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Sambas eliminados
Sambas eliminados

Confira as avaliações sobre sambas-enredo derrotados nas eliminatórias

Anos 70 a 90
2001 a 2010
2011 a 2015
2016 a 2018


Dói Dói Dói Dói Dói (Salgueiro 2016 - Parceria de Antônio Gonzaga) - Talvez o concorrente mais polêmico dos últimos tempos. É uma obra que teve o intuito de representar o novo, oferecendo uma proposta assumidamente vanguardista por parte dos compositores. Afinal, pra uma escola diferente: um samba diferente. O jovem Antônio Gonzaga conseguiu sua segunda final consecutiva no Salgueiro, eliminando na semifinal da Copa do Samba estabelecida pela Academia a obra de ninguém menos do que o veteraníssimo David Corrêa. O hino tem uma estrutura diferenciada de um samba-enredo, muitas vezes se assemelhando a um pagode em sua parte inicial e não apresentando um refrão principal. A obra procura se distanciar da sinopse ao inserir trechos inspirados em canções, como o tão referido refrão Dói dói dói dói dói/um amor faz sofrer/dois amor faz chorar, citação de um ponto de pomba-gira mantendo o erro de concordância original pra justificar a referência umbandista, representando o amor do malandro. Jorge Aragão também é citado em Malandro eu ando querendo falar com você. Até Silas de Oliveira é homenageado no verso Agora eu quero ver quem é malandro não pode correr, retirado de seu samba "Rádio Patrulha. Por fim o versoSalgueiro tem um jeito assim de chegar tão mansamente e tomar conta de mim é uma referência a Chico Buarque, autor de "A Ópera do Malandro", que na canção "O Meu Amor" (que compõe a trilha da peça) canta O meu amor tem um jeito manso que é só seu. A bela obra ganhou muitos simpatizantes (e também bastantes críticos) e de imediato já sinalizou um possível retorno a uma tradição salgueirense, de inovar historicamente no estilo dos sambas-enredo, tal qual ocorreu com Zuzuca em 1971 ("Festa para um Rei Negro") e em 1993 com o "Ita". Esteve muito próximo da vitória na Academia, que não quis arriscar e optou pelo samba da parceria de Marcelo Motta, do estilo que a escola vem apresentando desde 2007. Após a final, Antônio Gonzaga afirmou que continuará fazendo sambas diferentes nas próximas disputas. Jovem talentoso, tem muito futuro pela frente. Nota do samba: 9,7. Letra do samba



Laroyê Laroyê (Salgueiro 2016 - Parceria de Xande de Pilares) - Outrora favorito na disputa do Salgueiro, acabou eliminado na semifinal da Copa do Samba pelo hino que viria a ser o vencedor. Numa opinião particular, era o melhor da eliminatória, embalado por dois refrães que seriam os melhores do ano. O principal é embalado pela repetição da saudação exu "Laroyê", que proporciona uma excelente variação melódica e forte explosão, apesar de ter despertado algumas críticas devido a questões religiosas. Já o central apresenta uma das mais belas melodias da temporada, começando para trás em tom grave em Ê meu camarada pela madrugada, pra na virada subir o tom no mesmo verso, dando outro ótimo efeito. As duas partes são pra cima, do estilo que o Salgueiro se acostumou a trazer nos últimos anos. Destaco a melodia de O rei da noite o barão da ralé/Já chamou quem tem fé/pra sambar no terreiro além de A luz que ilumina é o luar.O único porém da obra no meu entendimento é o começo da segunda, onde a melodia não me agrada. Na gravação, Ito Melodia e Luizinho Andanças mostram uma grande sintonia, com direito a impagáveis gargalhadas do intérprete da União da Ilha ao longo da faixa, encarnando o verdadeiro malandro. São três passadas que não cansam nunca, numa audição deliciosa. Nota do samba: 9,8. Letra do samba


Agora quem dá Bola é o Povo da Baixada (Grande Rio 2016 - Parceria de Júnior Fragga) - Numa safra de gosto duvidoso para muitos, este samba praticamente destoava dos demais (à exceção do campeão, que aprecio). É mais um hino que tenta fugir dos padrões, com um segundo refrão próximo do principal e o restante da melodia se sustentando muito bem, sem um refrão central clássico. É impressionante a coesão do conjunto melódico da obra, de composição muito feliz e que recebeu mais um registro impecável de Wander Pires, um dos melhores intérpretes da história do Carnaval e que, após os problemas de saúde do ano passado, retornou com tudo e vive uma das melhores fases da carreira. São muitos os destaques do samba-enredo, gosto bastante da cabeça, do refrão Quem bebe..., da melhor parte da obra que são os seis versos a partir de No vai-e-vem da maré... (com direito à inversão no penúltimo verso para No vem e vai da maré, boa sacada), além de curtir também o trecho paraíso pra viver/uma onda desaguou dentro do meu coração/encontrei o meu amor, alvinegro campeão. O samba tem uma leve queda de qualidade na última parte, que compreende as citações a Pelé e Neymar, mas nem de longe este belo samba-enredo perde seu brilho. Estranhamente ficou de fora da final, preterido por vários sambas bem inferiores. Nota do samba: 9,8. Letra do samba


