Sambas eliminados
Confira as avaliações sobre sambas-enredo derrotados nas eliminatórias
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VEM, DINDINHA (Salgueiro - 1972) A ruptura na estrutura dos sambas enredo proposta pelo Salgueiro no ano anterior com Festa para um rei negro resultou numa mudança de mentalidade entre os compositores. Para o enredo Mangueira, minha querida madrinha, os compositores Hayblan e Noel Rosa de Oliveira, este último acostumado com o estilo samba-lençol que reinava até o final dos anos 60 (Quilombo dos Palmares, Chica da Silva), tiveram que se adaptar aos novos tempos e apresentaram uma obra com versos mais curtos e uma melodia mais próxima dos blocos carnavalescos. A estrutura é parecida com a do Pega no ganzê, com a repetição do refrão principal a cada estrofe cantada. A letra do samba é pura homenagem, a começar no tratamento carinhoso à verde e rosa, chamando a Mangueira de dindinha (diminutivo de dinda). Na primeira parte, os compositores salgueirenses se orgulham de serem afilhados de uma escola deste porte (Mangueira é nossa madrinha/ o Salgueiro faz saber/ está na hora de homenagem/ a quem fez por merecer). Na segunda estrofe, há uma bonita referência a dois poetas da Estação Primeira, Cartola e Nelson Cavaquinho, que são evocados com dois de seus principais sambas, respectivamente O sol nascerá (A sorrir) e A flor e o espinho (Um ensinando a sorrir/ pra melhor levar a vida/ outro a fugir de um sorriso/ com ironia sofrida). O vencedor da disputa para o carnaval de 1972 foi novamente Adil de Paula, o Zuzuca. Para contemporanizar, o cantor Jair Rodrigues, em seu LP "É isso aí", lançado no final de 1971, gravou tanto o samba que venceu, "Tengo, tengo", quanto o que perdeu, depois denominado "Vem, dindinha". NOTA DO SAMBA: 9,5 (Rixxa Jr). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba
MENINO BOM (Portela - 1974) - Gravado no primeiro LP de David Correa,
também chamado de Menino Bom, o samba de Romildo e
Carlito tem um refrão simples e de pegada, como era
característico nos sambas da época Ê, batuta, ê ê
ê ê/ Sou Portela toda prosa / carinhosa por você. A
letra é muito poética e, apesar de deixar claro que o
homenageado está morto, não é fúnebre. Inclusive, tem uma
sacada muito interessante - Abra uma porta no céu /
Volte de novo pra cá / Bar do Gouvêa é casa cheia / de saudade
e esperar. Lindo o trecho em que compara as músicas
de Pixinguinha com forças da natureza: Ensinou a lira
ondular suave / a canção foi sua nave / a natureza chorou / o
orvalho virou pranto / rolado com mais encanto / molhado com mais
amor. David Corrêa, durante as eliminatórias de o
Mundo Melhor de Pixinguinha, sofreu um acidente de
carro que impediu sua participação. Não sei se ele tinha um
samba em seu nome ou se defendia este - o encarte do disco é um
pouco vago ao descrever os acontecimentos. O fato é que, em seu
disco, não há seu nome nos créditos. O samba é bonito, apesar
de inferior ao polêmico campeão. NOTA DO SAMBA: 8,8 (João
Marcos).
