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OS ESQUENTAS DO CARNAVAL 2026
O Carnaval de 2025 marcou uma mudança importante na dinâmica dos desfiles do Grupo Especial. O aumento do número de dias de apresentação e a consequente redução do número de escolas por noite ampliaram significativamente o tempo destinado aos chamados "esquentas". Entre aspectos positivos e negativos, a principal consequência foi a possibilidade de cada agremiação explorar melhor esse momento de preparação, valorizando sua história e fortalecendo a comunicação entre bateria, canto e arquibancadas. Esse ano tivemos o primeiro álbum dedicado exclusivamente aos esquentas desde o histórico lançamento de 1998. Diante disso, nos propomos a analisar como cada escola aproveitou esse espaço em termos de repertório, impacto emocional, aproveitamento do tempo e capacidade de mobilização do público. VIRADOURO - A campeã do Carnaval apresentou um dos melhores esquentas do ano. A abertura com o ponto cantado de Malunguinho (que já parece ter se tornado uma entidade protetora da escola) e o samba-enredo de 2025 criou imediatamente uma atmosfera de identidade e pertencimento. O repertório trouxe ainda sambas históricos da Viradouro e da Estácio de Sá, numa justa homenagem a Ciça, figura central na trajetória de ambas as escolas. Apenas um detalhe: vários dos sambas apresentados não foram originalmente conduzidos pelo mestre homenageado à frente da bateria, caso de "Tititi do Sapoti" e dos sambas de 1997 e 1998 da escola de Niterói. Nota: 9.9 BEIJA-FLOR - A estreia da dupla Nino e Jéssica foi bastante positiva. O samba-exaltação e o hino de 2025 levantaram o Setor 1 logo nos primeiros minutos. A homenagem a Neguinho da Beija-Flor foi um dos pontos altos do esquenta. Já o samba de roda inserido na sequência acabou reduzindo um pouco a intensidade emocional construída até então, provocando uma leve queda de temperatura antes do desfile. Nota: 9.9 VILA ISABEL - A Vila apostou forte nos sambas-exaltação e conseguiu um início extremamente impactante. O público respondeu prontamente, criando um ambiente favorável para a entrada da escola na avenida. Por outro lado, a ausência de sambas-enredo históricos pesou. Ficou a sensação de que o repertório poderia ter explorado mais a rica memória musical da agremiação. Nota: 9.9 SALGUEIRO - O melhor esquenta do Carnaval. O Salgueiro encontrou a combinação perfeita entre seus sambas-exaltação e alguns dos mais importantes sambas-enredo de sua história. Tudo funcionou com naturalidade e intensidade crescente. A coincidência histórica de desfilar na quarta-feira, dia dedicado a Xangô, pela primeira vez em sua trajetória, tornou ainda mais simbólica a execução do samba de 2019, dedicado ao orixá. Esquenta que preparou espiritualmente e emocionalmente a escola para um grande desfile. Nota: 10 IMPERATRIZ - A
escola iniciou com o samba de 2024, que, assim como o de 2026, recebeu
críticas durante o pré-carnaval, mas funcionou muito bem
na avenida. Em seguida, veio o clássico de 2025, que já
nasceu histórico graças ao inesquecível "Vai
começar!". O resultado foi um esquenta impactante e eficiente.
Ainda assim, alguns sambas mais antigos fizeram falta e poderiam ter
enriquecido ainda mais a viagem pela memória musical da
agremiação. Nota: 9.9
MANGUEIRA - A abertura com "Exaltação à Mangueira" e "Tem Capoeira" era simplesmente obrigatória e funcionou muito bem. Entretanto, a sequência trouxe um samba menos conhecido e uma adaptação oriunda do repertório de torcida organizada, opções que encontraram menor adesão junto ao público. Além disso, a ausência de grandes sambas-enredo históricos da verde e rosa deixou uma lacuna perceptível. Nota: 9.8 UNIDOS DA TIJUCA - Um ótimo esquenta, reunindo sambas-exaltação e sambas-enredo impactantes. O destaque absoluto foi "O Dono da Terra", talvez o maior samba da história da escola. O casamento entre os intérpretes e a bateria foi perfeito, funcionando como um verdadeiro prenúncio da aula de chão que a Tijuca daria logo após. Nota: 10 GRANDE RIO - Embora tenha recorrido a clássicos recentes que ajudaram a elevar o patamar do cancioneiro da escola, o esquenta acabou transmitindo uma sensação de frieza inesperada. Faltou um pouco mais de explosão e envolvimento emocional. A impressão deixada pelo esquenta acabou antecipando algumas características do desfile que seria apresentado em seguida. Nota: 9.8 PARAÍSO DO TUIUTI - A escola optou por um formato enxuto. O tradicional samba-exaltação e o histórico hino de 2018, associado ao maior desfile de sua história, cumpriram bem seu papel. O samba de 2026 foi recitado durante boa parte do esquenta. A estratégia foi inteligente por reforçar a obra junto ao público, mas deixou uma sensação de incompletude para quem esperava ouvir mais sambas históricos da agremiação. Nota: 9.8 PORTELA - A abertura com seus dois maiores sambas-exaltação foi capaz de arrancar lágrimas de muitos portelenses. A sequência de sambas-enredo clássicos manteve o nível elevado. Os pontos de Oxum e Oxóssi, embora legítimos dentro dos fundamentos religiosos da escola, destoaram um pouco do repertório tradicionalmente associado a ela e reduziram momentaneamente a intensidade da apresentação. A retomada veio em grande estilo, com as homenagens a Gilsinho no ponto de Xangô e na emocionante execução de "Maria, Maria", de Milton Nascimento. Nota: 9.9 MOCIDADE - Uma verdadeira aula de construção de repertório. A sequência formada pelos sambas de 1985, 1992, 1991 e 2022 mostrou a força histórica da escola. Houve ainda um bonito componente afetivo quando Igor Vianna iniciou o esquenta interpretando um samba eternizado na voz de seu pai, Ney Viana, durante o campeonato de 1985. Uma pena que tanto o samba-enredo quanto o desfile apresentados em seguida não tenham conseguido sustentar o clima criado. Nota: 10 ACADÊMICOS DE NITERÓI - Fundada em 2022, a escola naturalmente ainda não possui um repertório histórico consolidado para explorar. Diante desse desafio, construiu um esquenta eficiente com a presença de Fafá de Belém, a execução da canção de Gonzaguinha (já incorporada anteriormente ao repertório carnavalesco pelo Império Serrano) e o sempre infalível "Vou Festejar". A resposta do público foi imediata, levantando a Sapucaí e demonstrando que, mesmo sem tradição acumulada, é possível construir momentos de grande comunicação popular. Nota: 9.9 Naturalmente, esse texto se trata de um exercício lúdico e despretensioso feito por um apaixonado pelo Carnaval. O objetivo é apenas contribuir para o debate e oferecer críticas construtivas sobre um momento tão importantes dos desfiles, que durante muito tempo foi negligenciado, sobretudo pela televisão. Cabe parabenizar a LIESA pela iniciativa de ampliar o tempo destinado aos esquentas, transformando-os em verdadeiros espetáculos dentro do espetáculo. Também merece destaque o esforço das escolas em resgatar suas histórias, valorizar seus repertórios e proporcionar ao público momentos de emoção, memória afetiva e celebração da cultura do samba. Se o desfile é a consagração, o esquenta tornou-se cada vez mais a alma que prepara a avenida para recebê-la. | ||