Laiá laiá pra colheita festejar (Unidos da Tijuca 2016 - Parceria de Sereno) - A safra da Unidos da Tijuca para o Carnaval 2016 foi uma das mais marcantes dos últimos tempos no Carnaval Carioca. Foram muitos os sambas de qualidade, não é exagero afirmar que pelo menos uns cinco concorrentes superam todas as obras levadas pela escola do período entre 2004 e 2015, justamente o período mais vitorioso da longeva história da agremiação, que compreende a entrada de Paulo Barros para o rol dos carnavalescos históricos e revolucionários, deixando o samba-enredo em segundo plano. Curiosamente, a Unidos da Tijuca resolveu retomar o caminho interrompido desde o antológico "Agudás" (2003) com um enredo não muito original sobre a agricultura, patrocinado pela cidade mato-grossense de Sorriso, e que motivou inevitáveis comparações com o clássico "Festa no Arraiá" da Vila Isabel de 2013. E o que se viu foi as obras funcionais darem lugar a sambas refinados, densos e de excelente qualidade melódica. O maravilhoso samba-enredo da parceria de Dudu Nobre foi o justo vitorioso e será candidato ao Estandarte de Ouro no quesito. Dentre os vários ótimos sambas que ficaram pelo caminho na disputa tijucana, escolhi comentar o da parceria de Sereno, defendido por Nêgo e Gabby Moura. Os dois refrães são maravilhosos, o principal possui um laiá laiá que flui perfeitamente no canto e o do meio é mais valente. O conjunto melódico das demais partes é coeso e agradável, possuindo muitos belos momentos como A plantação pra semente dá fruto e raiz e te amar Tijuca sustenta o coração. Eliminado por volta da metade da disputa, também representaria muito bem o Pavão tijucano. Curioso o alusivo entoado por Gabby Moura, cuja melodia se assemelha a "Pra Frente Brasil", além do verso Este chão vou preparar do refrão dar uma sonoridade semelhante a "Exexão" vou preparar nas vozes de Gabby e de Nêgo. Nota do samba: 9,4. Letra do samba


A Águia de Madureira voltou (Portela 2016 - Parceria de Luís Carlos Máximo) - Um belíssimo samba, que também poderia representar muito bem a Águia. Em relação aos anteriores da parceria de Máximo, Toninho Nascimento e cia, possui melodia mais pesada e o andamento é mais pra trás, mas repete a fórmula dos refrães espalhados ao longo da composição, além da excelente poesia que é característica. No primeiro refrão, há a ousadia de versos sem rimas. A sequência mantém o ótimo nível, até chegar no melhor trecho, tanto em termos de letra quanto de melodia: Deserto de gelo de areia/Floresta, planeta, onde for/Te trago uma flor de verdade/Se um dia eu voltar meu amor. O refrão seguinte é novamente de qualidade, utilizando o verbo "balangar" (sinônimo de "balançar") que causa um bom efeito. Por fim, o refrão principal de seis versos é bonito de se ouvir, com a boa sacada da repetição do verso A Águia de Madureira voltou, porém não acreditaria no seu bom funcionamento na avenida devido a uma tendência de arrastamento, já que não há muita explosão. Resumindo: é um samba-enredo de audição deliciosa, mas que dificilmente teria um bom desempenho na Sapucaí. Tanto que, na final portelense, foi o único que não obteve voto dos segmentos. Gilsinho prova na faixa sua profunda identificação com a Portela, escola que defendeu por oito carnavais seguidos, onde retornará em 2016. Nota do samba: 9,5. Letra do samba


Pedrinha Miudinha de Aruanda (Mangueira 2016 - Parceria de Lequinho)- Na gravação, o samba não chama tanta atenção como no registro do samba campeão, além do de Tantinho. Mas na quadra funcionou muito bem, tanto que sua derrota na final deixou muitos simpatizantes órfãos. Se os dois hinos citados prezam mais pela emoção, este destila valentia do primeiro ao último verso, procurando dar ênfase maior à africanidade presente no enredo sobre Maria Bethânia. E os dois refrães centrais de quatro versos inseridos durante o samba inseriram mais ousadia à composição, que se assemelha mais a um samba de temática afro - que a Mangueira historicamente não tem tradição - do que uma homenagem a uma das maiores vozes de nossa MPB (tributos que a verde-e-rosa já se acostumou a fazer). Os destaques melódicos vão para o primeiro refrão Oia matamba de cacurucaia zinguê (da canção "Ponto de Iansã", gravada por Bethânia e também presente no samba da União da Ilha de 1974), além do final Hoje a pedrinha miudinha de Aruanda é o patuá da minha Estação Primeira(referente ao ponto de umbanda "Pedrinha", também registrada por Maria). Nota do samba: 9,4. Letra do samba


