humaitá e 2 abstenções. A Prefeitura, cuja preferência já era pelo Porto Seco, tratou o resultado como vitória. Entre as escolas de samba, porém, a decisão foi recebida com desconfiança e amargura. A maior parte das entidades carnavalescas preferia o Humaitá, por ser mais próximo do Centro. Dirigentes chegaram a afirmar que se sentiram traídos — a suspeita era de que cerca de cinco votos teriam sido alterados, mudando o resultado da votação. Os empresários transportadores instalados no Porto Seco, por motivos de logística, também se manifestaram contra. No lado oposto, tradicionalistas e militares garantiram que continuariam desfilando na Augusto de Carvalho, no Centro — e de fato o Porto Seco acabou virando lugar quase exclusivo do Carnaval. Resolvida a polêmica da localização, restava outro obstáculo: famílias que ocupavam a área destinada à pista precisaram ser removidas. Em 2003, a Prefeitura lançou a licitação do Complexo Cultural do Porto Seco. Em fevereiro de 2004, o complexo foi inaugurado de forma parcial, na gestão do então prefeito João Verle, que assumiu após Tarso Genro deixar o cargo em 2002 para disputar o governo do Estado. No primeiro desfile no novo sambódromo, um empate no topo: Bambas da Orgia e Imperadores do Samba. A promessa oficial era de conclusão das obras em 2005. As arquibancadas fixas nunca foram construídas. O que diziam os jornais e as rádios da época A cobertura desse processo foi objeto de estudo acadêmico: a dissertação de mestrado "Escola de samba na mídia: a cobertura do carnaval de Porto Alegre nos jornais Correio do Povo e Zero Hora entre 2001 e 2005", de Édson Luís Dutra, na PUCRS, analisou conteúdo e discurso dos dois principais diários da Capital justamente no período decisivo. A conclusão: o Correio do Povo fez uma cobertura mais aprofundada e com discurso propositivo em relação aos desfiles das escolas de samba, enquanto Zero Hora apresentou abordagem comparativamente mais superficial nos temas carnavalescos. A pesquisa abre caminho para entender como cada redação tratou — ou omitiu — a mudança de endereço da festa. A manchete da Zero Hora de 2002, "O Carnaval de Porto Alegre fracassa", e o "Sambódromo: dez anos de impasse", do Correio do Povo, são as duas marcas mais nítidas desse período no jornalismo impresso. Já o Diário Gaúcho, que anos depois se tornaria um dos diários mais identificados com o Carnaval de rua da Capital, dedicou-se a folclorizar e celebrar a festa; em 2024, na cobertura dos 20 anos do complexo, intitulou sua retrospectiva "Do otimismo ao improviso: 20 anos de Porto Seco", resumindo o balanço que a própria imprensa faz da obra. No rádio, o sambódromo logo virou endereço obrigatório de transmissão. A Rádio Guaíba AM 720 montou equipe para transmitir as noites de desfile direto do Porto Seco, com apresentadores e uma estrutura de repórteres dedicada à folia, e mais tarde produziu séries de retrospectiva, como a que contava "os dez anos de Porto Seco" com personagens dos desfiles. A RBS TV, por sua vez, levou o Carnaval para as telas — reproduzindo inclusive os tradicionais "recuos de bateria" televisionados — e passou a transmitir o desfile do Complexo com transmissão própria, em HD, a partir de 2013. Já as emissoras públicas TVE e FM Cultura consolidaram a cobertura ao vivo, com o sinal retransmitido para toda a rede. Periferização, racismo e a promessa que não veio Para uma parte considerável dos pesquisadores e ativistas do Carnaval, porém, a mudança não foi apenas logística. A historiadora Laura Spritzer Galli, autora da dissertação "Um longo caminho até o Porto Seco: lutas e disputas por espaço no carnaval de Porto Alegre (1994-2004)", analisou os jornais da época (novamente Zero Hora e Correio do Povo) e documentos da Câmara de Vereadores. Sua leitura é dura: nos debates, o carnaval era tratado como "um outro da cidade", e não como manifestação cultural constituinte da identidade porto-alegrense. A transferência para a periferia, diz ela, precisa ser lida dentro de um padrão histórico — o mesmo que removeu a população da Ilhota e empurrou moradores negros para a Restinga. "Sempre teve dois lados e existiam pessoas a favor porque achavam que o carnaval seria bom para as regiões", reconhece Galli. Mas o balanço é ambíguo: "Uma ideia que eu tinha antes de começar a pesquisa é que o Porto Seco foi uma conquista, porque os carnavalescos passaram dez anos reivindicando por um lugar e conseguiram. Por outro lado, também podemos pegar uma outra visão e dizer 'bom, foi lá para longe o carnaval e isso está excluindo a população carnavalesca'. Isso também é verdade." A promessa de fazer do complexo um centro cultural permanente, que funcionaria o ano inteiro com barracões, oficinas e atividades para a comunidade, ficou em grande parte pelo caminho com as mudanças de governo a partir de 2005. Os quinze barracões — saudados por visitantes de outros Estados como um dos melhores conjuntos do gênero no Brasil — foram construídos. As arquibancadas definitivas, não. Na prática, como resume a presidente da Imperadores do Samba, Luana Costa, o Carnaval começou a se enfraquecer quando o poder público deixou de sustentar o complexo: além da contribuição cultural, lembrou ela, a festa "gera empregos, gera impostos". Do esplendor ao improviso, e a conta que chegou As crises se acumularam. Em 2017, o Porto Seco foi interditado após vistoria dos bombeiros por problemas no plano de prevenção contra incêndios; desfiles foram cancelados na primeira noite e liberados na segunda quase em cima da hora. Em 2018, a Liespa decidiu não colocar as escolas na avenida. Em 2024, ano dos 20 anos do complexo, a Prefeitura leiloou os imóveis da área, e o engenheiro Valdinei Nascimento — o homem que conhece "cada centímetro" do sambódromo — protocolou um projeto de estruturas definitivas orçado em R$ 30 milhões, que ampliaria o público de 9 mil para 20 mil pessoas. A história, vista de hoje, guarda uma ironia. A cidade que por dez anos recusou a pista de eventos perto do Centro — com o argumento do barulho, da confusão e da "desordem" — acabou entregando ao Carnaval um lugar longe de tudo. Longe, inclusive, das câmeras, do público e dos holofotes que o espetáculo reivindicava. Como lamentou o carnavalesco Joaquim Lucena Neto, num dos desabafos mais citados sobre o episódio: "Hoje atiram as cinzas do Carnaval no Porto Seco, mas esqueceram de tirar as brasas. Tenho certeza de que elas ainda acenderão a chama da cultura." Enquanto as arquibancadas de concreto seguem no projeto, o samba continua batendo nas quadras e nos barracões da Zona Norte. Entre o otimismo da inauguração e o improviso das estruturas provisórias, o Porto Seco completou duas décadas deixando ao menos uma lição: no Carnaval, deslocar a festa é, quase sempre, deslocar também o direito de ser visto. Leia as colunas anteriores de Victor Raphael Victor
Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO) | ||