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19 de janeiro de 2026, nº 41 Leia as colunas anteriores de Túlio Rabelo Coluna anterior: O Aclamado Vencedor - Portela 1970 A ARTE DA BATUCADA IMPROVISADA
Amigos do Sambario! Quem vos escreve é Túlio Rabelo, do canal no YouTube TR - Sambas de Enredo.
Nesta coluna, vou trazer à tona um dom que é pra poucos,
o samba em sua mais pura raiz e alma. De forma despretensiosa, vou
falar da fascinante arte de produzir batucada no improviso, com o que
tiver em mãos, ao redor. Samba com caixa de fósforo,
caixa de papelão, com mão batendo na mesa, palmas, e
outras mais variadas formas inovadoras de se musicar. Essa coluna tem
intenção de dar luz ao tema e espero que seja
inspiração para as novas gerações, que
pouco conhecem e tem um certo preconceito. Viva a batucada artesanal,
essa beleza rara. Dá pra fazer de graça, mas requer a
graça, o dom.
Estava
eu vendo uma entrevista do Bala, do Salgueiro, nas redes sociais, e me
deparo com ele batucando com o que tinha em mãos um samba de sua
autoria. São duas escovas de engraxar sapato, seu instrumento de
trabalho naquele momento do vídeo, sendo ressignificado
musicalmente ao promover o atrito dos objetos. Gerou um som bem legal,
ao modo clássico de se fazer samba.
Veja o vídeo:
Imediatamente,
me lembrei de trechos de sambas concorrentes da Lins Imperial 1979,
apresentados no documentário sobre o enredo “A Guerra do
Reino Divino”. A partir da minutagem 04:51, o documentário
expõe o(s) compositor(es) fazendo ecoar suas poesias. Mais
abaixo, prints destes momentos. Poetas, que com simplicidade,
encantam.
No
primeiro samba, o poeta está com o que parece ser uma caixa de
tinta, sendo notável também a presença de caixa de
fósforo na parte sonora. No segundo, os compositores
estão no que parece ser o balcão de um bar, onde batendo
com a mão no balcão e com caixa de fósforo,
fazendo entoar seus versos. O vídeo corta e vem mais um belo
registro, onde o poeta faz seu improviso com caixa de fósforo.
Assista:
Nesses
anos de canal, ofereci o espaço para resgatar melodia de sambas
oficiais e concorrentes que não possuíam lembrança
disponível na internet. Em certa ocasião, me foi enviado
um bonito samba concorrente do Independentes de Cordovil 1986, enviado
por intermédio de André Poesia. Logo ao ouvir, me
fascinei. A gravação, de forma simples, com batucada
feita no improviso, mas bem feita, evidencia a qualidade da obra.
Escute o samba de Paulo Mathias, Luizinho e cia, na voz de Luizinho:
Luciano
Brás, amigo poeta, também é detentor deste dom.
Ele deixou o seguinte relato para esta coluna: “Desde cedo que o
sambista tem o dom do ritmo nas pontas dos dedos, na palma da
mão. Batia-se na lata quando ia buscar água na bica do
morro… No balcão das biroscas, tendinhas e
botecos… Nas mesas dos bares… É
espontâneo!!! Começou a se cantar um samba, o batuque
improvisado surge espontaneamente, e sem dificuldade. Era assim nas
gravações caseiras de samba enredo, no instrumento de
trabalho ao mostrar um samba que estava nascendo a um colega… O
sambista, o autêntico sambista, já tem o dom do ritmo, do
batuque, da habilidades herdada das senzalas e terreiros
centenários. É o sangue, tá na alma, vem de
berço. Onde tem samba amador, descompromissado, só pro
lazer, tem o batuque improvisado que está tão enraizado
na cultura do sambista, que quase passa despercebido em seu desempenho.
O batuque é a moldura do samba, e o samba é a passarela
do batuque”. Para ilustrar sua arte, segue um samba em sua voz,
feito com Jailson da Grande Rio, onde é utilizado um improviso
de batucar com a mão em uma mesa. Ficou bem próximo de
uma batucada real.
Diante de todo o exposto, peço licença agora para homenagear um amigo, compositor, carnavalesco, intérprete… artista completo. Desde novo, foi aprimorando na sua arte de fazer batucada improvisada, utilizando variados objetos, dentre os quais destaco caixa de sapato, revestida com sacolinha, o qual traz um bom acústico ao som. Com um tempero único, que traz uma pegada de respeito aos sambas, William brilha!!! Com inúmeras exposições de maquete em sua carreira, tive o imenso prazer de publicar em meu canal muitas das trilhas sonoras destas exposições, embaladas por batucadas improvisadas. Mais recentemente, também fui contemplado com sambas de minha autoria, com a voz e a batucada deste artista completo. Quanta honra!!! Na preparação para essa coluna, William fez alguns relatos, que resumo a seguir. William destacou que essa arte da batucada improvisada é autêntica. Advém do natural, da vocação espontânea. De fato, ela não tem a potência e o refino de um estúdio, a qualidade dos instrumentos, mas é obviamente algo bem mais autêntico. O som do estúdio fica longe do som da avenida. Imagine uma multiplicação do som [improvisado], ficaria bem perto do que é bater ao ar livre numa rua. Eu ouço [a gravação da batucada improvisada] com fone de ouvido, melhora a audição, se comparado ao som direto do celular”. Segue um vídeo do canal pessoal do William, mostrando a arte na prática, onde ele aparece cantando “Um Dedo na Política”: Confira a playlist de sambas do William Ferreira: E pra terminar, peço outra vez licença, dessa vez para mostrar três sambas de minha autoria neste formato improvisado. No primeiro, graças ao apoio do William, venci uma disputa de samba em homenagem ao saudoso tenor Vicente Celestino: O segundo é uma homenagem a Cora Coralina: O terceiro é uma homenagem a Padre Cícero: Termino a coluna, com uma frase que vem em minha mente que resume essa linda arte, simples, mais autêntica: A PERFEIÇÃO NA IMPERFEIÇÃO. ALGUMAS IMAGENS QUE PEDI PRA IA DO BING COPILOT (MICROSOFT): As duas primeiras são as que eu mais gostei e próximo do que idealizei.
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Túlio Rabelo |
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