PRINCIPAL    EQUIPE    LIVRO DE VISITAS    LINKS    ARQUIVO DE ATUALIZAÇÕES    ARQUIVO DE COLUNAS    CONTATO

Os sambas de São Paulo 2026 por Carlos Fonseca

Os sambas de São Paulo 2026 por Carlos Fonseca


As avaliações e notas referidas apresentam critérios distintos dos utilizados pelo júri oficial, em nada relacionados aos referidos desempenhos que as obras virão a ter no desfile



A GRAVAÇÃO  Gravado na Fábrica do Samba pelo segundo ano consecutivo, o álbum priorizou ainda mais a parte audiovisual  tanto que a impressão é de que os sambas foram gravados em take único, pensando mais nos clipes divulgados no YouTube do que apenas no áudio. Pelo produto final, sem tirar nem pôr em relação ao trabalho de 2025, fica a sensação de que o disco do carnaval paulistano parece cada vez mais um Acústico da Transcontinental do que um disco de samba-enredo (e isso não é uma crítica!!!). No caso de 2026, a gravação melhorou alguns sambas e acelerou desnecessariamente outros.

Quanto a safra,  uma boa melhora em comparado ao cenário terrível do ano passado. Camisa Verde, Barroca Zona Sul, Estrela do Terceiro Milênio, Dragões da Real e Mocidade Alegre despontam como os grandes sambas da temporada, seguidas por MUM e Gaviões no segundo pelotão. Falando rapidamente sobre os Acessos: no 1, destaque as ótimas obras de Independente Tricolor, Dom Bosco e Pérola Negra, além da Mancha Verde reeditando o clássico samba de 2012. Passando ao 2, destaques à homenagem para o carnavalesco Paulo Barros na Primeira da Cidade Líder e mais um sambaço do Morro da Casa Verde.

Ademais, fica a lamentação pela LigaSP ter encerrado a produção da mídia física  ao menos, na contramão do Rio, lançou todos os sambas de uma tacada só.  NOTA DA GRAVAÇÃO: 9.7

 

1  ROSAS DE OURO  Os astros lá no céu pararam pra te ver.

A escola aposta (num bom trocadilho com o tema que a levou ao último campeonato) num samba que repete o mesmo estilo do ano passado  dos mesmos autores. Até a forma diferenciada de cantar o refrão principal (neste caso, o  escrito brilhando de novo / A constelação Rosas de Ouro”) bebe da mesma ideia, mas com uma melodia diferente. É um samba curto, fácil de memorizar, mas que acaba caindo em lugares comuns. Destaque ao refrão central com o interessante De alma azul com ascendente em rosa”. A título de curiosidade: pela primeira vez desde 1995 a Roseira ocupa a primeira faixa de um álbum unificado do Grupo Especial paulistano (em 2011, vale lembrar, ainda havia a divisão entre a LigaSP e a extinta Superliga). - NOTA: 9.7

 

2  ACADÊMICOS DO TATUAPÉ  Puxe o fole sanfoneiro no toque do agogô.

Samba correto sobre a reforma agrária. Fruto de uma junção (a terceira na escola em seis anos), a obra o foge muito das características melódicas de sambas anteriores, mas a letra soube contar bem a história. O fechamento da segunda estrofe Em cada gota de suor eu vi / Brotar, crescer e acreditar / Que a esperança está no amanhã / E assim será / Viver é partilhar / E nada em troca esperar!” é o trecho mais forte e sintetiza a mensagem que a azul e branco quer passar no Anhembi. Celsinho Mody vai bem na faixa, mas quase não dá pra escutar seu grito de guerra (teria sido problema na captação?) - NOTA: 9.8

 

3  GAVIÕES DA FIEL  O marco do futuro é Pindorama!.

Parece que a Fiel reaprendeu mesmo o caminho dos bons sambas  e, principalmente, não se abalou com a polêmica nota que lhe tirou o título no ano passado. Os refrães são bem fortes, embora particularmente goste mais das viradas melódicas em Tenho lado nessa luta, sou Gaviões!” e A voz da resistência, a lança ancestral / No peito do Brasil colonial (eu sou, eu sou)”. Outro trecho de destaque  e pra mim o melhor momento do samba  está na segunda estrofe: Oh, mãe hostil... / Só uma vez, escute os filhos deste solo / A quem foi negado o teu colo / Pra ser Guajupiá de quem te ama”. A ver se o grito em defesa dos povos indígenas será a flechada certeira pra Torcida Que Samba levantar de novo o troféu de campeã, desde 2003 longe do Bom Retiro. - NOTA: 9.9

