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BANCO MASTER - O REMAKE DA VIDA REAL DO MACOBEBA DA TIJUCA
10 de junho de
2026, nº 20
Se
a Unidos da Tijuca, lá no longínquo carnaval de 1981,
soubesse que o seu enredo sobre o terrível monstro Macobeba se
transformaria em uma profética e refinada comédia
corporativa nas décadas seguintes, o Morro do Borel teria
exigido royalties antecipados. Naquele desfile da Zona Norte carioca, a
azul e amarelo levou para a avenida uma criatura insaciável que
prometia passar o rodo em tudo e em todos com seus superpoderes
destrutivos. Corta para o Brasil de hoje, e o monstro ressurge das
cinzas do mercado financeiro vestindo terno sob medida, rebatizado de
Banco Master, provando que a imaginação dos carnavalescos
nunca chega aos pés da audácia de um banqueiro criativo.
O enredo original nos alertava sobre o bicho ruim que devorava o mato, o mito e a mídia. No remake econômico capitaneado por Daniel Vorcaro, a fome do Macobeba das finanças provou ser muito mais sofisticada do que a de seu antecessor folclórico. Em vez de mastigar samambaias e capim-gordura pelos campos brasileiros, essa nova assombração desenvolveu um apetite voraz por Letras Financeiras, fundos de previdência municipal e uma espantosa teia corporativa que envolveu cerca de 216 fundos e 143 empresas, estendendo seus tentáculos com uma capilaridade digna de um vilão de quadrinhos. A escala da destruição é de dar inveja a qualquer alegoria do Sambódromo. A capilaridade do escândalo do Master não poupou ninguém, infiltrando-se nos cantos mais profundos da República com a mesma facilidade com que o mestre-sala desliza na pista. De repente, o monstro estava abocanhando R$ 40 milhões do AparecidaPrev em Goiás, engolindo nacos bilionários do Rioprevidência e da Cedae no Rio, e digerindo consignados de aposentados do INSS sem que ninguém precisasse sequer validar a identidade das vítimas. Um verdadeiro rodízio de dinheiro público onde o prato principal sempre era o futuro do trabalhador. Para manter tamanha estrutura de pé, o bicho não podia viver apenas de brisa. A sinopse tijucana falava de um poder que "com todo o seu dinheiro quer calar a nossa voz", e o Banco Master levou isso ao pé da letra, regando seus bastidores com garrafas de whisky Macallan que custaram a bagatela de mais de 300 mil dólares aos cofres do esquema. O Macobeba moderno não bebe água da torneira; ele prefere destilados de luxo de milhões de reais enquanto engole bancos digitais inteiros como o Will Bank no café da manhã para manter o ritmo da sua caminhada fraudulenta. E se o monstro de 1981 assustava pela sua feiura literal, a versão bancária seduzia Brasília com o charme irresistível dos contratos de consultoria. Políticos de alta plumagem e figuras influentes acabaram pegos na teia capilar dessa criatura, recebendo pixes e repasses milionários que fariam qualquer passista de ouro empalidecer de inveja. O bicho era tão multifacetado que financiou até superproduções cinematográficas secretas, mostrando que o Macobeba das finanças também adora a sétima arte, contanto que o roteiro inclua bastante lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio através de empresas de fachada. O enredo da Unidos da Tijuca trazia o herói Mitavaí, o humilde lavrador e vaqueiro que deixava o sertão para combater a praga. Na nossa tragicomédia real, o papel de Mitavaí acabou dividido entre técnicos do Fundo Garantidor de Créditos, auditores independentes e os agentes da Polícia Federal. No entanto, ao contrário do herói do samba que usava apenas um manto protetor fornecido pela divindade Tetaci, o nosso Mitavaí de distintivo precisou de múltiplas fases de operações policiais, quebras de sigilo e mandados de busca até no Senado Federal para conseguir cercar a criatura. "Lança e com certeiro bote, fere o monstro no cangote, pra valer", já dizia a clássica letra da azul e amarelo. O bote certeiro veio quando o Banco Central finalmente decretou a liquidação da instituição, puxando a tomada do monstro que parecia indestrutível. Mas, como o próprio samba avisava há mais de quarenta anos, bicho ruim não quer morrer facilmente, e o Macobeba engravatado continuou se debatendo com propostas de delação premiada rejeitadas e manobras jurídicas desesperadas. A capilaridade judicial do escândalo alcançou as maiores autoridades do país, fazendo com que o próprio Supremo Tribunal Federal entrasse na mira dos holofotes e das discussões sobre conflitos de interesse. Ficou evidente que o monstro não habitava apenas as planilhas opacas da Faria Lima, mas também frequentava os gabinetes mais incensados do Poder Judiciário, provando que seu poder de contágio institucional era maior do que qualquer vírus conhecido pela ciência moderna. É aí que a genialidade do título da Unidos da Tijuca se consagra de forma absoluta: "O que dá pra rir, dá pra chorar". No início, os lucros inflados e a expansão agressiva do banco faziam a alegria dos acionistas e dos políticos que ganhavam carona em jatinhos particulares. Hoje, com as investigações pegando fogo na CPMI e os bens bloqueados pela Justiça, o choro é geral nos corredores do poder, enquanto o cidadão comum assiste ao espetáculo se perguntando como deixaram um bicho desse tamanho crescer tanto. No fim das contas, a avenida da Sapucaí e a praça dos Três Poderes não são mundos tão distantes assim. Ambos adoram uma fantasia luxuosa, dependem de uma harmonia impecável para não atravessar o samba e morrem de medo de uma nota fiscal ou de um relatório do Coaf que estrague o desfile. A diferença é que, no carnaval, a alegoria do monstro é desmontada na Quarta-feira de Cinzas. No mercado financeiro nacional, o Macobeba deixa uma ressaca bilionária que o povo brasileiro vai continuar pagando por muitos e muitos anos. Se o caboclo injuriado da Tijuca tomou o caminho do mar jurando que um dia vai voltar, a sociedade brasileira espera sinceramente que esse monstro corporativo específico pegue uma passagem sem volta. A lição que fica dessa gigantesca ciranda financeira é que precisamos ficar atentos aos gafanhotos ferozes que se fantasiam de tubarões do mercado para devorar as nossas economias. Portanto, que o aviso do Morro do Borel ecoe para sempre nos ouvidos dos reguladores e fiscais do nosso sistema financeiro. Se o maldito bicho não gostou do nosso samba de indignação, que ele seja definitivamente banido para bem longe das nossas riquezas e aposentadorias. Afinal, o Brasil já tem problemas reais demais para continuar alimentando monstros de papel com o suor de quem trabalha. Leia as colunas anteriores de Victor Raphael Victor
Raphael
Ex-presidente da Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá (LIESCO) | ||