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TOP 10 SAMBARIO – SIM, ECOLOGIA DÁ SAMBA!
   
 
TOP 10 SAMBARIO – SIM, ECOLOGIA DÁ SAMBA!


27 de maio de 2024, nº 69


Exatamente uma semana depois que o site Sambario completar 20 anos de existência, outra data marcante será comemorada. No dia 5 de junho é celebrado o Dia do Meio Ambiente.

Cada vez mais ameaçado com o avanço do desmatamento e da poluição, o nosso ecossistema vive em alerta. E o carnaval, mesmo sendo uma manifestação popular de caráter festivo e lúdico, também traz em seu bojo propostas de reflexões e questionamentos a respeito do nosso ecossistema.

O meio ambiente tem sido retratado em desfiles de escolas de samba há pelo menos seis décadas. E, a cada ano, no mínimo, uma escola apresenta um enredo sobre a questão ecológica. Infelizmente, as autoridades competentes não estão dando ouvidos aos clamores e alertas que os sambistas, artistas do povo falam quando se trata de cuidado com o nosso planeta.

O Top 10 Sambario aproveita a aproximação do Dia do Meio Ambiente e também a catástrofe ambiental que infelizmente castiga o Rio Grande do Sul desde o final do mês de abril para enumerar momentos em que a natureza deu samba.

Se atualmente sofremos com os efeitos de aquecimento global, poluição, emissão de gases, desmatamento, ameaça de extinção de espécies ou o manejo equivocado do solo, não foi por falta de aviso da comunidade científica, de estudiosos e por que não dizer, até do mundo carnavalesco.

OBS: Propositalmente resolvemos não mencionar nenhum dos inúmeros enredos que envolvem a Amazônia. Este é um assunto que merece ser tratado à parte.

 

10º lugar: ACADÊMICOS DE GRAVATAÍ 2004 – Tributo a José Lutzenberger


Lutz com o seu amigo felino Oskar. Foto clicada em junho de 1999. Foto: Arquivo pessoal

Eu começo este Top 10 puxando brasa para o meu churrasco. A lista se inicia com a campeã do carnaval de Porto Alegre em 2024, a Acadêmicos de Gravataí. No entanto, há exatos 20 anos, a escola não vivia um bom momento financeiro e tinha problemas de organização. A onça negra disputava o Grupo Intermediário A (o equivalente à segunda divisão do carnaval porto-alegrense).

A agremiação resolveu homenagear o engenheiro agrônomo, escritor, filósofo e ícone ambientalista brasileiro José Lutzenberger (1926 - 2002). Nascido na capital gaúcha, teve uma infância confortável e adorava o contato com a natureza, que foi documentada em desenhos e crônicas de seu pai, o artista plástico alemão naturalizado brasileiro Joseph Lutzenberger (1882 - 1951).

O jovem Lutz formou-se em agronomia na década de 1950 e logo em seguida foi trabalhar na Basf, maior empresa produtora de produtos químicos do mundo, como executivo na área de agrotóxicos, função que o possibilitou viajar pelo mundo. Nesta época ele ainda não se sentia compromissado com a causa ecológica. Sua posição começou a mudar quando foi viver no Marrocos, a serviço da Basf, e passou a se interessar por várias áreas do saber, como matemática, filosofia, biologia e história, e a discordar da política da empresa, referente à produção de agrotóxicos.

De volta ao Brasil, José Lutzenberger passou a se engajar no ambientalismo e em 1971 fundou, com um grupo de amigos, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), entidade na qual foi se destacou pela liderança pois fundamentava seus argumentos sobre bases científicas

Criou em 1987 a ong Fundação Gaia para atuar na área de educação ambiental e na promoção de tecnologias socialmente compatíveis. Em 1990, José Lutzenberger aceitou o convite para integrar o ministério do presidente Fernando Collor de Mello, como Secretário Especial do Meio Ambiente, com status de ministro, cargo que ocupou por dois anos. Entre as dezenas de distinções e homenagens que recebeu em vida, destaque para o Prêmio Right Livelihood, conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, em Estocolmo, Suécia em 1988.

