Coluna do João Marcos
A VILA DE HOJE, A VILA DE OUTRORA QUE REVIVEMOS AGORA
"A Vila também se
modificou (...)". O samba de André Diniz e cia. é muito
claro - ao falar das transformações da vida, avisa aos
navegantes - a Vila Isabel também teve sua metamorfose. Uma
metamorfose que se iniciou em 2004, com o título de campeã do
Grupo de Acesso e que se consolidou com o título do Grupo
Especial, em 2006.
Nos últimos três anos, a parceria de André Diniz reinou
absoluta na escola. Em 2007, novamente teremos um samba dele na
avenida. A comunidade está feliz, a escola deixou de ser
"simpática" (ou seja, a que não ameaça ninguém).
Todos sabem - a Vila vem para tentar o bi. E pode conseguir.
Os sambas de André Diniz têm feito sucesso indiscutível. O de
2005 foi vital para a escola se manter no Grupo Especial, já que
o desfile teve inúmeros problemas na parte estética por força
da saúde debilitada do carnavalesco Joãozinho Trinta, que não
pôde terminar o carnaval da escola. O de 2006, mesmo com todas
as críticas negativas decorrentes dos refrões em
"portunhol", de gosto duvidosíssimo, funcionou muito
bem. E o de 2007, deve seguir o mesmo caminho.
Diniz não fez apenas estes quatro sambas. Sua primeira vitória
na escola foi em 1994. Mas eram outros tempos. A Vila ainda não
tinha se modificado, ainda era a Vila de Noel, de Martinho... não
era a Vila de Moisés e de Diniz. Interessante notar que desde a
primeira vitória de Diniz, Martinho nunca mais ganhou um samba
na escola. Tudo bem - ele concorreu poucas vezes, que eu me
lembre apenas em 1997 e 2006. Atuou mais nos bastidores,
principalmente quando a Vila foi para o acesso, inclusive sendo
autor dos enredos sobre Niemeyer e do Estado do Rio de Janeiro.
Foi o idealizador, também do enredo sobre a América Latina, que
inclusive o levou a ter a idéia de fazer o disco
"Latinidade" e de "Kizomba, Festa da Raça",
que resultou no primeiro campeonato da escola no Grupo Especial.
A importância de Martinho para a Vila não pode ser mensurada.
Iniciou-se em 1967 quando, numa era de sambas épicos como
"Chico Rei", "Memórias de um Sargento de Milícias",
e etc., ele compôs um samba que tinha o seguinte refrão,
retirado da cultura popular: "Ciranda, Cirandinha, vamos
todos cirandar / Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos
dar". A Vila conseguiu o feito de ficar em quarto lugar,
numa época em que Salgueiro, Império, Mangueira e Portela
reinavam absolutas e incontestadas no Carnaval Carioca.
Entretanto, o jurado Chico Buarque de Holanda foi duro ao julgar
o samba da escola. O protesto de Martinho apareceu na faixa
"Caramba", de seu primeiro disco: "nem o Chico
entendeu o enredo do meu samba! (...)" Entretanto, a Vila não
era mais a mesma. Nem os sambas enredo a partir de então.
Martinho iria vencer ainda nos três anos seguintes, com os
maravilhosos "Quatro Séculos de Modas e Costumes",
"Yayá do Cais Dourado" e "Glórias Gaúchas".
Em 72, ganhou novamente a disputa com o estupendo "Onde o
Brasil aprendeu a Liberdade", para alguns, o melhor de seus
sambas e um dos poucos que passaram pelos desfiles da Vila e não
ganharam o Estandarte de Ouro, prêmio do Jornal O Globo, que foi
instituído no mesmo ano. Ganhou o prêmio em 1980, 1984 e 1993.
Perdeu o Estandarte de Ouro em 72 e também em 87, com o
impressionante "Raízes", um samba tão genial que
sequer possuía rimas.
Todos os sambas de Martinho ficaram para a eternidade, até mesmo
os que não ganharam as disputas na escola, como "Tribo dos
Carajás" (1974), "Iemanjá, Desperta" (1978) e
"Prece ao Sol" (1997), todos infinitamente superiores
aos sambas que a Vila levou para a avenida nos respectivos anos.
Em 1994, Diniz venceu e também conquistou o Estandarte de Ouro -
seu único. Era a Vila dos bambas e ele sabia disso, tanto que um
dos refrões de seu samba dizia o seguinte: "Peguei o bonde
/ Passei no Boulevard / E a Confiança é doce recordar / Os
"Três Apitos" cantados por Noel / Ainda ecoam pela
Vila Isabel".
Diniz venceria ainda, sem tanto brilho, em 1995. Venceu, sem
assinar, em 1999, 2000 e 2002, vitórias que agora conta para
dizer que tem o mesmo número de vitórias de Martinho na escola.
