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nº 77 CARNAVAL PARA LER | LIVROS QUE SERVEM PARA CONHECER ENREDOS QUE IRÃO PARA A AVENIDA EM 2026
A leitura é essencial para quem faz carnaval. Mais do que fonte de pesquisa, os livros são companheiros indispensáveis dos carnavalescos. Muitos enredos e sambas nasceram das páginas lidas. O Sambario selecionou alguns títulos que vão ajudar a mergulhar nos enredos que as escolas de samba do Grupo Especial apresentarão na Sapucaí em 2026. Se liga: vale começar agora mesmo! Quem lê antes, entende melhor cada detalhe que vai brilhar na avenida.
ACADÊMICOS DE NITERÓI Estreante no Grupo Especial, a escola do Largo da Batalha resolveu mergulhar fundo na história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, pra isso, o carnavalesco Tiago Martins não tirou a ideia do nada. Ele está bebendo direto da fonte de Fernando Morais, no livro “Lula”. Se você já folheou essa obra, sabe que o autor passou anos acompanhando o ex-metalúrgico nordestino, e a Niterói quer levar para a passarela do samba justamente esse lado humano do operário que virou o topo da pirâmide.
O livro “Lula”, de Fernando Morais, é uma das referências que inspira o enredo da Acadêmicos de Niterói.
MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL
A verde e branco da Vila Vintém, sob o comando do mestre Renato Lage, vai fazer o que todo mundo queria: colocar a “Padroeira da Liberdade” no altar. E olha, pra entender esse enredo, a leitura das duas autobiografias da Rita Lee (1947 - 2023) é obrigatória. A de 2016 e a de 2023, escrita já no apagar das luzes, são o mapa da mina. Rita nunca foi de meias palavras, e Lage, que é o rei do “carnaval high tech”, combina perfeitamente com a irreverência dela.
Primeiro (e revelador) volume da autobiografia da “ovelha negra da MPB”.
O segundo volume da autobiografia de Rita Lee, escrita já ao apagar das luzes.
PARAÍSO DO TUIUTI O carnavalesco Jack Vasconcelos é sinônimo de pesquisa séria. Com o enredo "Lonã Ifá Lukumi", ele foi buscar suporte no mestre Nei Lopes e seu livro “Ifá Lucumí: O resgate da tradição”. Pra quem não é familiarizado, o Ifá é um sistema adivinhatório complexo, e essa vertente afro-cubana traz uma camada de misticismo que a gente pouco vê mastigadinha por aí e que a Tuiuti terá o privilégio de apresentar.
No livro, Nei Lopes esclarece que o Lucumi não é folclore, nem exotismo religioso e, sim, um sistema sofisticado de organização do mundo, com ética, filosofia e método próprios.
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE A Rainha de Ramos vai com tudo pra cima juntamente com Ney Matogrosso. E o carnavalesco Leandro Vieira, que adora um detalhe, utiliza a biografia escrita por Julio Maria como bíblia. O enredo “Camaleônico” já entrega o jogo no nome: o foco é na metamorfose constante desse artista que é a cara do Brasil. O livro é riquíssimo em passagens sobre a época dos Secos & Molhados e a resistência do Ney contra a caretice durante a ditadura. Prato cheio para a Imperatriz deitar e rolar.
O livro mostra um artista fascinante, mas que também revela fragilidades, dúvidas e medos. E é aí que o personagem ganha densidade.
BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS Atual campeã do carnaval, a Deusa da Passarela, resolveu ir buscar na Bahia o enredo sobre o Bembé do Mercado, de autoria do carnavalesco João Vitor Araújo. Quem desejar uma imersão nesse universo fascinante, eis o livro “Okorin Odé e o Bembé do Mercado”, de Murillo Pereira de Jesus, ilustrado por Emily Maia. O Bembé é uma festa de candomblé de rua única no mundo, que acontece anualmente no mês de maio, em Santo Amaro da Purificação (BA), e o livro detalha essa resistência religiosa que já dura mais de um século. O projeto surgiu da inquietação de Murillo ao perceber a ausência de materiais voltados ao público infantil que tratassem do Bembé do Mercado – uma das mais importantes celebrações de matriz africana do Brasil. O autor criou uma narrativa que une tradição, infância, ancestralidade e educação. A obra acompanha Miguel, um menino que vivencia pela primeira vez o Bembé do Mercado e mergulha nesse universo de descobertas. A história aborda temas como educação patrimonial, combate à intolerância religiosa e valorização da cultura afro-brasileira.