A homenagem da Acadêmicos de Gravataí a Lutz se deu no carnaval de 2004, dois anos após a morte do ícone ecologista. Com o enredo “Da Cidadania Solidária à Ecologia Consciente, Um Tributo a Lutzenberger”, a escola chegou em 7º lugar e caiu para o Grupo Intermediário B, o equivalente à terceira divisão do carnaval de Porto Alegre.

 

E um cidadão surgiu

Um ecologista consciente

É Lutzenberger

Defensor do meio ambiente

(Tabajara Ortiz, Zeca Swinguinho e Batista)



9º lugar:
X-9 PAULISTANA 2008 – Aquecimento global


A X-9 levou uma mensagem de compromisso com o meio-ambiente para o Anhembi em 2008. Reprodução/YouTube

Em 2008, no Anhembi, a X-9 Paulistana levou o tema “O Povo da Terra Está Abusando – O Aquecimento Global Vem Aí... A Vida Boa e Sustentável Pede Passagem”, assinado pelo carnavalesco Raul Diniz.

A escola da Parada Inglesa fez uma crítica à destruição das florestas e à poluição do ar e das águas. Já no carro abre-alas, a agremiação apresentou um enorme urso polar, simbolizando o degelo das calotas polares. A comissão de frente representou a deusa Gaia, a deusa Terra, em que havia a interpretação de uma batalha entre homens. A fantasia da ala das baianas representava icebergs e os ritmistas da bateria da X-9 desfilaram fantasiados de pinguim.

Um dos carros, em formato de um rato gigante, fez uma alusão ao caos do lixo urbano e a necessidade de reciclagem. O puxador Daniel Collete saiu fantasiado de urso polar.

Apesar do belo efeito provocado pelas fantasias e da fácil leitura do enredo, a X-9 teve problemas no desfile. A escola entrou no sambódromo quando o cronômetro já marcava nove minutos.

Apesar da demora na entrada, a escola fechou o desfile em 63 minutos, portanto no tempo regulamentar, que era de no máximo 65 minutos. O segundo carro da escola teve problemas para entrar na avenida. Os integrantes acharam que a alegoria não conseguiria passar e a ala que seguia atrás teve que passar para não ficar um buraco na evolução da escola.

A X-9 Paulistana terminou o carnaval na 6ª colocação do grupo especial naquele ano.

Oh, Mãe Terra, perdoai

Os seus filhos sem amor

É preciso preservar

O mundo que Deus criou

(Didi, Turko e Paulinho Miranda)

 

8º lugar: LINS IMPERIAL 1992 – Eco 92

Selo comemorativo à realização da conferência ambiental ECO-92, realizada no Rio de Janeiro

O enredo da Lins Imperial de 1992 foi uma sequência do carnaval do ano anterior, quando, no Grupo Especial, a escola homenageou o líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944 - 1988). Desta vez, rebaixada à segunda divisão (na época chamada de Grupo A), a verde e rosa do Morro da Cachoeirinha prosseguiu com a proposta ecológica e abordou a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como ECO-92, realizada na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, pouco mais de três meses após o carnaval.

Chamada também de Cúpula da Terra, a convenção reuniu chefes de Estado e representantes de 179 países, organismos internacionais, milhares de organizações não governamentais e contou também com a participação direta da população. A ECO-92 representou um marco nas discussões sobre a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.

Durante o desfile, a Lins voltou a falar sobre Chico Mendes pois pouco antes do carnaval de 1992 o julgamento dos assassinos do ambientalista, Darly e Darcy Alves, ocorrido em dezembro de 1990, chegou a ser anulado pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre.

Porém, um ano depois o Superior Tribunal de Justiça reformou a decisão do tribunal do Acre e manteve a condenação de 19 anos de prisão aos réus. A ala “Fiscais da Natureza” foi formada por ativistas da causa ambiental, políticos, intelectuais e admiradores do líder seringueiro. Durante o desfile, a ala exibiu faixas que protestavam contra a então suspensão parcial do julgamento dos acusados de matar Chico Mendes.