TRIBO DOS CARAJÁS (Vila Isabel -
1974) Em 1974, a Vila Isabel realizou um dos desfiles
mais trágicos de sua história. A razão vem das próprias
eliminatórias do samba-enredo com o qual a agremiação
desfilaria naquele ano. Martinho da Vila novamente estava
concorrendo em sua escola, com uma grande chance de ganhar e ver
seu samba ser tocado na avenida. Só que o célebre compositor
não contava com um lastimável imprevisto: a bela letra do
samba, exaltando a liberdade indígena, que não havia se deixado
escravizar pelo homem branco, incomodou a famigerada ditadura
militar, ainda muito influente no Brasil no início da década de
70. A ditadura já havia interferido no mundo do samba em outras
ocasiões, como, por exemplo, ocorreu no Salgueiro, em 1967, e no
Império Serrano, em 1969, carnavais cujos temas falavam sobre
liberdade. A censura proibiu a Vila de desfilar com um samba
contraditório aos ideais militares e pressiondada, a escola fora
obrigada a escolher outro samba para o carnaval de 1974. A
diretoria da agremiação optou então por uma pequena mudança
no tema do desfile: ao invés de homenagear os povos indígenas
do alto Xingu, a Vila Isabel se aproveitou do mesmo título do
enredo para exaltar a integração nacional entre índios e
brancos oriunda da criação da Rodovia Transamazônica (um dos
"feitos" do regime militar). A escola de Noel não só
havia deixado de incomodar os militares, como agora também
estava "puxando o saco" deles, algo que é, na minha
opinião, lamentável. O samba cantado não era mais composto
pelo Martinho, mas sim da autoria de Rodolpho e Paulinho da Vila
(que aliás, para mim, é uma obra pavorosa). Toda essa confusão
também irritou os componentes da escola, que, por fim, se
revoltaram e fizeram um desfile pífio, completamente
atravessado. O resultado foi a 10º lugar do Grupo 1, a última
colocação no placar geral. Para sorte da escola, o então
governador do Rio de Janeiro, Chagas Freitas, determinou que
nenhuma escola seria rebaixada para o Acesso, como
"agradecimento" a homenagem feita pela agremiação na
avenida a Transamazônica. Quanto ao samba do Martinho que fora
eliminado em decorrência a esse tumulto, ele é realmente
excepcional. A letra é extremamente bonita, pois narra de forma
poética e compreensiva o enredo inicialmente proposto pela
escola. Durante a primeira parte da obra, a letra insiste em
falar da felicidade sentida pelos índios em viver numa terra
tão rica e fértil como o Brasil, local onde eles eram livres
para ter suas próprias manifestações culturais. Tal liberdade
exaltada no samba, a mesma que antes já havia incomodado o
regime militar, é lindamente descrita no trecho "Tribo
dos Carajás/Noite de lua cheia, Aruanã/Menina moça é quem
manda na aldeia/A tribo dança/E o grande chefe pensa em sua
gente/Que era dona deste imenso continente". Seguida
dessa primeira parte, vem o refrão central que tenta mostrar
poeticamente a ligação existente entre os povos indígenas e os
recursos naturais abundantes no ecossistema brasileiro ("Respeitando
o céu/Respirando o ar/Pescando nos rios/E com medo do mar").
A partir desse trecho do samba, a obra sofre uma mudança de
ângulo, pois deixa de ser uma homenagem ao estilo de vida dos
índios e torna-se um alerta ao destruição maciça das
comunidades indígenas. Um exemplo disso é o refrão "E
o índio cantou/O seu canto de guerra/Não se escravizou/Mas
está sumindo da face da Terras", que é, na minha
opinião, um do mais inteligentes já compostos para um
samba-enredo. Para finalizar, o samba possui uma melodia leve,
discontraída e empolgante, além de um animadíssimo refrão
principal. "Tribo dos Carajás" pode ser encontrado no
LP do próprio compositor, "Canta canta, minha gente",
onde o coro o entoa aos mais plenos pulmões. NOTA DO SAMBA:
10 (Gabriel Carin). Clique aqui para
ver a letra do samba
ESTRELA DE
MADUREIRA (Império Serrano - 1975) - O samba de Acyr Pimentel e Cardoso, de
derrotado pela obra de Avarese no concurso que definiu o hino
oficial do enredo "Záquia Jorge", se tornou um dos
maiores clássicos do samba e também da MPB graças à
antológica gravação de Roberto Ribeiro em seu primeiro disco
solo, de 1975. O Império, para o desfile de 1975, optou por um
samba mais leve e animado (a obra de Avarese), preterindo
"Estrela de Madureira", de melodia lírica e
emocionante. Embora o samba vencedor do concurso imperiano de
1975 seja empolgante, "Estrela de Madureira" para mim
é muito mais bonito e figuraria facilmente na lista dos melhores
sambas-enredo da história, tamanha a beleza de sua melodia, bem
como a poesia de sua letra. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel). Clique
aqui para ver a letra do samba
IMPÉRIO DOS ARUÃS (Portela - 1976) Faixa do disco Menino Bom, de David Correa, é de autoria de David, Norival Reis e Joel Menezes. A letra deste, em comparacação com o samba campeão, de Noca da Portela, é mais didática em determinados aspectos, sendo mais específico em relação, p.ex., à Catarina de Palma, filha de Manuel Breves Fernandes, que recebeu em testamento a sesmaria de Breves. Como observa-se na sinopse de 1976 da escola, que está no portal PortelaWeb (www.portelaweb.com.br), Em BREVES é que existem os fantásticos FUROS de BREVES, labirintos extraordinários de mil fios ligados entre os flancos de Marajó e rochas do continente e que foi tecido pela ação intermitente das águas, pelo dinâmico trabalho do rio.. O samba de David exalta a beleza de Catarina, muito ressaltada na sinopse, no setor da colonização: Catarina de Palma encantava corações / Seu sorriso seduzia / a própria valsa nos salões. O refrão e o samba só possui um único refrão - é bem simples, como quase todos os dos anos 70: Bumba, sinhô / Bumba, sinhã! / É de Marajó / e cuidado com Boi Bumbá. No entanto, é um samba inferior ao campeão, desconsidera pontos importantes da sinopse (como os gaiolas, p.ex.) e tem menos força melódica que o de Noca. Porém, é sempre interessante escutar um samba concorrente desconhecido de um grande compositor, que vivia a sua melhor época criativa. NOTA DO SAMBA: 8,2 (João Marcos).
