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Ajodún Oxumarê — O dia em que o arco-íris tocou a terra (Jacarezinho - 2027)
INTRODUÇÃO Celebrando nossos 60 anos, nós, do Jacarezinho, trazemos conosco a coragem de (re)começar. Depois de um tempo que nos exigiu resiliência, encontramos em Oxumarê os valores que nos inspiram a renovar as forças, mudar de pele e seguir adiante, devolvendo à nossa comunidade o orgulho de ser Jacarezinho. É desse desejo de recomeço que nasce o nosso enredo. A partir da cosmogonia iorubá, somos conduzidos pela voz de um filho do orixá, que atravessa uma experiência de renascimento e, ao reconhecer Oxumarê em si e no mundo, transforma a própria existência em celebração. Esse momento encontra no Ajodún sua expressão coletiva. O tradicional festejo em reverência ao orixá, realizado pela Casa de Oxumarê, em Salvador, ganha ainda mais significado na medida em que o Egbé completa 190 anos de história. A confluência desses tempos festivos traduz aquilo que desejamos para o nosso carnaval: uma grande reverência ao sagrado e à nossa ancestralidade. Que o arco-íris de Babá Oxumarê sempre esteja sobre o Jacarezinho! SINOPSE AJODÚN OXUMARÊ — O DIA EM QUE O ARCO-ÍRIS TOCOU A TERRA “Àwon omo Ejò ayé ń rìn lójú àánú sí ayò.” “Os filhos da serpente encantada caminham sob a graça rumo à felicidade.” Orí já havia apontado o meu destino. Fui chamado para abraçar o caminho iridescente que por Orunmilá-Ifá me foi confirmado. Assumindo minha responsabilidade diante do sagrado, me recolhi no roncó. Naquele ventre ritual, o cosmo bailou indistinto. E alcancei o tempo primordial da criação. Das águas salobras de Nanã, Oxumarê surgiu coleante. Ser telúrico, conhecedor dos mistérios da Terra, percorreu superfície, enroscando-se a ela para manter unidas as forças do universo e impedir que elas se dispersassem. Alma elétrica da asa eletromagnética do mundo. Desde então, teu movimento sustenta a trama que entrelaça todas as coisas. Tempo e corda trançada nos nervos dos olhos. E um fio ancestral, tecido por Oxumarê desde aquele princípio, me conduziu ao reconhecimento da minha filiação. Sob a tua pele sagrada, (re)nasci para a minha própria história. Mas como compreender o tempo em espiral que meu pai sibila? Em Oxumarê, nada conhece a estagnação. Ele vem ele volta. Ele vem e volta. Vem e volta. Ele é o eterno dançar das águas, que ascendem como bruma ao encontro do firmamento, para regressarem como chuva ao seio de onde vieram, renovando o vigor do mundo. Por ser o limiar em que a escuridão cede aos primeiros raios da manhã, ele é a alternância entre o dia e a noite, o equilíbrio entre os opostos, sem que nenhum deles precise deixar de ser. Ele também é a inexorável mudança das estações, o instante em que a natureza troca de pele e revela que a transformação é o princípio de todo ciclo. Oxumarê ensina que é necessário insistir contra toda imobilidade, como na dança dos astros, em que cada corpo celeste segue tua órbita e, ao mesmo tempo, mantém o cosmo em movimento permanente. E me lembra que todas as riquezas do universo lhe pertencem, estando presentes no céu e na terra, desdobrando-se em múltiplas formas de prosperidade, dos cauris às gemas. Cada ensinamento moldou meu caráter e me revelou uma maneira diferente de ser e de estar. À medida que sou capaz de compreender os teus fundamentos, começo também a reconhecê-lo naquilo que me cerca. Pois o sagrado também se revela na matéria. São insígnias que guardam o teu axé e ferramentas pelas quais tua presença se revela à humanidade. E me empenho constantemente para que todos possam vê-lo e reverenciá-lo em tua forma mais bonita. Nelas deposito meu respeito, meu zelo e minha confiança. Tenho comigo a tua faca de bronze que um dia riscou o céu e, ao conter a chuva que ameaçava a criação, deixou no firmamento o teu sinal. Peço que se confeccione o mais belo dos ebiri, cuja haste curva parece o rastro que deixas sobre a terra. Solicito a forja do mais brilhante draká, instrumento que te acompanha quando danças, desenhando no espaço o teu corpo e fazendo de cada movimento uma manifestação de teu axé. Ostento, me orgulho, os fios de conta e o brajá, tuas escamas de rapto e réptil sagradas, que me recobrem e anunciam a linhagem à qual pertenço. Assento o teu axé no igbá, ornado por tuas pedras preciosas, reunidas em drusas, cristais que parecem nascer uns dos outros, multiplicando-se em formas sinuosas como se a própria terra tivesse aprendido a serpentear. É assim que renovo a todo momento a ligação entre os nosso mundos. Celebramos, meu pai, tua permanência entre nós. E dessa forma reafirmamos o nosso compromisso de manter vivos os ensinamentos que o senhor