Apesar de tentar angariar a simpatia do público presente na Passarela do Samba, Lins Imperial, que vinha de quatro belos carnavais em sequência, apresentou um desfile fraco, que abriu uma sequência muito ruim da escola, com cinco desfiles pífios a seguir. E depois que caiu do Especial, a Lins não conseguiu mais se firmar como favorita a retornar para a elite, chegando a ficar nove anos fora da Sapucaí só retornando ao sambódromo carioca em 2022.

Com “Rio – ECO 92”, enredo do carnavalesco Orlando Júnior, a Lins Imperial obteve a 11ª colocação no então Grupo A.

Ecoou... vozes unidas buscam solução

Maravilha na cidade

Num romance de emoção

(João Banana e Kiquinho)


 


7º lugar: ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA 1970 Uma ode às riquezas naturais do Brasil


Mangueira na avenida em 1970. À direita, a passista Nair Pequeno, que morreu sambando em plena avenida. Foto: Acervo O Globo

A Mangueira resolveu inovar seu estilo de apresentação de enredo para tentar o tricampeonato no carnaval de 1970. A escolha recaiu à natureza brasileira, fonte inspiradora de poetas e compositores. A verde e rosa procurou reverenciar o que, “por dádiva divina”, a natureza proporcionou aos brasileiros desde o Descobrimento.

O desfile teve como objetivo percorrer o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste e demonstrar a natureza do país vibrando em seu esplendor, com suas montanhas e planícies verdejantes, matas e campinas cobertas de flores, a fauna, as praias, os “recantos pitorescos” e as riquezas minerais. Porém, uma tragédia entristeceu aquele desfile da Mangueira.

A escola estava em pleno desfile na Avenida Presidente Vargas, por volta das 3h, quando a querida passista Nair Pequena, uma das fundadoras da verde e rosa, sofreu um mal súbito e foi levada para o Hospital Municipal Souza Aguiar. Os componentes da agremiação ainda estavam por completar o trajeto quando chegou a notícia da morte da veterana, aos 72 anos.

Atordoados, eles tentaram continuar o espetáculo, mas não teve jeito. A bateria parou, e o então presidente da Mangueira, Juvenal, anunciou o óbito ao microfone, com voz emocionada. A partir de então, o desfile virou marcha fúnebre, com os integrantes caminhando de cabeças baixas ao som de um surdo triste, em toque de funeral. Pouca gente permaneceu nas arquibancadas para assistir a exibição do Salgueiro, que começaria às 4h45.

A passista seria lembrada diversas vezes depois de sua morte. Ainda em 1970, os compositores Ubirajara Cabral e Carlos Pereira de Sousa escreveram “Quero morrer sambando”, em homenagem a Nair. Quase 40 anos mais tarde, a cultuada cantora Alcione lançou “Nair Grande”, faixa do disco Acesa, de 2009.

Apesar do triste e lamentável episódio, a Mangueira chegou em 3º lugar no Grupo Especial.

 

Oh! Pátria querida

De natureza tão sutil

Tens belezas mil

Isto é Brasil! Isto é Brasil! Isto é Brasil!

(Ney, Ailton e Dilmo)


 


6º lugar:
IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE 2017 – Salve o verde do Xingu


Representantes de alguns dos povos do Xingu que foram homenageados pela Imperatriz. Crédito: Divulgação/Imperatriz Leopoldinense

Se há algo que sempre causa polêmica no carnaval é falar sobre o meio ambiente e a luta em prol da ecologia. E polêmica foi o que não faltou quando a Imperatriz Leopoldinense anunciou que faria o enredo “Xingu: O Clamor que Vem da Floresta” no carnaval de 2017.

A escola não só levou a cultura do Xingu para a avenida como também elevou à condição de destaque muitas das lideranças indígenas, como o Cacique Raoni. Além de exaltar o povo indígena, a escola de Ramos também colocou na avenida grandes dilemas enfrentados por todos como a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte na bacia do rio Xingu (o “belo monstro” mencionado na letra do samba), o desmatamento e o uso de agrotóxicos.