AI, QUE SAUDADES QUE EU TENHO (Vila
Isabel - 1977) Na minha singela opinião, a derrota do
Martinho mais imbecíl que já aconteceu na Vila Isabel. Imbecíl
não porque o samba campeão era ruim. Nem porque a escola fez um
mal desfile. Simplesmente, porque a escola do Boulevard desprezou
por completo a oportunidade que bateu a sua porta. E o nome dessa
oportunidade é antológico: Arlindo Rodrigues. Após vários
anos de experiência na Mocidade Independente, o célebre
carnavalesco preparou o desfile da Vila Isabel de 1977, cujo
enredo seria uma espécie de reedição de um tema já
apresentado pelo artista em 1970, quando ainda estava no
Salgueiro: uma emocionante recordação de antigos carnavais. O
título do enredo já passava bem a idéia proposta pelo Arlindo:
"Ai, que saudades que eu tenho". A Vila Isabel fez um
dos carnavais mais lindos de tua sua história, com fantasias e
alegorias deslumbrantes, todas nas cores da escola (azul e
branco), além da tradicional bateria, sempre muito bem
cadenciada. Tudo era bonito e empolgante... No entanto,
infelizmente, faltou algo explosivo, para imortalizar de vez o
desfile da agremiação e quem sabe até talvez consagrar o
primeiro campeonato da Vila Isabel mesmo 11 anos antes de
antológico "Kizomba, a festa da raça". Enfim, faltou
um SAMBA! Mas o que me irrita é que esse samba existiu, só que
acabou não indo para o desfile da escola. Esse samba foi
composto pelo Martinho e possui o mesmo nome do enredo do
Arlindo, "Ai, que saudades que eu tenho". Trata-se do
que é, para mim (e também para a maioria), o melhor
samba-enredo derrotado do Martinho. A obra é extremamente
animada, empolgante, de melodia mágica e de letra
inteligentíssima. Tudo nele é, sem exagero, surpreendente! A
começar pelo refrão de cabeça, que consegue empolgar até quem
não gosta de samba, sem ser oba-oba ou apelativo. Falo do
extraordinário "Minha Vila tá legal/Sempre brigando pra
ganhar o carnaval", que fora composto com um felicidade
sem par. Durante a primeira parte da obra, Martinho faz simples,
porém certeiras citações as antigas tradições do carnaval
carioca, que despareceram para sempre da cultura popular. Isso
deixa o samba com um ar didático, mas que em momento mostra de
forma explícita a tentativa de abordar o enredo da Vila Isabel,
pois Martinho elaborou nada mais que uma nostálgica recordação
dos saudosos tempos de Noel Rosa. Por isso, o samba flui tão
levemente nos ouvidos dos sambistas, já que ele aborda todo
enredo da escola discontraidamente. Em relação ao refrão
central, tão comentado por ter sido praticamente repetido do
samba salgueirense de 1970, não me adimira em nada sua
presença. Como já foi até retratado em uma crônica do
colunista Rixxa Jr. aqui no Sambario, Arlindo Rodrigues era o
verdadeiro "Rei das reedições", pois é famoso por
ter carnavalizado novamente diversos enredos já abordados pelo
Salgueiro nos tempos em que ele ainda era parceiro de Fernando
Pamplona. É óbvil e evidente que o artista deveria ter gostado
do refrão "Abre a roda, meninada/Que o samba virou
batucada" e decidiu constá-lo na sinopse do enredo, o
que foi depois reaproveitado pelos compositores da Vila Isabel.