Isso é Mangueira! (Mangueira 2016 - Parceria de Tantinho) - Uma nostalgia pura. Samba mais cadenciado e classudo, com uma gravação de uma leveza singular, conduzida de forma magistral por Tantinho, célebre integrante da Velha Guarda mangueirense. Dono de uma voz forte e firme, que lembra a do saudoso Jurandir, Tantinho abrilhanta a obra, que ao estilo de muitos sambas dos anos 80, tem no refrão principal um complemento melódico ao invés de ser a parte mais chamativa, com a cabeça iniciando de fato o canto. Os refrães mais fortes são os centrais, em especial oôôôô abrem caminhos pra filha de Dona Canô. Todo o samba possui excelentes passagens melódicas, em especial a parte que encerra a segunda, antecedendo o refrão. A letra parece descompromissada com a sinopse, com sua poesia procurando despertar mais emoção por parte do ouvinte. A gravação acompanha o nível do samba, com destaque para as cordas que dão um toque ainda mais especial. Defendido por Bruno Ribas na quadra, acabou desclassificado na semifinal, impedindo assim um duelo na decisão similar ao da Vila Isabel em 2005, quando um samba também lindamente nostálgico (Luiz Carlos da Vila) mediu forças contra outro mais adequado aos padrões atuais (André Diniz) e que se tornaria vencedor. Seria interessante ver o saudosismo que o hino de Tantinho representa desafiar o campeão (Alemão do Cavaco), de mais características do presente. Nota do samba: 10. Letra do samba


Eu tô com Jorge, nada vai me derrubar (Estácio 2016 - Parceria de Dominguinhos do Estácio) - O samba-enredo apresenta a valentia que teria mais identificação com o enredo sobre São Jorge, é um hino mais "guerreiro". Porém, devido ao pragmatismo motivado pela ingrata missão de abrir os desfiles do Especial, a obra foi precocemente cortada nas primeiras eliminatórias. Uma desclassificação com um quê político que nos remete à eliminação prematura do clássico concorrente de 2008 pra Viradouro do mesmo Dominguinhos, fato que motivou sua saída da agremiação de Niterói na época. O concorrente, também assinado e defendido por Tinga (vencedor do samba junto com Dominguinhos em 2015), é superior ao samba que a Estácio levará para a Sapucaí. Se a vermelho-e-branco tivesse uma posição de desfile distinta, ou ainda continuasse no Acesso, possivelmente teria grandes chances de vencer a disputa. O trecho que antecede o refrão principal, a partir de No galope ligeiro, certeiro ele vem, é o melhor da obra, funcionando como uma excelente transição pro belo refrão, apesar do porém do verso Eu tô com Jorge, coloquial demais. A faixa tem uma particularidade: a introdução de quase quatro minutos em que o velho Domingos entoa o samba na íntegra, apenas acompanhado de violão. Nota do samba: 9,5. Letra do samba


Serrinha, um Caso de Amor (Império Serrano 2016 - Parceria de Paulinho Valença) - O enredo sobre a Serrinha que menciona Silas de Oliveira no ano de seu centenário gerou uma safra da qual se esperava mais, ainda mais em se tratando de Império Serrano e seu histórico de sambas-enredo que dispensa comentários. De todos os concorrentes imperianos, este foi o mais aclamado, de valentia e animação irresistíveis e com um fortíssimo e emocionante refrão principal que invoca a velha "Aquarela Brasileira" do eterno viga-mestre. Toda a melodia é envolvente e coesa, e certamente transmitiria mais garra ao componente em relação ao samba vencedor, que apostará mais na dolência. Sua derrota na final para a parceria de Arlindo Cruz deixou muitos bambas perplexos. Nota do samba: 9,5. Letra do samba


Água (Cubango 2016 - Denise Reis) - Uma síntese da injustiça das disputas atuais de samba-enredo. Denise Reis, desconhecida no mundo do samba, se aventurou sozinha no concurso da Cubango. A gravação original na voz da compositora é artesanal, praticamente caseira, evidenciando a falta de investimento, um contraste total com as parcerias abonadas que injetam rios de dinheiro nas eliminatórias. No entanto, percebe-se na obra uma beleza tão inocente que chega a ser ingênua. É uma composição repleta de sentimento, de melodia dolente, bem distante do padrão de samba-enredo que se é cantado atualmente. A música se enquadraria muito mais na voz de alguma diva da MPB do que numa passagem na Sapucaí. Tanto que seu único refrão de dois versos e o trecho sequencial de seis é entoado por duas vezes durante a passada. O descompromisso do samba também é refletido nos vários versos que se iniciam com "água". Por vezes, a letra é até simplória demais, como água que é mar que é rio, que é neve no frio; que lava tudo que existe; refrigera o coração... Mas tal simplicidade emociona, pouco importando que a letra não abranja boa parte da sinopse. A obra ganhou muitos adeptos nas redes sociais, incluindo Leonardo Bessa, que regravou o samba e o defendeu na quadra. Como esperado, o hino foi desclassificado na primeira eliminatória. Mas Denise Reis fez muito bonito, deixando sua marca entre os grandes sambistas. Nota do samba: 9,7. Letra do samba