O tema despertou a ira de ruralistas desde o início de janeiro, quando foi anunciado. Em meio a críticas, reclamações, campanhas de difamação e até ameaças de políticos ligados ao agronegócio de abrir CPI para apurar irregularidades na escola, não faltou apoio à agremiação, vinda de organizações indigenistas, ambientalistas, de combate aos agrotóxicos e transgênicos e em defesa da agroecologia e da reforma agrária.

Ruralistas se sentiram agredidos pela temática da escola, sobretudo com a ala “Os fazendeiros e seus agrotóxicos”. O carnavalesco Cahê Rodrigues, ao responder às críticas, disse que “o samba quis simplesmente defender e dar voz ao indígena e denunciar tudo o que agride a floresta, o meio ambiente e, diretamente os povos originários”.

Apesar das críticas, a escola decidiu manter todos os detalhes de seu enredo. A Imperatriz se classificou em 7º lugar, ficando de fora do desfile das campeãs após quatro anos retornando entre as seis primeiras.

Jardim sagrado o caraíba descobriu

Sangra o coração do meu Brasil

O Belo Monstro rouba as terras dos seus filhos

Devora as matas e seca os rios

Tanta riqueza que a cobiça destruiu

(Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldair Senna)



5º lugar:
ACADÊMICOS DO SALGUEIRO 1979 – Uma batalha em que não há vencedor


Salgueiro recorre à defesa ecológica, uma temática até então inédita na história de seus carnavais. Foto: Reprodução

Com a saída definitiva de Fernando Pamplona (1926 - 2013) do Salgueiro após o tumultuado desfile de 1978, a escola começou um período de muitas trocas de carnavalesco. E recorreu a uma temática até então inédita em sua história: a defesa ecológica. O desfile de 1979 — “O Reino Encantado da Mãe Natureza Contra o Reino do Mal” – foi desenvolvido pelo jornalista Ivan Jorge e confeccionado pelos carnavalescos Renato Lage e Stoessel Cândido Silva, este último uma figura revolucionária na arte brasileira, atuando em várias áreas como cinema, teatro e carnaval e televisão, sendo fundador do Departamento de Adereços da TV Globo, no início da década de 1970.

O enredo, de cunho ecológico, contava sobre uma fictícia batalha entre a natureza e o “reino do mal”, simbolizado por males como a poluição, a seca e a peste. A escola dividiu o desfile em três setores.

O primeiro setor, “O Reino Encantado da Mãe Natureza”, apresentou um carro alegórico giratório, com diversos pavões coloridos. No segundo setor veio “A Invasão do Mal”, com alas representando as queimadas, a poluição e as pragas. Logo em seguida, o setor “A Guerra”, mostrou o embate entre a Mãe Natureza e o Reino do Mal. O final do desfile simbolizava o futuro, com baianas com roupa branca carregando ramos de flores nas mãos, significando o reflorescimento.

Apesar da correção no tratamento do enredo, a escola fez um desfile considerado frio, sem conseguir empolgar o público. O Salgueiro terminou na 6ª colocação do grupo especial. Detalhe para a divina interpretação do eterno Rico Medeiros.

 

Mas surgiu o rei do mal

Com a chegada do progresso

Abalando a estrutura mundial

Poluindo nossa terra

Aniquilando o que Deus abençoou

E quem sofre é a Nação

Nesta batalha

Onde não há vencedor

(Bala, Cuíca e Luís Marinheiro)


 

4º lugar: PORTELA 2008 – Viver em comunhão com a natureza

Em 2008 a Portela levou o público a refletir sobre a questão ambiental e exigir do poder público um futuro fértil e sustentável. Crédito: site Rio Carnaval

O pré-carnaval da Portela para 2008 gerou ansiedade, desconfiança e uma certa dose de impaciência. Tudo porque a turma de Oswaldo Cruz e Madureira foi a última que escolheu seu tema. Quando anunciou o enredo da escola, o carnavalesco Cahe Rodrigues afirmou: “a Portela quer preservar o meio ambiente”, e que o tema era “extremamente atual, permitindo navegar por diversos setores da sociedade”.

