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28 de agosto de 2026, nº 118 Leia as colunas anteriores de Carlos Fonseca OS QUASE ENREDOS
'Lembra quantos enredos já pisaram na avenida? Foram muitos. E independente da época, alguns deles não saem (ou nunca saíram) da retinta e da lembrança do sambista, sejam aqueles os mais históricos ou os mais trágicos. Agora, e aqueles que quase foram enredo? O carnaval é um farto terreno de histórias que foram anunciadas, porém esquecidas no meio do processo – como se fosse um “cemitério de artes” que a gente vê num Instagram aleatório. Recentemente, a Tradição – atualmente na Série Prata – anunciou que faria em 2027 um enredo em homenagem à Nicole Bahls. Pode parecer devaneio do colunista, mas isso aconteceu mesmo. No máximo, aumentaria o nível de aleatoriedade de uma escola que exaltou Silvio Santos (1930-2024) na Sapucaí vinte e cinco antes e que, já em 2026, surpreendera ao cantar a vida da auspiciosa Gardênia Cavalcanti, uma conhecida comunicadora da mídia fluminense. Porém, a aleatoriedade da vez durou pouco e o Condor anunciou esta semana que fará outro enredo no ano que vem, desistindo da exaltação à influenciadora e ex-assistente de palco do “Pânico”. As trocas de enredo no meio do caminho tem sido bem frequentes nos últimos anos. Pra 2027 mesmo, a Inocentes de Belford Roxo havia anunciado um tema (“Carybé”) e vai desfilar com outro (“Anarriê, Alavantu: O Grande Auto de Maracanaú!”), mesmo processo que passou a Em Cima da Hora em 2026 – substituindo Saquarema pelas pombagiras. Mas há outros – e muitos – casos, como relembraremos a seguir.
Ave Maria Olorum – Unidos de Padre Miguel 2023 Começamos pela Sapucaí. Vindo de um bom desfile sobre o orixá Iroko, a Unidos pretendia manter a temática de ancestralidade quando anunciou um enredo sobre a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, tradicional confraria religiosa afro-católica localizada na Bahia. Tudo certo. Tirando o errado: a irmandade rejeitou a homenagem alegando não ter sido consultada pela escola para o desenvolvimento do tema. A escola, por sua vez, reconheceu o erro e desistiu do enredo – substituindo-o por “Baião de Mouros”. '
Logo do enredo (posteriormente descartado) que a Unidos de Padre Miguel faria sobre a Irmandade da Boa Morte em 2023
Tarsila do Amaral – Unidos de Padre Miguel 2020 A Irmandade da Boa Morte não foi o único projeto que a UPM deixou pra trás. Três anos antes, o Boi Vermelho anunciara um enredo sobre a pintora Tarsila do Amaral e seu legado artístico. Mas no meio do caminho havia uma crise institucional entre o carnaval e a prefeitura do Rio, o que fez a escola “reposicionar o projeto” e trocar a pintora pela história da capoeira (terminando vice-campeã daquele carnaval).
Dominguinhos do Estácio – Unidos do Cabuçu 2021/2022 A doce voz do Terreiro Grande por pouco não recebeu uma homenagem ainda em vida. Em meio à indefinição acerca do carnaval durante a pandemia de Covid-19, a Primeira Campeã do Sambódromo anunciou o enredo sobre Dominguinhos do Estácio em outubro de 2020. Porém, nada saiu como o planejado: Dominguinhos faleceu seis meses depois do anúncio e o enredo foi descartado após um desacerto da escola com a família do intérprete. Quando o carnaval pôde voltar, a Cabuçu optou por reeditar seu enredo de 1986 – “Deu a Louca na História! E agora Stanislaw, como é que fica?.
Soltando os Bichos – Paraíso do Tuiuti 2021/2022 Durante o período pandêmico, o Tuiuti anunciou o retorno de Paulo Barros (afastado da agremiação desde 2003) e um enredo sobre proteção aos animais numa visão infantil. Uma disputa de samba chegou a ser promovida pela escola mesmo sob restrições sanitárias – foi escolhida a obra assinada por Mumuzinho, Moacyr Luz, Júlio Alves, Pier e Cláudio Russo. Porém, nada disso acabou valendo: o Tuiuti decidiu replanejar seu carnaval seguinte, anunciando “Ka Ríba Tí Ye – Que Nossos Caminhos Se Abram” pra desfilar em 2022. Somente em 2026 que “Soltando os Bichos” enfim foi pra avenida pela Netinhos do Tuiuti, escola mirim da agremiação de São Cristóvão.
A odisseia de Áquila – Nenê de Vila Matilde 2021/2022 Mais uma dos tempos pandêmicos. Para sua até então inédita incursão pela terceira divisão no Anhembi, a Nenê anunciou um enredo que pretendia “carnavalizar uma contemplação ampla a partir da ave (a águia, símbolo da escola)” e “se aventurar pela mitologia grega, passando também pelo comportamento da ave, sem deixar de fora todos os simbolismos que a ela foram agregados pela história”. Com um samba pronto pra desfilar – a escola chegou a abrir a quadra pra fazer disputa, mesmo com as restrições impostas pelo Covid – a Nenê resolveu desistir da “odisseia” (motivada pelo cancelamento do desfile de 2021) e optou pela reedição de “Narciso Negro” – de 1997, conseguindo o título do Acesso 2.
Reciclagem – Caprichosos de Pilares 2005 Essa é lá das antigas. A azul e branca pretendia levar à Sapucaí uma temática sobre o lixo e a reciclagem, inspirado num enredo próprio de antigamente – o de 1989. O título era "Caprichosos acende a fornalha para reciclar a vida. Cuidado com as fagulhas!". A situação, porém, mudou por causa da política da escola: Paulo de Almeida retornou à presidência, mudou toda a equipe e trocou a reciclagem por uma homenagem aos 20 anos da LIESA.
Sons e Ritmos da Capital da Encantaria – Vigário Geral 2024 Agora uma mais recente. A tricolor da Zona Norte carioca pretendia falar sobre as manifestações culturais de São Luís do Maranhão. Pretendia, pois faltando cinco meses para o desfile, a escola mudou de ideia, pegou a estrada e trocou São Luís por Maracanaú – inaugurando, assim por dizer, a trilogia de enredos sobre o município cearense na Sapucaí. O enredo que acabou descartado pela Vigário foi reaproveitado na Intendente Magalhães (com o mesmo trio de carnavalescos-autores) pela Siri de Ramos no ano seguinte – e a escola subiu.
Michael Jackson – Unidos de Vila Maria 2024 Faltava pouco mais de um mês para o desfile de 2023 quando a Vila Mais Famosa surpreendeu o mundo carnavalesco com um anúncio: Michael Jackson seria o enredo da agremiação para 2024. Cabe aqui um contexto: à época, era comum a escola anunciar o tema seguinte pouco antes do desfile do “carnaval vigente”, digamos assim. Voltando à história, a celebração da vida e obra do Rei do Pop já tinha até título anunciado (“Vila Maria Encena o Rei do Pop no Maior Espetáculo da Terra”) e o cover oficial do artista Rodrigo Teaser colocado pra encerrar o desfile da escola – naquele ano, a Vila Maria fez uma exaltação à própria história. Tudo estava dando certo. Estava: a Vila Maria acabou rebaixada para o Grupo de Acesso. O enredo sobre Michael, obviamente, acabou descartado e não seria daquela vez que teríamos um “moonwalk” no Anhembi. Essa história toda, aliás, daria uma coluna à parte...
Vila Maria chegou a anunciar Michael Jackson como enredo para 2024 (mas não o fez)
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