O TEMA MUSICAL DEU MAIS SAUDADE, LEONEL (Vila Isabel 2017 - Parceria de André Diniz) 
- Na véspera do Natal de 2015, o compositor Leonel, de inúmeras vitórias na Vila Isabel, foi cruelmente assassinado a tiros na porta de casa. Não conseguiu ver a azul-e-branco desfilar com mais um samba de sua autoria no Carnaval seguinte. Diante do tema referente à música, os compositores, com muita inspiração, desenvolveram uma obra repleta de ousadia e inovação. Foi o primeiro samba-enredo em forma de acróstico, com as letras iniciais de cada verso formando a frase "O tema musical deu mais saudade Leonel", numa sensível e belíssima homenagem. Com relação ao ano anterior, Martinho, Arlindo Cruz e Mart'nália deixaram a parceria galáctica de André Diniz, que recebeu o retorno do velho colega Evandro Bocão. O clipe lançado conta com várias personalidades do Carnaval cantando o samba-enredo, inclusive Rosa Magalhães (!). No inicio da gravação, Diniz e Bocão relembram suas estreias no Carnaval a convite do compositor Adil, quando venceram no Arranco em 1992, com o alusivo relembrando aquele samba (Tem robô que tece renda/pra rendeira namorar...). Assim como na obra que exaltou o Pai Arraia para 2016, o concorrente não cativa na primeira audição: é necessário você ouvi-lo mais algumas vezes pra perceber suas riquezas e virtudes. O refrão principal é o único porém, não possui tanta força (por isso tirei um décimo na avaliação). Mas o restante apresenta uma melodia ímpar e tocante, exalando lirismo, sem deixar de lado a valentia. O clímax total é o refrão invertido. O expediente não é inédito, pois já fora utilizado pela parceria de Zé Glória e J. Giovanni na Mocidade para 2015 (também cantado por Tinga), que não se classificou para aquela final. Mas o efeito causado por Diniz e Bocão é arrebatador. O canto na gravação dá a impressão de estar atravessado, mas é tudo proposital. É como se a melodia estivesse representando passos de dança, o que fica mais claro quando Tinga canta o refrão no registro. As duas melodias inseridas em sequência no verso Milongueiro tango é pura sedução são coisas de gênio. Digo sem medo que o refrão invertido é um dos melhores trechos melódicos do século no gênero, mas infelizmente a Vila teve receio de colocá-lo na avenida por temer um provável canto embolado. A letra mantém o alto nível e os bem-humorados trocadilhos "nota jazz" e "se o pop está" conquistam de vez o ouvinte. André Diniz, o maior campeão da história da Vila Isabel, não perdia na agremiação desde 2001. E a invencibilidade foi perdida justamente com uma das melhores obras que compôs para a escola de Noel. Por apenas dois votos (a parceria campeã recebeu oito dos segmentos, contra seis de Diniz), a Sapucaí não verá aquele que seria um dos grandes hinos do novo milênio no Carnaval. O melhor samba-enredo do ano - na minha opinião - não integrará a bolacha digital. Nota do samba: 9,9. Letra do samba



QUEM MANDOU DUVIDAR? (Mangueira 2017 - Parceria de Tantinho)
 - A única vitória do grande Tantinho na Mangueira ocorreu no distante 1977 (Panapanã, o Segredo do Amor). E por pouco o baluarte não quebrou o tabu de 40 anos, com mais um belo samba entre os tantos que o compositor vem abrilhantando as últimas disputas mangueirenses. Diferentemente do ano anterior, quando seu lindo samba-enredo para Maria Bethânia parou na semifinal, Tantinho (que no começo da faixa canta como alusivo "Sala de Recepção" de Cartola) chegou na finalíssima aliado a compositores como Felipe Filósofo (que vive grande fase criativa) e Deivid Domênico (vencedor em 2015). Em comparação com seu hino para 2016, os refrões ganharam mais força e valentia, o que não significa que tenha perdido seu estilo nostálgico característico, que remete a desfiles mais antigos em muitos momentos. O refrão principal talvez seja um misto de saudosismo com contemporaneidade. Como é comum nos hinos de Tantinho, ele não é a parte mais chamativa, e sim o complemento final da melodia, apenas um gancho para a cabeça. Mas acrescentando um elemento atual, que deu muito certo no desfile campeão de 2016: a repetição do último verso. O efeito em Só quem pode com mandinga que carrega patuá, no entanto, não é tão arrebatador quanto o Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá. Tanto que o melhor refrão do concorrente é o do refrão falso do meio (que está começando a virar febre nas composições), que mexeria com os brios de todos os mangueirenses caso fosse pra Sapucaí. O Quem mandou duvidar? Quem mandou duvidar? reflete bem o espírito de quem não acreditava no triunfo da verde-e-rosa, com a sequência totalmente inserida no contexto do enredo: O santo é forte, ninguém vai me derrubar. As demais partes também aparecem muito bem, com destaque para os últimos versos da segunda, que fazem ótima preparação para o refrão: Mandei fazer um capacete de pena/a vela acesa ilumina o gongá/Seu sete flechas e a cabocla Jurema/vão correr gira, saravá meu orixá. Melodicamente, era o melhor samba da disputa mangueirense, mas ainda com um quê de nostalgia, não tão preparado para enfrentar um desfile nos dias de hoje. Tanto que, na gravação, a primeira passada entoada por Tantinho e Joyce Cândido está um tanto "pra trás". Quando Igor Sorriso sobe o tom nas duas seguintes, parece outro samba. A impressão que dá é que Tantinho, aos poucos, tenta se habituar ao estilo mais atual do samba-enredo, mas sem deixar totalmente de lado o lirismo que é a sua marca. Seu bicampeonato particular virá mais cedo ou mais tarde, já vem merecendo faz tempos. Nota do samba: 9,7. Letra do samba