O livro surgiu da inquietação do autor ao perceber a ausência de materiais voltados ao público infantil que tratassem do Bembé.
UNIDOS DE VILA ISABEL A escola do bairro de Noel Rosa, com a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora, vai homenagear o mestre Heitor dos Prazeres, fundador de várias escolas de samba. Pintor, compositor e sambista, Heitor foi um visionário que sonhou a África no Rio de Janeiro. Um livro interessante para acompanhar a trajetória do artista “Heitor dos Prazeres: Sua Arte e Seu Tempo”, escrito por Alba Lirio e Heitor dos Prazeres Filho, herdeiro do legado fantástico deixado por seu pai. O livro é raridade, está com a edição esgotada, mas vale a pena um “garimpo” em sebos e bibliotecas. Pela leitura, percebe-se como Heitor usava suas telas pra pintar um Rio de Janeiro que era negro, elegante e festivo, como o carnaval que a Vila pretende mostrar.
Mesmo esgotado, vale a pena sair à cata deste livro, que retrata Heitor dos Prazeres como a base de tudo o que se entende por samba hoje.
PORTELA
A Majestade do Samba sempre surpreende quando resolve falar de religiosidade. Dessa vez, o carnavalesco André Rodrigues vai levar para a Sapucaí a história do Príncipe Custódio (1832 - 1935), e o batuque, a religião afro-gaúcha. Quem estiver interessado em saber mais deste personagem que sofreu com o apagamento histórico, pode encontrar a tese de Maria Helena Nunes, disponível online no Repositório da UFPE (https://shre.ink/5Ldj). É um tema que quebra todos os estereótipos que grande parte do público tem sobre certas regiões do país. Quem diria que no Sul existia uma tradição de batuque tão forte e com um Príncipe africano no centro disso tudo? O Príncipe Custódio foi uma figura mística que teria influenciado até políticos da época. A aposta da Portela é uma das mais interessantes do ano, porque a Águia de Madureira vai voar por céus nunca antes navegados pelo Carnaval carioca, mostrando que a matriz africana tem ramificações que a gente nem imagina.
. O Príncipe Custódio foi uma figura mística (e controversa) que teria influenciado até políticos da época.
ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA
O carnavalesco Sidnei França foi buscar no Amapá a história de Raimundo dos Santos Souza, conhecido como Mestre Sacaca (1926 - 1999). Pra não chegar no Sambódromo (ou ficar na frente da TV) boiando, você precisa colocar as mãos no cordel de Joseli Dias, “Sacaca - O mestre das plantas e o rei do carnaval”. É um livrinho que prova que o Carnaval é o único lugar onde um especialista em plantas medicinais pode, com a mesma dignidade, ostentar a coroa de Rei Momo de Macapá por décadas. A verde e rosa não vai só falar de Amazônia; vai mostrar uma “Amazônia Negra”, que o morador do Sul ou Sudeste, mal consegue visualizar. O Mestre Sacaca era o conhecedor que sabia qual folha curava a dor do corpo e qual ritmo curava a dor da alma. É uma leitura que faz a gente perceber que a floresta não é só árvore e bicho, é gente preta produzindo conhecimento e alegria de um jeito que a gente nunca viu na Sapucaí.
Se eu fosse você, já procurava esse livro pra entender por que o Mestre Sacaca é o guardião que a gente não sabia que precisava conhecer.
ACADÊMICOS DO GRANDE RIO
A Tricolor de Duque de Caxias 2026 vai para o mangue, mas não é qualquer ecossistema não. É a “Nação do Mangue”, inspirada pelo movimento pernambucano Manguebeat. Uma das fontes que o carnavalesco Antônio Gonzaga certamente bebeu foi “Chico Science e o Movimento Mangue”, de Moisés Monteiro de Melo Neto. O livro é um manifesto sobre como a lama do Recife gerou uma das revoluções musicais mais importantes do Brasil. A estética do caranguejo com cérebro, as antenas parabólicas fincadas na lama, tudo isso que Chico Science (1966 - 1997) escreveu e cantou está no livro e vai para o Sambódromo. A Grande Rio, que já vem de uma sequência de enredos muito brasileiros e viscerais, achou mais um tema perfeito.