Só que Martinho da Vila é um gênio e decidiu incorporar o
refrão ao tema polêmico: "Sai da roda, meninada/Que o
samba virou batucada". Afinal, para que ficar na roda,
se o samba já não é mais o que era antes, não passando de uma
simplória batucada? As demais partes do samba são críticas
mais que diretas a crise que o mundo samba vivia (e ainda vive).
Porém, tais críticas ainda sim não tornam o hino pesado, pois
elas não passam de meras perguntas sobre o desaparecimento das
tradições do carnaval cujas respostas, obviamente, não
existem. A obra, como um todo, é um grande lamento, mas que não
perde o ar de humor e empolgação. Um samba excepcional, que,
como já disse antes, poderia ter rendido um inédito título a
escola caso fosse para a avenida. Infelizmente, isso não
aconteceu e a Vila amargou uma mera 5ª colocação. Que pena! A
obra consta no LP "Rosa do povo" e a belíssima
interpretação de Martinho, aliada ao alto astral proporciondo
pela bateria da escola, aumenta ainda mais o balanço do samba. NOTA
DO SAMBA: 10 (Gabriel Carin).
IEMANJÁ, DESPERTA (Vila Isabel -
1978) O ano de 1978 é verdadeiro senão em matéria
de samba-enredo. No LP oficial, produzido pela célebre Top Tape,
encontramos uma das mais bizarras safras da história do
carnaval. Um dos piores sambas presentes nesse disco hediondo
veio, por mais incrível que pareça, da grande escola do
Boulevard, a Vila Isabel. Trata-se de uma marcha-enredo pavorosa,
o pior samba da história da escola, pois possui uma letra pobre
e uma melodia chatíssima. Porém, numa gigantesca contradição,
o samba do mestre Martinho da Vila, concorrente derrotado nas
eliminatórias da agremiação, é, sem dúvida, fascinante.
"Iemanjá, desperta", denominação depois dada a obra
pelo próprio compositor, está anos-luz a frente do hino
campeão, levado pela escola na avenida. É um samba de letra
riquíssima, tratando do belo enredo em homenagem a Iemanjá de
forma magistral. Interessante a como Martinho prefere mais fazer
uma exaltação carinhosa a orixá do que abordar rigorosamente
todas as crenças e tradições constadas no enredo da escola,
já que ele aborda as grandes interligações existentes entre
África e Brasil. O tema, segundo o departamento cultural da Vila
Isabel, falava de várias manifestações culturais
afro-brasileiras e Iemanjá era apenas uma das personagens do
enredo, no entanto Martinho prefiriu santifica-lá e
tranforma-lá numa verdadeira protagonista. Isso tornou o samba
uma grande oração, uma prece em devoção a orixá. A melodia
é uma das mais líricas que o sambista já compusera para sua
escola. Durante a primeira parte do samba, ela é leve, delicada,
mas ao mesmo tempo, imponente, toda estruturada para despontar no
delicioso refrão "Iemanjá, Iemanjá/Iemanjá, Iemanjá".
Já na segunda parte, onde o compositor cita os presentes que
serão entregues a Iemanjá, ela é mais discontraída, animada,
embora ainda não perca o lirismo inicial. Enfim, "Iemanjá,
desperta" é um samba sensacional e saber que ele fora
derrotado por um que diz horrorosidades do tipo "Lendas e
crenças/Vamos mostrar pra vocês/Oh vovô, por favor, conte
outra vez" é mais que revoltante. É odioso! Como de
praxe, o samba eliminado fora gravado pelo próprio autor e
consta no disco "Presente" (1977). NOTA DO SAMBA:
9,8 (Gabriel Carin).
FLOR MULHER (Portela - 1978) - Belíssimo samba da
parceria Joel Menezes, Carlito Cavalcanti e Noca da Portela para
o enredo portelense de 1978 "Mulher à Brasileira". É
bem superior ao samba vencedor, com dois refrões de explosão (o
que o hino oficial da Portela de 1978 não tem) mais duas partes
bem líricas - bem como o tema sugeria -, além de envolventes.