FLECHADA DE AMOR NÃO DÓI (Beija-Flor 2017 - Parceria de Ailson Picanço) - Ailson é um paraense apaixonado pela Beija-Flor, com seu talento como compositor abrilhantando a discografia do Carnaval Virtual da LIESV. E assim como outros sambistas que começaram na folia virtual e hoje emplacam sambas por todo o Brasil (Thiago Meiners, Willian Tadeu, Imperial, Júnior Santana, Leandro Kfé, Thiago Morganti, entre outros), Ailson resolveu concorrer pela primeira vez no Carnaval "real" na sua escola de coração, reunindo na parceria outros integrantes de ligas das escolas do computador (entre eles, o colunista do SAMBARIO Victor Raphael). E os jovens compositores construíram um samba com toda a essência nilopolitana: denso, pesado e com poesia rebuscada. A linha melódica se mantém coesa, chegando ao ápice no ótimo refrão central e a grande sacada Flechada de amor não dói. No entanto, a parceria apostou num falso refrão principal, na contramão da tendência da moda, que é o falso no do meio. Mas a melodia do trecho, por mais que conste versos como Alma e sangue de guerreiro, demonstra mais requinte do que a valentia comum nos sambas da Beija-Flor e seria melhor adequada como um fechamento de segunda parte, servindo de gancho para um refrão principal. A obra - gravada por Edu Chagas (Mocidade Unida do Santa Marta), Thatiane Carvalho (apoio da Estácio) e Millena Wainer (Estrelinha da Mocidade) - ficou entre as 12 melhores do concurso da Soberana, que contou com uma bela safra de concorrentes (a melhor da temporada), mas merecia ter ido mais adiante nas eliminatórias. Se alcançasse uma final, poderia muito bem dar trabalho para o "Juremê". Um ótimo début de Ailson Picanço e parceiros. Nota do samba: 9,6. Letra do samba


HOJE MEU CANTO LEVANTOU POEIRA (Grande Rio 2017 - Parceria de Márcio das Camisas)
 - Embalado pela vitória no concurso de 2016, a parceria de Márcio das Camisas, para exaltar Ivete Sangalo, compôs uma obra superior ao samba sobre Santos. A excelente produção do registro dos compositores, repleta de teclados, guitarras e instrumentos de percussão, insere força à obra, que chegou à final da Tricolor de Duque de Caxias. O concorrente exibe mais valentia que o samba-enredo vencedor, que é mais dolente. Em comum com o samba que desfilou na Sapucaí em 2016 está a força concentrada do refrão do meio, além de contar com um ótimo complemento que serve de transição para a segunda parte: Cantei fricote quando a nega me chamou, para mim o melhor momento da obra. O refrão principal poderia ocasionar críticas pela repetição do poeira levantou poeira levantou..., mas esta causa um ótimo efeito, que poderia dar certo na Sapucaí. A cabeça do samba também é muito forte (bate forte o tambor/xequerê e agogô/hoje tem festa...). Na final, a apresentação do hino chamou mais atenção pela queda de Quinho do palco, sob o olhar da própria Ivete. Felizmente nada aconteceu com o querido intérprete. Nota do samba: 9,4. Letra do samba


DEIXA O CALDEIRÃO FERVER (Salgueiro 2017 - Parceria de Antônio Gonzaga) - É um samba-enredo que estaria para sempre no limbo, não fosse um episódio inusitado ocorrido no Sábado das Campeãs do Carnaval 2017. Furiosa com os descontos que o samba salgueirense levou no quesito dos jurados, decisivos para tirar a escola da briga pelo campeonato, a presidente Regina Celi ordenou ao carro de som que os intérpretes entoassem no esquenta esta obra derrotada na final. Constrangidos, Leonardo Bessa e Serginho do Porto cantaram na Sapucaí o hino que travou uma disputa equilibrada na disputa da quadra com a música que desfilou (e desfilaria novamente naquela noite). A atitude de Regina desagradou a muitos, que consideraram um desrespeito com os compositores campeões, como se a presidente estivesse depositando neles a responsabilidade pela perda do título. É até interessante que as obras derrotadas na quadra sejam relembradas futuramente, desde que sem fins de retaliação ou revanchismo. Sobre o samba em si, na minha opinião se equivale em qualidade ao vencedor, sendo um pouco inferior, ou seja, nada de excepcional, apenas mediano. A única parte que chama atenção na obra é a melodia do verso meu sonho desfilou e carnavalizou, que antecede a preparação para o estribilho principal, a partir do sou do povo, represento uma nação... até o bis que é a marca do samba: Você vai ver esse caldeirão ferver, numa característica semelhante ao samba campeão, em que também apenas o único verso se repete. É o samba menos inspirado que a parceria do jovem e promissor Gonzaga fez até agora para a Academia, mas a faixa pelo menos rende boas risadas no final com Tinga zoando a gagueira de Leozinho Nunes ao mandar um "é o s-s-som do bem", famoso na voz do cantor da São Clemente. Nota do samba: 9,1. Letra do samba