O enredo “Reconstruindo a Natureza, Recriando a Vida: o Sonho Vira Realidade” era, basicamente, um grito de alerta sobre a necessidade de se preservar a natureza, levando o público a refletir sobre a questão ambiental e exigir do poder público um futuro fértil e sustentável.

A escola levou para a avenida em seus setores os ecossistemas fundamentais. Primeiro o mar, com a alegoria Esplendor dos Oceanos, com uma enorme baleia jubarte ao centro, peixes, tubarões “nadando” no ar. Um setor, lógico, todo em azul.

Depois desse início azul a escola se pintou de verde para falar sobre as belezas naturais do Brasil, o Pantanal, a Amazônia, a Mata Atlântica. O carro do setor trazia cobras, tribos indígenas e uma onça enorme, comandada por especialistas em movimento de grandes esculturas trazidos de Parintins, que fazia movimentos realistas e rugia forte ao passar pelas arquibancadas, levando o público ao delírio.

O setor do ar trazia outro carro interessante, grandes cones “vestidos” com o mesmo tecido da roupa dos destaques e com longas asas pintadas, dando a sensação de assistirmos a uma revoada de pássaros.

Nenhuma alegoria no desfile causou mais impacto do que a quinta, batizada como “Viva a Vida”. Trazia uma terra arrasada, apenas tocos de árvores, sem cor e um bebê raquítico, morto de fome. Uma imagem fortíssima!

A Portela encerrou seu desfile sendo bastante aplaudida pelo público, deixando os componentes felizes. Na apuração, a escola foi penalizada onde devia e também onde não devia, como alegorias, acabando em 4º lugar. Foi a primeira vez na década que a Portela chegou entre as seis primeiras, e a primeira presença no sábado das campeãs desde 1998.

Eu sou a água

Sou a terra, sou o ar

Sou Portela

Um sonho real

Um grito de alerta

A natureza que encanta a passarela

(Diogo Nogueira, Junior Escafura, Ciraninho, Ary do Cavaco e Celsinho de Andrade)


 

3º lugar: IMPÉRIO SERRANO 2005 – Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar e aprender a preservar

Em 2005 Império fez um apelo em prol da preservação da vida no planeta. Foto: Ricardo Leoni/Extra Online

O Império Serrano abordou no ano de 2005 o enredo “O Grito que Ecoa no Ar – Homem/Natureza, o Perfeito Equilíbrio”. A verde e branco de Madureira manifestou um apelo ao homem e sua evolução tecnológica gananciosa em prol da preservação da vida no planeta.

O samba-enredo é perfeito. Procurando uma sensibilização do ouvinte, a letra se desenvolve em primeira pessoa, como se a própria natureza estivesse suplicando e expõe alguns impactos provenientes dessa expansão tecnológica, como a degradação da qualidade das águas resultante da poluição, os descartes irregulares de resíduos, degradação e o esgotamento de recursos. O samba reconhece e oferece alternativas para a diminuição dessas perturbações ecológicas, como a reciclagem, reforma ecológica, e a produção sem agressão e desmatamento. Veremos algo parecido com o samba escolhido em 2º lugar no ranking deste Top 10.

No ano em que a verde e branca trouxe um enredo sobre natureza e preservação ambiental, a coroa, símbolo maior da escola, fechou o desfile. O carnavalesco Ilvamar Magalhães inseriu na coroa imperiana algumas esculturas de araras azuis, dando um pouco mais de colorido ao tradicional dourado do símbolo.

Apesar de inicialmente ser um enredo de fácil leitura, o Império enfrentou alguns problemas de evolução, acabamento dos carros alegóricos e fantasias. Das 16 escolas que desfilaram no grupo especial, o Reizinho de Madureira chegou em 14º lugar, se livrando por pouco do rebaixamento.