 

4  MOCIDADE ALEGRE  Malunga, Lea! Arroboboi.

Muita gente estranhou o fato da escola começar a cantar o samba pelo refrão do meio. Até se acostumar com isso é um exercício difícil. Mas a verdade é que a Morada do Samba nos entrega uma das gravações mais emocionantes do carnaval deste ano com o lindo samba sobre a atriz a Garcia. É uma obra que une simplicidade e poesia. A segunda parte é sublime, principalmente na sequência final Evoé, mulher! / Igual a ti eu nunca vi / Você ainda está aqui / Pra sempre, presente! / É sua coroação / Protagonista no meu pavilhão. Destaque, também, a boa interpretação de Igor Sorriso na faixa, voltando a sua melhor forma. - NOTA: 10

 

5  CAMISA VERDE E BRANCO  Nos mercados e nas festas escutei a gargalhada.

Enredos sobre Exu sempre rendem excelentes sambas e o Trevo da Barra Funda mantém essa tradição. Com refrães fortes e melodia que não cai, a letra tem ótimas passagens como no seu início, que vai da repetição do Bará! Mojubá, Agoyê!” até o Arreda que Exu abre caminhos / Arreda pra Exu movimentar / Quem duvidar do meu Camisa / Sem Patente ou divisa / Não se mete com Eleguá”. Outra passagem que merece destaque é o duplo refrão Eu sou da rua, macumbeiro sim sinhô // Quem me guarda é Capa Preta, Tranca Rua e Marabô”. Apesar de ter encaixado bem na letra, a citação à chapa da atual diretoria (o Camisa enfrenta sérios problemas políticos que quase tiraram a escola do próximo carnaval) era evitável. Estreando em São Paulo, Charles Silva conduz muito bem e muito à vontade a faixa. - NOTA: 10

 

6  DRAGÕES DA REAL  No peito amor, na pele urucum.

De melodia valente, a obra descreve muito bem a saga das Icamiabas, povoado de mulheres guerreiras situado na Amazônia. Sem falar que encaixou bem demais na voz do René. O grande destaque, claro, é o bom refrão principal Quando o chão estremecer, Juremá, Juremê / Quando o Rio chorar, Juremê, Juremá”, mas há outras grandes passagens como Ayvu, clamor da verdade / Ybytu se enfurece… é tempestade!” no refrão central e Aruê Angá! Valentes, guerreiras / Enfrentam o mal, a destruição / A voz sagrada despertando a consciência / Dragões é alma da floresta em oração”, que fecha a segunda estrofe. Enfim, a Dragões volta a ter um grande samba. - NOTA: 10

 

7  ÁGUIA DE OURO  Quem é da Pompéia tem bom coração.

A grande atração do samba sobre Amsterdã, de longe, é o refrão principal Chegou Águia de Ouro, não me leve a mal / Eu vou ficar bem louco nesse carnaval” que resgata aquela vibe boa e animada dos anos 2000. Como o enredo tem tudo a ver (tendo cerveja no meio então...), é aquele refrão pra você gostar e se animar. De resto, é uma obra que segue o estilão farofa animada mas o foge da colcha de retalhos e da velha lista de supermercado sobre coisas da capital neerlandesa  até  uma melhorada no final, a partir do Nos festivais, pra celebrar / Com o rei daqui e o rei de lá”. Outro destaque na faixa para a bateria, agora comandada por Mestre Moleza. - NOTA: 9.6

 

8  ESTRELA DO TERCEIRO MILÊNIO  A luz da inspiração, a poesia venceu.

Paulo Cesar Pinheiro finalmente ganha uma homenagem em vida no carnaval. E mais do que isso: um samba-enredo à altura de sua carreira e suas composições. O trecho O dia em que o morro descer / E o povo vencer será poesia / O dia em que o morro vencer / Será carnaval e rebeldia” é facilmente um dos melhores da obra e desse carnaval. Outra passagem que merece destaque faz referência à partida de Clara Nunes, grande amor do poeta: Quando o cantar da Sabiá / Se calou em todo altar e a dor me consumia / Meu coração encontrou novo lugar / Feito a letra quando abraça a melodia”. A Coruja se destaca entre os grandes sambas da safra.  achei que ele ficou acelerado demais na gravação... - NOTA: 10

 