A TERRA É ÁGUA, A ILHA É FOGO (União da Ilha 2017 - Parceria de Bigode) - É uma obra com duas citações históricas. É sempre gratificante ver a obra de Roberto Ribeiro relembrada, e é o que este concorrente insulano faz ao se remeter à canção "Tempo Ê" no envolvente e curto refrão central, um dos maiores sucessos do saudoso menino-rei imperiano, que Wander Pires também canta no alusivo, resultando num bonito cartão de visitas para a faixa. E fechando o samba, é citado o verso oia matamba do kakurucaia zinguê, numa clara alusão ao clássico de 1974 "Lendas e Festas das Yabás", cujo trecho era o refrão do samba que embalou o título do Grupo 2 daquele ano, levando a União da Ilha pela primeira vez ao grupo principal em 1975. O complexo enredo afro sobre o tempo e a criação da natureza resultou numa disputa que há muito não se via na Ilha do Governador, com belos sambas concorrendo na quadra. O samba vencedor foi um dos melhores do ano no Grupo Especial. Mas este concorrente, também assinado por nomes como Ivo Meirelles, Carlinhos da Paz e Cadinho (ex-intérprete do Boi da Ilha) e que foi eliminado na semifinal, igualmente poderia fazer bonito na Sapucai. Acho interessante essas tentativas atuais de se fazer uma espécie de meio refrão, com versos fortes antecedendo os que serão repetidos. E o meio refrão abre muito bem este samba fortíssimo, com toda a pegada que um samba da temática merece. Afinal, o a terra é água, a Ilha é fogo/ar pra gente respirar de novo é viciante. A primeira é em menor, antecedendo o refrão do meio que cita a música de Roberto Ribeiro, valorizando a valentia do hino. A segunda parte é mais extensa, com muitas palavras difíceis em virtude do enredo (o que foi injustamente canetado pelo júri da LIESA com relação ao samba que desfilou), mas o balanço da melodia aliada à excelente gravação de Wander em nenhum momento torna a segunda cansativa, nem mesmo a citação à Baterilha compromete este belíssimo hino que jamais merece ser esquecido. Também existe uma versão do samba-enredo na voz de Ito Melodia. Nota do samba: 9,8. Letra do samba


CORRI PRA VER, PRA VER QUEM ERA... (Portela 2018 - Parceria de Celso Lopes) - Um dos sambas mais aclamados da disputa portelense, tem na melodia dolente o seu ponto forte. Ela possui um recurso interessante, que é um falso refrão central (eita gente arretada...) que acaba por anteceder uma repetição, tornando o conjunto melódico ainda mais encorpado e servindo muito bem como transição para a ótima segunda parte. O refrão principal faz uma inteligente referência ao célebre samba de quadra "Corri pra Ver", um dos mais famosos da Águia. A letra torna o enredo de Rosa Magalhães perfeitamente compreensível, de poesia direta e até didática, sem se preocupar com algo mais rebuscado. Mesmo sendo simples e até ingênua em alguns momentos, a letra possui sacadas brilhantes como na cabeça há quem diga: peregrino/mas o certo é que o destino é liberdade. Na gravação, uma aguerrida atuação de Evandro Malandro e Leléu, mesmo com o andamento bastante cadenciado. A obra caiu a duas etapas da final portelense, chocando muitos bambas. Nota do samba: 9,6. Letra do samba


MEU NOME É PORTELA (Portela 2018 - Parceria de Eliane Faria) - Na minha opinião, o melhor samba da disputa da Portela na temporada. Muito porque era o que mais se assemelhava aos hinos anteriores da escola. A parceria procurou se espelhar nas últimas obras vencedoras de Samir Trindade e companhia e trouxe um samba-enredo que lembra muitas vezes um de exaltação. São dois refrães deliciosos espalhados pelo meio do samba, com suas partes que os compreendem fluindo muito bem e a segunda curta funcionando como boa transição para o refrão principal, que adere ao recurso familiar da citação a Oswaldo Cruz e Madureira (apesar do porém de negar ser rimado com sambá). Na gravação, a primeira passada cadenciadíssima com a Velha Guarda é primorosa. Nas duas seguintes mais aceleradas, Ciganerey comprova sua grande fase com uma soberba interpretação. Injustamente cortado na semifinal da disputa. Nota do samba: 9,7. Letra do samba


O TEU VERMELHO TEM PODER (Salgueiro 2018 - Parceria de Marcelo Motta) - A derrota mais dolorida para os aficionados por Carnaval da temporada. Desde "Candaces" de 2007, quando obteve sua primeira vitória no Salgueiro, Marcelo Motta sempre despontou como favorito em todas as disputas da vermelho-e-branco, obtendo vários triunfos nos últimos anos. Até nos revéses contribui para as eliminatórias com excelentes sambas, como o derrotado de 2014. Para 2018, a parceria do compositor nos brindou com sua melhor obra destinada à Academia. O enredo de exaltação à mulher negra rendeu um samba valentíssimo, de pegada, mas também transparecendo emoção. Seguindo o contexto do tema, o samba parece ser feito especialmente para a voz de Grazzi Brasil, que brilha na gravação em estúdio, que também conta com Igor Sorriso e Diego Nicolau. É um hino repleto de partes brilhantes, como de ser a dor/que seja amor, com uma melodia marcante que antecede os versos que servem de preparação para o refrão do meio, o melhor trecho do samba-enredo. Os últimos versos da segunda também são excelentes, dispensando predicados: ela é poesia da favela/o amor que vem de Deus/inspiração pros versos meus/mãe baiana, porta-bandeira/teu colo me embalou a vida inteira/razão do meu viver/teu vermelho tem poder. Foi surpreendentemente cortado na semifinal, para a comoção de muita gente. Vamos torcer para o samba não ser relembrado no esquenta salgueirense do Sábado das Campeãs, por um motivo semelhante ao que eu relembrarei na análise da obra "Deixa o Caldeirão Ferver", situada um pouco mais abaixo nesta página. Nota do samba: 9,7. Letra do samba