Choro com esta tal evolução

Ressentida estou ao ver minha devastação

O homem com sua sapiência

Transformou tudo em ciência

Reciclando a minha natureza

Mexeu com lixo

Domou os ventos

Usou o átomo sem consciência

Causou tristeza, degradação

Coloca em risco toda a civilização

(Marcão, Marcelo Ramos e João Bosco)


 

2º lugar: ARRASTÃO DE CASCADURA 1985 – Depois do mal feito, chorar não é proveito

No carnaval de 1985 a Arrastão levou para a Sapucaí um tema assustadoramente profético e infelizmente atual. Foto: Acervo O Globo

Um tema assustadoramente profético e extremamente (infelizmente) atual. No carnaval de 1985 a querida Arrastão de Cascadura escolheu se vestir de natureza e alertar as alterações ambientais provenientes da ação humana e do processo acelerado de urbanização. O título do enredo, assinado pelo carnavalesco Joãozinho de Deus, é sintomático e autoexplicativo: “Depois do Mal Feito, Chorar Não é Proveito”.

O samba-enredo da verde e branco cascadurense é lírico, poético e contundente. A letra é desenvolvida em primeira pessoa, como se a própria natureza estivesse criticando a transformação acelerada do meio ambiente e respectivamente as consequências causadas por esse impacto ambiental. Pode-se observar também o incentivo à produção de novos hábitos que prejudiquem menos o planeta, como a produção de energias renováveis, que aparece no trecho “Essas mãos que se uniram/ Construindo nova fonte de energia/ Que se unam bem mais fortes/ Em defesa da ecologia (...)”.

O samba termina com um refrão apoteótico simbolizando o lamento e estranhamento das crianças que não entendem como “se maltrata a natureza tanto assim”.

Última escola a desfilar pelo Grupo 1B (atual Série Ouro) no Sambódromo da Marques de Sapucaí em 1985, o Arrastão de Cascadura entrou na Passarela do Samba próximo às 10 horas da manhã, sob um sol escaldante e um calor de mais de 30 graus. Muitos componentes passaram mal devido à alta temperatura e saíram da Avenida antes de completar o desfile, o que acarretou problemas de evolução.

A escola ficou na 8ª posição entre dez escolas concorrentes e acabou rebaixada para o Grupo 2A (equivalente à terceira divisão). Desfilante do Grupo Especial em 1978, o Arrastão ficou no 1B de 1979 a 1985, só retornando à segunda divisão do carnaval carioca em 1989.

 

Sou eu, as Sete Quedas que você matou

Pedaço de floresta que você, sei lá

Sou eu, a borboleta que beijava a flor

Eu sou o passarinho que cantava o amor

Sou eu, sou eu, sou eu

O arco-íris que enfeitava a serra

Sou eu, sou eu, sou eu

A luta pelo pouco que ainda resta

Ai, eu sou... ai, eu sou

Retalho das belezas

Que o progresso lentamente exterminou.

(Jacy Inspiração, Netinho e Amaury)


 

1º lugar: MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL 1991 – Água é fonte da vida

A alegoria da Mocidade que simbolizava as chuvas que fecham o verão e que deveriam ser uma benção enviada pela natureza e acabam se tornando um desastre urbano. Crédito: Canal da Mocidade Independente/YouTube

A água está presente no nosso organismo. A água é a fonte da vida. E as águas rolaram em 1991 para a Mocidade Independente de Padre Miguel.

O enredo “Chuê, Chuá, as Águas Vão Rolar”, dos carnavalescos Renato Lage e Lílian Rabelo, abordava o elemento água e passeava por rios e mares, além de fazer alusão ao dilúvio, à liquidez do abacaxi econômico e a tudo que pudesse ser relacionado à água.

Houve espaço (e muito) para críticas, ainda que sutis, à questão ambiental, com alas e setores que abordaram o “perigo da poluição das águas”, a “pesca predatória”, a água como “fonte de energia”, o derretimento de geleiras nos polos e uma alegoria que representava “as águas de março”.