O livro é um manifesto sobre como a lama do Recife gerou uma das revoluções musicais mais importantes do Brasil.
UNIDOS DA TIJUCA
O carnavalesco Edson Pereira e a escola do Morro do Borel vão levar à avenida a vida e a obra da gigante Carolina Maria de Jesus (1914 - 1977). Para isso, o livro recomendado, claro, é o clássico “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. É uma obra que mudou a literatura brasileira e que agora ganha as proporções da Sapucaí. O livro é seco, direto, dói na alma. Falar de Carolina é falar de fome, de escrita como salvação e de uma mulher que não se calou diante da miséria. Preta, pobre e favelada, Carolina era uma catadora de papel que escreveu sua vida em cadernos achados no lixo. Ver a Tijuca transformar esses escritos em alegorias é um ato político fortíssimo.
“Quarto de Despejo” não é um livro confortável. E é por isso que segue necessário. A literatura de Carolina não pede piedade. Pede escuta.
ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
O “torrão amado”, novamente sob o comando do carnavalesco Jorge Silveira, vai fazer uma homenagem à maior de todas: Rosa Magalhães (1947 - 2024). A professora, carnavalesca e cenógrafa é a maior campeã do Sambódromo e tinha um estilo acadêmico, detalhista e irônico. Para conhecer um pouco de sua trajetória, o livro “Rosa Magalhães, a Moça Prosa da Avenida”, de Luís Ricardo Leitão. O título do enredo é longo e brincalhão, bem ao estilo dela. Leitão explora como ela revolucionou a estética dos desfiles, trazendo o rigor histórico sem perder o humor. A vermelho e branco vai fazer um desfile que será uma aula de história da arte, mas com o gingado da Academia do Samba.
O livro do Leitão explora como Rosa revolucionou a estética dos desfiles.
UNIDOS DO VIRADOURO
A vermelho e branco do Barreto escolheu homenagear o seu mestre de bateria, Ciça, com o enredo “Pra Cima, Ciça!”. O carnavalesco Tarcísio Zanon sabe que a vida de Moacyr da Silva Pinto se confunde com a história do samba moderno. O atual regente da Bateria Furacão Vermelho e Branco começou sua história na antiga Unidos de São Carlos, que depois se tornou Estácio de Sá, e revolucionou a forma de tocar bateria com suas bossas e paradinhas ousadas. Embora não haja um livro único focado só nele, a trajetória de Mestre Ciça está espalhada em várias obras sobre samba e escolas, entre elas, “As Titias da Folia” e “Estácio: vidas e obras”. “As Titias da Folia” retrata as escolas de samba Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Vila Isabel e Viradouro. As quatro agremiações são mencionadas como titias pois só atingiram o protagonismo na folia carioca depois de já ostentarem algumas ruguinhas e muitos quilômetros rodados por diferentes passarelas. Já "Estácio: vidas e obras" busca recontar a história do bairro de seus primórdios aos dias de hoje. Trata-se de um passeio singelo que traça sua geografia cultural e social visitando suas avenidas, ruas, praças, casas, comércio, morros, becos, vielas, botecos, terreiros e quadras.
“As Titias da Folia” retrata Unidos da Tijuca, Vila Isabel, Estácio de Sá e Viradouro – as duas últimas tiveram Mestre Ciça como regente de bateria. .
Um passeio pela história e pela geografia cultural e social do bairro é o que propõe “Estácio: vidas e obras”, berço do Mestre Ciça.
Você já parou pra pensar que um desses livros da sua escola favorita pode ser o próximo campeão do Carnaval? Então largue o celular e corra para uma livraria ou biblioteca e leia uma dessas obras!
Gerson
Brisolara (Rixxa Jr.)
Jornalista, comentarista carnavalesco e colaborador do SAMBARIO desde 2004 rixxajr@yahoo.com.br
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