Ao ser entrevistado pelo site do jornal o Dia, revelou sua
"fórmula" - "Antigamente, como no samba de 94,
podíamos fazer obras mais longas. Hoje, ter três refrões é
impensável. As vendas do CD caíram. Tínhamos que ter uma obra
com equilíbrio, que juntasse leveza e explosão". Revelou,
também, ter desembolsado 34 mil reais na disputa.
Confesso que ler suas declarações me deixou espantado. Quando
Martinho chegou na Vila, o grande nome da escola era Paulo Brazão.
Martinho sempre se referiu ao compositor como seu
"mestre", sempre gravou sambas de Brazão em seus
discos. Revolucionou a escola, influenciou seu mestre e fez história.
Diniz, por sua vez, se coloca como rival de Martinho. Quer
igualar o número de vitórias, como se isso fosse igualar o seu
legado ao de Martinho. Enquanto Martinho criou sambas sem regras
fixas, sem rimas, Diniz sai por aí ensinando a sua fórmula,
informando que os sambas de hoje não podem ter três refrões,
tem de possuir explosão e etc.
A arrogância das declarações incomoda. Diniz fala como o
representante de uma mentalidade de se fazer carnaval que
desconsidera o passado. Martinho nunca desconsiderou o passado e
por isso não é passado. Fez sambas atemporais, que são
lembrados 40 anos depois. Martinho nunca ensinou fórmulas -
subverteu todas, como em 2006, quando seu samba concorrente,
quando falava de Simon Bolívar, preparava um refrão que não
chega a se concretizar porque Martinho simplesmente altera um dos
versos e a melodia vai para um lugar impensado, que os sambas
certinhos de Diniz nunca conseguiram.
Diniz certamente vai ter mais vitórias que Martinho, mesmo sem
contar os sambas que não assinou. Vencer é o importante no
carnaval de hoje. Vencer a qualquer preço... digamos, 34 mil
reais. Vencer lotando a quadra com "funcionários" para
pressionar diretorias nas escolhas. Sambas que não são feitos
para a eternidade, mas para funcionar nos desfiles.
André Diniz é, sem sombra de dúvidas, um bom compositor. Seu
estilo está se espalhando pelas demais escolas - vide o samba
que a Mangueira apresentará em 2007. Isto sem contar os seus
sambas que ganharam e ganharão ainda este ano em outras escolas.
"Soy Loco por ti América" pode ser que seja o
"Festa para um Rei Negro" dos nossos tempos. Nada
contra. Mas qual será o preço disso? Porque será que o disco
de 1980, que tinha "Sonho de um Sonho", vendeu 1 milhão
de cópias e o de 2006 vendeu pouco mais de 100 mil? Porque será
que Diniz nutre esta rivalidade com Martinho, em vez de reverenciá-lo
como mestre? Por que alguém tem de encher uma quadra e gastar 34
mil reais para ganhar um samba? Os critérios não deveriam ser
artísticos, vencer o melhor? Será que o samba de Diniz deste
ano era realmente o melhor?
* * * * *
Os meus comentários sobre as "firmas" e suas vitórias
geraram alguma polêmica. Talvez os amigos não tenham consciência
do mal terrível que essas vitórias são. Elas não se
restringem ao carnaval carioca - de Porto Alegre a Manaus, as
firmas espalharam seus tentáculos, monopolizando as disputas,
impondo suas "fórmulas", impedindo a evolução do gênero
samba-enredo.
Por isso, eu tenho de exaltar uma vitória que muito me alegrou,
de um samba de comunidade, que venceu as "firmas" e tem
tudo para ser um verdadeiro sacode na avenida.
A escola Consulado, de Florianópolis terá, na minha opinião, o
melhor samba de 2007, superior a todos os sambas escolhidos no
Rio este ano. Um samba de jovens, torcedores verdadeiros da
escola, que chutaram as fórmulas para escanteio, mesmo sem
grandes ousadias, e derramaram poesia nos versos. Um samba que
Luizinho Andanças irá levar, provavelmente numa cadência muito
mais agradável do que a que será imposta pela bateria do Porto
da Pedra.
Quantos jovens estão tendo seu talento calado, escondido em
disputas com cartas marcadas? A culpa é das firmas. Por isso, eu
não consigo me empolgar com a safra de sambas medíocre do Rio
deste ano. Muita pouca coisa foge da mesmice.
Em breve, disponibilizarei aqui o link com a gravação do samba
da Consulado. É um samba que me dá a esperança de dias
melhores. Todos os grandes impérios ruíram na história da
humanidade. Quem sabe não acontecerá o mesmo com o "império
das firmas"?
Abraços a todos!
João
Marcos
joaomarcos876@yahoo.com.br
Eis suas colunas publicadas no SAMBARIO: .:O CULPADO FEZ O BEM... O INOCENTE, O MAL... TODO MUNDO É JURADO NESSE CARNAVAL .:QUE TITITI É ESSE QUE VEM DA SAPUCAÍ? |