9  VAI-VAI  E passa um filme em preto e branco pra te emocionar.

É um samba que tenta ser competente sem perder a característica melódica da escola, mas não deixa específico se o enredo é sobre São Bernardo do Campo ou sobre a Companhia Cinematográfica Vera Cruz  os dois elos do tema parecem muito misturados. Sem falar das rimas em “a” na primeira estrofe (Na tela/revela/A Vera). Há bons momentos, como o Se desacreditar... vai parar geral!” do refrão central, ao passo que o bis principal (Se liga na cena, coisa de cinema / Meu pavilhão está em cartaz) tem a característica arrasta-povo que o Vai-Vai produz muito bem. - NOTA: 9.7

 

10  COLORADO DO BRÁS  "Bruxas não se curvam aos seus pés".

Um samba que passa despercebido na safra. Tem até um refrão animado Vem ver! Vai ferver o caldeirão / Tem magia nesse chão / Onde a bruxa é rainha” e uma parte ou outra interessante  destaco o início da segunda estrofe Calejada da insana narrativa de terror / Onde o medo se disfarça na imagem que você criou  mas, fora disso, nada de muito especial. o chega a ser fraco, mas é sem brilho. - NOTA: 9.6

 

11  IMPÉRIO DE CASA VERDE - "Abre a roda, o samba já vai começar".

O Tigre Guerreiro apresenta um bom samba sobre os balangandãs e a história das escravas de ganho que viviam em Salvador no século XVIII. Bem construído e de narrativa correta, tem um início forte Meu Rei, o tigre me chamou / Muito prazer, Dona Fulô” e refrães  destaco o central Meu destino alumiou, o pescoço é um altar / Amuleto Salvador, na argola”. Tinga ganha a companhia de Tiago Nascimento, jovem talento imperiano efetivado como intérprete oficial e que naturalmente se destaca bem na faixa. - NOTA: 9.9

 

12  BARROCA ZONA SUL - "Foi na água da cascata que eu vi Oxum reinar".

E a Faculdade do Samba segue mantendo o ótimo nível de seus sambas. O hino sobre Oxum tem uma linha densa, em contraponto a força da obra do ano passado sobre Iansã, mas é de uma qualidade o boa quanto. O refrão central Eu vi Mamãe Oxum colhendo lírio, lírio ê / Colhendo lírio pra enfeitar o seu congá é um achado, sem falar na virada melódica da segunda estrofe em Mamãe semeou a vida / As águas doces vão de encontro a mata”. Impossível não notar o refrão principal falar de Pra firmar teu ijexá no raiar dessa manhã / Reflete Oxum no sol dourado a clarear” visto que a escola encerra os desfiles de sexta-feira. Dodô Ananias passa a fazer dupla com Rafael Tinguinha, abrilhantando  mais ainda  o hino verde e rosa. - NOTA: 10

 

13  TOM MAIOR - "Onde a alma repousa e o amor se lança".

O samba que une Uberaba e Chico Xavier tem bons refrães (o central “É nesse trem que eu vou” principalmente), mas é um tanto complexo e difícil de assimilar. O grande e emocionante momento está nos versos finais, que juntam dois elos históricos da escola: E vos digo: / "A dor do adeus é ponte pra recomeçar" / Não é o fim da jornada aos olhos do Pai” nos remete a lembrança de Gilsinho ter gravado o samba após a escolha deste pouco antes de falecer. Depois, Quem corre atrás do que gosta / Não cansa jamais!” faz menção a conhecida frase do ex-presidente Markinho, também falecido. De volta à escola, Bruno Ribas prioriza as várias interações com o coral. E já que falamos no eterno Gilsinho: bonita homenagem a ele (que defendeu a vermelho e amarelo até o carnaval passado) no fim da faixa. - NOTA: 9.7

 

14  MOCIDADE UNIDA DA MOOCA - "No meu Quilombo é noite de Xirê!".

Enfim chegando ao Grupo Especial, a MUM entra com o pé na porta mostrando o que tem feito de melhor nos últimos anos: um samba forte e afirmativo. Pra falar do Instituto Gués, a escola aposta na mensagem, na força dos bons refrães e no equilíbrio entre a valentia do início Odudua Ayê ô! Ayê Ayê / Alábase Omo” com a densidade de trechos com Cada preta que passa por mim / Refaz o caminho de tantas Iyás” da segunda estrofe. Destaque à talentosa Sté Oliveira, que conduz com firmeza a faixa ao lado dos já experientes Gui Cruz e Emerson Dias. - NOTA: 9.9