Apesar de ter o mesmo nome da famosa música de Tom Jobim, o carro simbolizava o sofrimento que o carioca tem no terceiro mês do ano, quando inicia uma temporada de fortes chuvas na cidade que provocam enchentes, inundações e deslizamentos de terra. A água, que deveria ser uma benção enviada pela natureza para compensar um período de seca, acaba se tornando um estorvo urbano por culpa do homem, que nunca está preparado para recebe-la.

A escola fez um desfile arrebatador. Quando a bateria deixou o recuo, o público aplaudia e gritava: bicampeã, bicampeã! O que foi confirmado na apuração.

Da vida sou a fonte de alegria

Sou chuva, cachoeira, rio e mar

Sou gota de orvalho, sou encanto

E qualquer sede posso saciar

Quem dera!

Um mar de rosas esta vida

Lavando as mentes poluídas

Taí o nosso carnaval!

(Toco, Jorginho Medeiros e Tiãozinho)


Bônus-track: ACADÊMICOS DE SANTA CRUZ – 1981, 2000,2009, 2016 e 2023

Na pesquisa que fiz para esta coluna, percebi que a escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz é uma das agremiações carnavalescas que mais dedicam enredos que abordam a importância da preservação e da conscientização ecológica.

Neste tópico vou citar cinco carnavais em que a ecologia deu samba para a simpática agremiação verde e branco da zona oeste do Rio de Janeiro.

 

“Amazonas, Verde que te Quero Verde” (1981)

 

No ano de 1981 a Acadêmicos de Santa Cruz apresentou o enredo “Amazonas, Verde que te Quero Verde”, concebido e realizado pelo carnavalesco José Lima Galvão.

A letra do samba realça a beleza e a relevância da floresta Amazônica, retratando a fauna e a flora do ambiente como algo exuberante e de valor inestimável. o samba dá força ao movimento ecológico e conclama a participação da população.

A Santa Cruz foi a 6ª colocada do Grupo 1B (segunda divisão) naquele carnaval.

 

Delira o povo

Neste feito colossal

Defendendo a ecologia

Nós brincamos Carnaval

(Zé Carlão, Agostinho Laurentino e Helson de Souza)


 

“Brasil, do Extrativismo à Reciclagem, 500 Anos de Riqueza” (2000)

A Santa Cruz apresentou enredo sobre a importância da natureza e os meios de melhor utilizar os recursos tecnológicos no século 21 então se iniciava. Foto: Rádio Arquibancada e Site www.academicosdesantacruz.com.br

No quingentésimo ano do Descobrimento (que na sinopse a escola classificou como “invasão portuguesa”), a Acadêmicos de Santa Cruz apresentou o enredo “Brasil, do Extrativismo à Reciclagem, 500 Anos de Riqueza”, de autoria de Fernando Alvarez, mostrando a relação de três etnias distintas (indígena, europeu e negro) com o meio ambiente.

O samba demonstra que a exploração de recursos naturais desde o apoderamento do Brasil leva hoje a uma busca pelo progresso ecológico e a diminuição da destruição ambiental, na esperança da tecnologia contemporânea gerar instrumentos para a recuperação do meio ambiente.

Em suma, a escola teve como objetivo contribuir e conscientizar o povo para uma existência mais saudável e promissora, apresentando através do enredo a importância da natureza, os recursos tecnológicos existentes e os meios para melhor utilizá-los no século que então se iniciava.

No carnaval do ano 2000 a Santa Cruz obteve a 6ª colocação do Grupo A (equivalente à segunda divisão).

 

Brasil, Brasil, oh meu Brasil

500 anos de riquezas

Um grito de alerta ecoou

Em defesa da Mãe Natureza

(Dito Foguete e Carlinhos Moleque)

 

“S.O.S. Planeta Terra – Santuário da Vida” (2009)

A escola da zona oeste retratou um pedido de socorro do planeta, debateu a devastação ambiental e criticou a ação predatória do homem. Foto: Divulgação/Acadêmicos de Santa Cruz

Em 2009, a Acadêmicos de Santa Cruz seguiu engajada na questão ambiental. A verde e branco promoveu, através do enredo “S.O.S Planeta Terra – Santuário da Vida”, uma viagem por um mundo a preservar, com o objetivo de despertar uma nova consciência e uma responsabilidade real pelo futuro da Terra e da Humanidade. A escola chegou em 6º lugar no Grupo A (segunda divisão).