EMBALA EU MAMÃE (CANJERÊ) (Salgueiro 2018 - Parceria de Rafa Hecht) - Eis um samba despretensioso, de autoria de compositores novatos, estreantes na Academia do Samba. Sem medo de serem felizes, teceram uma obra ousadíssima, pouco usual nos desfiles recentes. Valentíssimo do primeiro ao último verso, o hino aposta na repetição melódica gingada em inúmeros trechos, deixando sua audição muito divertida graças à vibrante interpretação de Pixulé (que, devoto de umbanda, muitas vezes parece incorporar no canto da obra), apesar de sua voz estar um tanto abafada na gravação. O refrão do meio se resume à repetição de embala eu mamãe, sem nenhum nuance poético, buscando apenas um efeito melódico, através da transição para o poderoso começo da segunda parte, que nos remete a um pagode. A sequência ocorre com o trecho do canjerê, que mantém o samba envolvente e cativa ainda mais o ouvinte. A segunda se encerra com tanta pegada que acaba revelando um refrão principal apenas correto, mas que em nada compromete a ótima obra, muito divertida de escutar, no entanto difícilma de cantar. Ainda assim, foi um dos três finalistas do Salgueiro para 2018, indicando um belo futuro para a jovem parceria. Faço uma ressalva ao alusivo na faixa, em que uma moça abusa de notas longas e até sai do tom em alguns momentos. Isso por quase um minuto. Estas introduções nos sambas concorrentes têm ultimamente deixado os internautas bambas de saco cheio (a do samba vencedor do Salgueiro que o diga). Nota do samba: 9,6. Letra do samba


DEIXA A ALEGRIA TE CONTAGIAR (Grande Rio 2018 - Parceria de Márcio das Camisas) - Involuntariamente, o samba acabou marcado por uma tragédia. O compositor Márcio das Camisas, campeão de samba-enredo pela Grande Rio em 2006, 2007 e 2016, faleceu apenas 10 dias depois da final que disputou na escola do coração, vitimado por uma queda numa laje durante as comemorações de seu aniversário. Sua obra era a melhor da disputa da Tricolor de Caxias para 2018 que consagrou outra de qualidade bem limitada. Já este concorrente, assim como os anteriores do saudoso compositor, ganha mais uma excelente defesa de Quinho, que vinha sendo para Márcio o que, por exemplo, Tinga é pra os sambas de Lequinho, Wander Pires com relação a André Diniz ou Anderson Paz representa para João Estevam e Eduardo Medrado. A produção da gravação é impecável, disfarçando eventuais limitações técnicas da obra, bem cadenciada e deixando a audição muito agradável. Sobre o samba, ele tenta ser em muitos momentos mais dolente do que "pra cima", se diferenciando do estilo "pipoca" que tanto agrada Emerson Dias. O refrão principal e a cabeça não chamam tanta atenção, entretanto a melodia começa a crescer a partir do verso No palco sou o mestre da loucura, até explodir no excelente refrão do meio, a melhor parte do samba. A segunda alia uma certa dolência com animação, de maneira ao sempre irreverente Quinho emendar um rrrrrrreeeeealmente à la Chacrinha, fechando o samba muito bem e funcionando adequadamente como transição para o refrão. Não se tem muito o que dizer da letra, pois um tema sobre o Velho Guerreiro deixa inevitáveis as citações presentes nos versos. O samba (também assinado pelo ator Oscar Magrini) é muito superior ao vencedor, ainda que não consiga imaginá-lo na voz de Emerson. Enfim, Márcio das Camisas vai deixar saudades para os torcedores da Grande Rio, uma triste perda para o Carnaval Carioca. Nota do samba: 9,4. Letra do samba


