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Os sambas de São Paulo 2026 por Cláudio Carvalho

Os sambas de São Paulo 2026 por Cláudio Carvalho


As avaliações e notas referidas apresentam critérios distintos dos utilizados pelo júri oficial, em nada relacionados aos referidos desempenhos que as obras virão a ter no desfile


Rosas de Ouro: atual campeã, a escola da Brasilândia opta claramente por uma estratégia conservadora. O samba parece desenhado para “não errar”, respeitando rigorosamente o regulamento e evitando riscos estéticos ou estruturais. A melodia é correta, de fácil assimilação, mas pouco memorável; não há grandes momentos de arrebatamento. A letra cumpre bem a função narrativa, mas carece de imagens mais fortes ou soluções poéticas menos previsíveis. É um samba eficiente, pensado para pontuar bem, mas que dificilmente ficará na memória afetiva do público. Nota: 9,8

Acadêmicos do Tatuapé: o samba  tem como principal trunfo seus refrões, especialmente o do meio, que funciona muito bem tanto em gravação quanto projetado para a avenida. A melodia flui com naturalidade e tem bom encaixe com a bateria. Por outro lado, a letra recorre a clichês bastante comuns em enredos ligados ao campo e à ruralidade, o que enfraquece um pouco o discurso poético. Ainda assim, trata-se de um samba competitivo, comunicativo e com grande potencial de rendimento no desfile. Nota: 9,8

Gaviões da Fiel: samba valente, de escola grande, que confirma a excelente fase dos Gaviões no quesito. A melodia é vibrante, com momentos de explosão bem distribuídos, e a letra dialoga com o enredo sem se perder em excessos. O grande diferencial está na interpretação de Ernesto, absolutamente dominante: sua leitura segura, intensa e carismática eleva o samba a outro patamar. É daqueles casos em que intérprete e obra se potencializam mutuamente, criando uma faixa de alto impacto. Nota: 9,9

Mocidade Alegre: com uma clara pegada retrô, sobretudo na construção melódica mais cadenciada, o samba da Mocidade Alegre aposta na elegância e na emoção, e não na velocidade ou na explosão fácil. A homenagem a Malunga Léa é conduzida com respeito, sensibilidade e coerência estética, ganhando ainda mais significado por se tratar de uma escola presidida por uma mulher. A letra é bem construída e a melodia favorece o canto coletivo, o que tende a render uma bela resposta da comunidade na avenida. Nota: 9,9

Camisa Verde e Branco: um samba que já nasce com status de clássico. Forte, envolvente e contagiante desde os primeiros versos, é daqueles que crescem a cada audição. A letra é potente, reverente e profunda, e a melodia tem alma ritualística, criando uma atmosfera de devoção que conversa diretamente com o enredo. Sem medo de arriscar a comparação, é plausível colocá-lo entre os maiores da história da escola, ao lado do antológico samba de 1982. Ao se concentrar exclusivamente na divindade Exu, ganha densidade e força simbólica, superando, inclusive, obras recentes de temática semelhante em outras agremiações. Nota: 10

Dragões da Real: outro grande destaque do disco. O samba dialoga com a tradição dos clássicos que abordam os povos originários, tanto na letra quanto na melodia, sem soar datado. A narrativa é consistente, respeitosa e bem estruturada, enquanto a melodia alterna momentos de contemplação e explosão. O refrão principal é fortíssimo, de fácil adesão popular, e tende a ser um dos grandes momentos do desfile. Samba maduro, seguro e artisticamente relevante. Nota: 10

Águia de Ouro: Mokum Amsterdã é um enredo distante do imaginário mais tradicional do samba e do carnaval, o que se reflete diretamente na obra. O samba até cumpre seu papel narrativo, mas carece de emoção e de momentos realmente marcantes. A melodia é correta, porém linear, e a letra não consegue criar imagens suficientemente fortes para compensar o estranhamento temático. Trata-se de um samba honesto, mas que dificilmente empolga ou se destaca no conjunto do álbum. Nota: 9,6

Estrela do Terceiro Milênio: o grande mérito deste samba está em assumir a lógica da colcha de retalhos como virtude, e não como problema. Em um enredo sobre Paulo César Pinheiro, essa fragmentação é quase inevitável — e aqui ela é bem explorada. A letra costura referências, estilos e atmosferas com inteligência, enquanto a melodia acompanha essa diversidade sem perder unidade. O resultado é um samba rico, afetivo e respeitoso com a obra do homenageado.Nota: 9,9

Vai-Vai: um samba que fica aquém da tradição da escola. A letra é excessivamente simples, repleta de frases feitas e soluções previsíveis, e em alguns momentos assume um tom panfletário que empobrece o discurso carnavalesco. A melodia não chega a comprometer, mas também não empolga nem apresenta grandes momentos de destaque. Para uma escola do peso histórico do Vai-Vai, o resultado soa tímido e pouco inspirado. Nota: 9,7

Colorado do Brás: samba interessante e bem resolvido sobre as bruxas e a bruxaria. A melodia é o grande destaque, criando um clima lúdico e misterioso que dialoga bem com o tema. A letra é funcional e clara, sem grandes arroubos poéticos, mas suficiente para sustentar o enredo. Um samba correto e promissor para ajudar a consolidar a escola no grupo principal. Nota: 9,8

Império de Casa Verde: samba funcional no melhor sentido do termo. A letra é simples, direta, com forte apelo popular, enquanto a melodia tem estilo chiclete e grande poder de comunicação. O enredo sobre os balangandãs, por sua própria simplicidade, favorece essa abordagem mais leve e acessível. É o tipo de samba que não pretende ser sofisticado, mas pode render muito bem na avenida. Nota: 9,8

Barroca Zona Sul: um dos pontos altos do álbum. O samba sobre Oxum é praticamente um ponto cantado, carregado de religiosidade, doçura e força simbólica. A melodia embala com naturalidade, e a letra exala devoção e beleza, criando uma atmosfera ritualística rara. É um samba que emociona, envolve e respeita profundamente a temática afro-religiosa. Nota: 10

Tom Maior: em seu retorno ao Grupo Especial, a aurirrubra do Sumaré traz um samba que sofre com uma narrativa pouco definida, oscilando entre a história da cidade de Uberaba e a biografia de Chico Xavier sem conseguir amarrar plenamente os dois eixos. Ainda assim, apresenta momentos interessantes, sobretudo na melodia. O grande destaque fica para a emocionante homenagem a Gilsinho no final, que confere peso afetivo e simbólico à obra. Nota: 9,7

Mocidade Unida da Mooca: Geledés é mais um excelente samba afro do disco e marca com autoridade a estreia da escola no Grupo Especial. A sequência de refrões logo na cabeça do samba é extremamente eficiente, garantindo impacto imediato. A letra é forte, bem alinhada ao enredo, e a melodia sustenta o clima de celebração e resistência. Nota: 10