A autora do enredo, Rosele Nicolau (1970 - 2009), morreu poucos dias após o desfile da Santa Cruz, vítima de infarto fulminante aos 48 anos de idade. Ela era casada com o presidente da agremiação, Antônio Moisés Coutinho, o Zezo. Além de integrante da comissão de carnaval, Rosele era autora dos enredos apresentados pela escola de 2003 a 2009.

 

O meu planeta está ferido

E eu não vou cruzar os braços

Um novo tempo eu mesmo faço

O meu pedido de perdão não vou calar

(Marcelo Borboleta, Charuto, Xerú, Bolão e Macumbinha)


 

“Diz Mata! Digo Verde. A Natureza Veste a Incerteza, e o Amanhã? (O Clamor da Floresta)” (2016)

O primeiro carro da Santa Cruz em 2016 simbolizou o lamento da Mãe Natureza. Foto: Rodrigo Gorosito/G1)


Para o carnaval de 2016 mais uma vez a Acadêmicos de Santa Cruz apostou na temática ambiental. O enredo falou da preservação da natureza e das florestas com o título “Diz mata! Digo verde. A natureza veste a incerteza. E o amanhã? (O clamor pela floresta)”, de uma comissão de carnaval formada pelos Lucas Pinto, Lane Santana e Munir Nicolau. O autor do tema foi o compositor Claudio Russo, que teve o apoio de pesquisa de Luciane Conrado.

O primeiro carro da escola simbolizou o lamento da Mãe Natureza, com várias folhas verdes. Entre as demais alegorias, outra que atraiu olhares foi a segunda, que representou as queimadas. Um boneco de um diabo vermelho sacudiu ao som do samba da Santa Cruz.

A escola da Zona Oeste estourou por pouco o tempo: o desfile durou 56 minutos, um a mais do que o previsto. Pelo atraso, ela foi penalizada e terminou em 12º segundo lugar, na Série A.

 

Quem foi que atirou esta flecha

No peito sagrado da vida

Tupã ganha a forma de um trovão

Natureza em comunhão

Contra a força do invasor

Vai tocar o mais frio coração

Pra cada palmo de devastação

Nasce um ramo de amor

(Zé Gloria, André Felix, Júnior, Marquinho Beija-flor, Roni Remandiola, Betinho, De Araújo e J. Giovanni)

 

“Santa é Minha Cruz. É Luz da Preservação. O Meu Canto é Flecha Certeira, para Findar o Pranto da Devastação” (2023)

Em 2023, a Santa Cruz desfilou pela primeira vez na Intendente Magalhães, disputando a Série Prata (terceira divisão), com o enredo “Santa é Minha Cruz. É Luz da Preservação. Meu Canto é Flecha Certeira para Findar o Pranto da Devastação", do carnavalesco Cid Carvalho.

O tema teve como mote a preservação da natureza, denunciar a destruição da floresta e clamar pela salvação dos povos originários. Apesar de ser apontada como uma das favoritas ao acesso, a escola terminou na 5ª colocação do desfile ocorrido na sexta-feira pós-folia.

Verde Eldorado

Fadado por um Criador

Das lascas brilhantes douradas

Se fez santuário de raro esplendor

Nas águas do amor as sementes

Raízes, fartura pros seus descendentes

(Zé Glória, J. Giovanni, Zieco Santa Cruz, Marquinho Bombeiro, Cláudio Brow, Elias Andrade, Robinho Ki Samba, Zezé, Jorge Maia, Júnior Boboda e Rafael Lima)

 



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Gerson Brisolara (Rixxa Jr.)
rixxajr@yahoo.com.br