OH PATRIA… QUEM PARIU TANTA SANDICE (Beija-Flor 2018 - Parceria de Cláudio Russo) - A letra que marcou o retorno de Cláudio Russo às disputas da Beija-Flor é de uma fúria que transparece toda a revolta com um país que cada vez mais anda pra trás, em que políticos desgovernam sem escrúpulos, sucateiam os cofres públicos e ainda tentam jogar o povo contra o Carnaval, como se este fosse o culpado de todas as nossas mazelas. E tornam os monstros da ficção apenas meras caricaturas. É essa a proposta da Deusa da Passarela para 2018, e se a letra do samba vencedor é mais emotiva, desta obra que foi eliminada na semifinal é bem agressiva. O samba é repleto de versos pessimistas e negativos, como quem semeia rancor, vai colher agonia; o ferimento é profundo; condenando a esperança à escuridão; pra não ver criança esperando a bala perdida... Sem dúvida um retrato atual do que passamos, sem floreios, indo mais direto à ferida, não escondendo a revolta em outros trechos chamativos e por que não dizer grosseiros como tão pobre que só tem dinheiro e oh pátria, quem pariu tanta sandice/não faz carnaval/nem entende o que eu disse. A melodia segue o tom da letra, também bem forte, cheia de furor e de ótima interpretação de Wander Pires. As partes de maior destaque são o falso refrão do meio (quer saber, somos todos pais/omissão refletida no espelho) e o excelente refrão principal, para mim superior ao refrão do samba vencedor, em que o verso vem pra rua, vem lutar com pandeiro e viola é outro reflexo do que o sambista está passando com a intolerância do atual prefeito carioca. Nota do samba: 9,5. Letra do samba


EU TENHO O COMEÇO, MAS NÃO VOU TER FIM (Imperatriz 2018 - Parceria de Moisés Santiago) - A parceria que vinha de um bicampeonato na Imperatriz não conseguiu o tri com uma obra que, se no estúdio recebeu um registro memorável de Wander Pires, na quadra deixou a desejar na final com uma apresentação arrastada. Ainda assim é um samba com bons recursos. Dos finalistas, a parceria foi a que tentou fazer uma poesia mais subjetiva, não apegada a citações, diante da difícil sinopse de Cahê Rodrigues sobre o Museu Nacional. A fórmula dos últimos hinos campeões gresilenses foi seguida, com mais uma letra extensa e o banho do estúdio disfarçando alguns problemas na melodia, retilínea em certos momentos, mas excelente em trechos como a lua essa menina/vem com a gente brincar e a partir de No tempo eu sou guardião da memória, que antecede o curto refrão central, a melhor parte do concorrente tanto em letra quanto em melodia, numa curta síntese do complexo tema da Imperatriz, momento feliz dos compositores: Eu tenho o começo, mas não vou ter fim/O conhecimento faz parte de mim. Nota do samba: 9,6. Letra do samba


OS FILHOS DA IMPERATRIZ (Imperatriz 2018 - Parceria de Elymar Santos) - Também finalista da Imperatriz, o samba é ainda mais extenso que o da parceria de Moisés Santiago, mas com variações melódicas interessantes em muitos trechos. Entretanto, a impressão dada é que se alguns versos da segunda parte fossem suprimidos (que o diga o trocadilho com reLuzia), não fariam tanta falta no conjunto melódico, o que poderia melhorar sua fluência. Em meio a um samba irregular, destaco o refrão curto que sucede a cabeça (Linda arquitetura, traços europeus) que, como observado por Anderson Baltar na cobertura da final gresilense pela Rádio Arquibancada, se encaixaria muito bem num samba noventista da escola na voz de Preto Jóia. Outros bons momentos são o falso refrão central e os últimos versos da segunda a partir de o povo vislumbra o jardim. Na gravação no estúdio, Nêgo conduz o samba com muita segurança ao lado de Diego Nicolau e Leonardo Bessa, no entanto o veterano intérprete irmão de Neguinho da Beija-Flor esteve ausente na final na quadra. Após o anúncio do resultado pelo diretor Wagner Araújo, Elymar Santos, com toda a sua elegância, se juntou aos compositores vencedores e cantou feliz o samba campeão no palco, num exemplo a ser seguido por todos. Nota do samba: 9,5. Letra do samba


BOTA DENDÊ (União da Ilha 2018 - Parceria de Márcio André Filho) - Em contrapartida aos últimos sambas burocráticos que a Ilha vem levando, este concorrente possui uma melodia mais nostálgica, com dois refrães deliciosos (principalmente o do meio) e uma levada oitentista, sem se apegar aos detalhes da sinopse, simplicando mais o tema. A obra tem uma leve queda de qualidade na segunda parte, mas nada que atrapalhe a audição bem agradável. Na primeira passada, o compositor Carlos Caetano conduz o samba na gravação num estilo pagodeado, entregando com categoria para Marquinho Art Samba na segunda. Uma pena que a escola desperdiçou o samba-enredo, o cortando bem antes da final. Seria uma tentativa de retorno às origens, de hinos mais leves e curtos, com a cara da velha Ilha. Nota do samba: 9,6. Letra do samba


OUÇA O CLAMOR QUE VEM DA FORMIGA (Império da Tijuca 2018 - Parceria de João Perigo) - Com uma soberba interpretação de Zé Paulo Sierra na gravação, é espantosa a regularidade melódica deste concorrente, que possui uma levada envolvente do começo ao fim, perfeitamente adequada para a temática afro. À medida em que o samba é cantado, sua melodia vai crescendo, obtendo seus ápices no excelente refrão central, na segunda parte a partir de Abre o xirê, deixa a gira girar, até explodir no ótimo refrão principal. A Império da Tijuca levará para a Sapucaí em 2018 um samba muito bom, mas esta obra (eliminada a duas etapas da final da disputa) é ainda melhor. Nota do samba: 9,8. Letra do samba