nos confiou. Toda vez que te celebramos, somos marca viva da tua existência. O nosso egbé desperta antes mesmo de romper a manhã, pois sabemos bem que é neste momento que mora o teu mistério, e se reúne para renovar os laços entre os nossos irmãos e irmãs e com o sagrado. Hasteamos as bandeiras em tua honra, anunciando solenemente a abertura do teu festejo. E elas tremulavam, como se imitassem o movimento sinuoso que o faz quando está em terra. Maceramos as ewé que trazem a tua essência, para o preparo de um bom banho, em busca da limpeza, da purificação e da renovação. As tuas iyabassés, herdeiras de um saber transmitido de geração em geração, preparam não só o adimú, moldando-o na forma da serpente para recordar que a vida não conhece o fim, mas também o alimento que repartimos entre os nossos, fazendo circular o teu axé entre nós. E antes do grande momento de tua celebração, nos encontramos para o Ipadê, dando a Exu, conhecedor da tua linguagem, o que lhe cabe, mas também reverenciamos aqueles que vieram antes de nós e fizeram deste chão a morada que hoje nos acolhe. Os teus ogãs esticam o couro dos atabaques para fazer ecoar o bravum em tua devoção. Os teus orin ficam a cargo do alabê, que, com o teu timbre, estabelece a comunicação entre nós. E quando o teu xirê enfim se abre, meu pai, tudo aquilo que preparamos ao longo do dia se torna ainda mais pujante. Porque o senhor é o arco luminoso que incide sobre a Terra e nos faz lembrar de sempre caminhar rumo à felicidade. Enquanto houver quem saiba chamar pelo teu nome, Babá, continuarás dançando entre nós. Jacarezinho, caminhemos sempre sob os fundamentos de Oxumarê, deixando para trás tudo aquilo que já cumpriu o teu ciclo. Sigamos adiante com a certeza de que toda comunidade encontra na renovação a força para transformar o próprio destino. Que nunca nos falte a coragem de mudar de pele quando nos for exigido, sem jamais abandonar a nossa essência. Façamos da perseverança um compromisso cotidiano, da união, nossa maior riqueza e da continuidade o caminho para escrever um novo tempo. Que Oxumarê faça circular entre nós a prosperidade, para que nunca nos falte o pão repartido, a mesa farta, o trabalho honrado, a criatividade que constrói o nosso carnaval. Assim como o arco-íris de meu pai une Orun e Aiyê sem romper o equilíbrio da criação, que também saibamos unir passado e futuro para construirmos, juntos, um amanhã mais luminoso. Jacarezinho, que continuemos sendo o povo iluminado que, na graça de Oxumarê, faz a vida sempre encontrar um meio de continuar. Que cumpramos o chamado de meu pai! Arroboboi Oxumarê! Presidente: Valdir By Toko Vice-presidente: Dona Madalena Direção de carnaval: Jurandir Baptista Carnavalesco: Carlos Eduardo Pesquisa, texto e desenvolvimento: Mateus Pranto, Raphael Homem e João Gabriel Revisão textual: Osmar Igbodê Arte: Bruno Coelho Agradecemos à Casa de Oxumarê, em Salvador, na figura de Babá Egbé, pelo tempo disposto de se fazer fala e escuta para construirmos esse enredo que tanto sensibiliza a comunidade do Jacarezinho. Obras consultadas IGBODÊ, Osmar. Poema Oxumarê, 2024 (utilizado ao longo do nosso texto). LOPES, Nei. Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos. 2. ed. Rio de Janeiro: Malê, 2024. LÜHNING, Angela Elisabeth; MATA, Sivanilton Encarnação da. Casa de Oxumarê: os cânticos que encantaram Pierre Verger. Salvador: Vento Leste, 2010. MARTINS, Cléo. Euá: a senhora das possibilidades. Ilustrações de Luciana Justiniani. Rio de Janeiro: Pallas, 2006. (Coleção Orixás, 4). MARTINS, Cléo. Nanã: a senhora dos primórdios. Ilustrações de Luciana Justiniani. Rio de Janeiro: Pallas, 2011. (Coleção Orixás, 7). POLI, Ivan. Antropologia dos orixás: a civilização iorubá a partir de seus mitos, seus orikis e diáspora. 2. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2019. POLI, Ivan. Pedagogia dos orixás. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2024. PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. PRANDI, Reginaldo. Orixás: os deuses que habitam em nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2025. SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nàgô e a morte: Pàde, Àsèsè e o culto Égun na Bahia. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. SODRÉ, Jaime. A influência da religião afro-brasileira na obra escultórica do Mestre Didi. Salvador: EDUFBA, 2006. VASCONCELOS, Márcio (org.). Zeladores de voduns: do Benin ao Maranhão. São Luis: Pitombal Livros & Discos, 2016. VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 2. ed. Salvador: Fundação Pierre Verger, 2018. ZACHARIAS, José Jorge de Morais. Ori Axé: a dimensão arquetípica dos orixás. São Paulo: Vetor, 1998. | ||