É um samba do estilo David Corrêa: lírico e animado. Quem
esteve naquela final de samba-enredo garante que a torcida por
esta obra era muito maior e que a decepção foi grande quando a
contestada obra de Jair Amorim e Evaldo Gouveia foi anunciada
vencedora. Embora o samba oficial tenha rendido bem no desfile,
com certeza este samba seria muito mais cantado. Regravado por
Roberto Ribeiro com o nome "Flor Mulher" em seu LP de
1978. NOTA
DO SAMBA: 9,8 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba
TÔ QUE TÔ (União da Ilha -
1984) - Interessante
a diversidade de estilos que marcou a disputa da União da Ilha
do Governador para o enredo Quem pode, pode, quem não
pode..., em 1984. De um lado, a tradição e a experiência
de dois legendários sambistas: Aurinho da Ilha e Didi. Do outro,
a juventude e a emergência musical de um médico e sambista nas
horas vagas chamado José Franco Lattari (1952-2008). Com esse
samba concorrente, Franco que já havia vencido pela
primeira vez na Ilha com "1910 - Burro na Cabeça", em
1981 desenvolvia um estilo de samba enredo mais próximo
ao samba de bloco, mais picado, mais acelerado, antagonizando com
o estilo clássico de Didi e Aurinho. Nesta obra, já se percebe
algumas características bem marcantes da obra carnavalesca de
Franco: samba acelerado, em tom maior, mas sempre com uma estrofe
caindo para menor (Se você quer amor... vou dar/ se você
quer me dar... me dê/ venha ver que saudade/ louca, vou beijar
sua boca/ só você não vê), que o compositor imprimiria
sua marca em hinos posteriores, como Extra Extra
(1987), Festa profana (1989), De bar em bar,
Didi, um poeta (1991), Abracadabra, o despertar da
magia (1994), etc. O enredo Quem pode, pode...
abordava os ditos populares. No entanto, ao invés de enfileirar
ditados (como fizeram Aurinho e Didi), Franco procurou
colocá-los estrategicamente: quem pode, pode;
nem tudo, moreno, que balança cai; a voz do
povo é a União (este último numa alusão ao nome da
entidade). Após perder a disputa na quadra, Tô que
tô foi gravado por Alcione, no LP Da cor do
Brasil, numa espécie de compensação e rapidamente se
tornou um sucesso comercial, sendo um campeão de execuções nas
emissoras de rádio e de televisão e nos bailes de carnaval.
Caso tivesse ganhado, esse samba teria tudo para ser um
verdadeiro sacode naquele primeiro ano do sambódromo e, sem
dúvida, teria sido um dos mais cantados na passarela do samba. O
samba é bastante comunicativo e cairia como uma luva para uma
voz tipo Aroldo Melodia, apesar de que o intérprete da União da
Ilha naquela ocasião fora Quinzinho. NOTA DO SAMBA:
9,6 (Rixxa Jr). Clique aqui para
ver a letra do samba
PEGUEI UM ITA NO NORTE (Salgueiro - 1993) - A obra que ganhou no Salgueiro nesse ano é um dos sambas mais conhecidos de todos os tempos. Acredito que 70% dos brasileiros sabem cantar o seu refrão: "Explode coração / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo esta cidade". Porém, havia uma obra melhor nos concorrentes, ela era de autoria de Luiz Fernando, Fernando Baster, Sereno e Diogo. O seu refrão é muito bom: "Me faz um dengo, meu xodó / Eu sou Salgueiro, nem melhor e nem pior". A primeira parte era bem cadenciada, maravilhosa. Mas a melhor parte desse samba com certeza era o seu refrão central: "A saudade bateu no balanço do mar / Meu olhar, marejou / Marejou, meu olhar", uma melodia interessantíssima. A segunda parte é maravilhosa também. Este lindo samba pode ser ouvido no site oficial do Salgueiro. Era uma obra que não ia fazer tanto sucesso, mas este samba era muito melhor que o que ganhou. Tanto é, que na época, muitas pessoas criticaram a diretoria da escola. Fica aí mais um samba excelente que acabou não ganhando. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba
AO CHICO COM CARINHO (Mangueira - 1998) - Sem palavras. Sambaço, aço, aço... um dos melhores que já ouvi. O samba que ganhou era muito bom, mas esse é muito superior. O refrão principal é de intenso agrado, paracido com os dos anos 70, com o "olê olê". A primeira parte é de intenso agrado. O refrão central - que na verdade não é refrão, pois não é repetido - é bom, mas acho a pior parte desse samba. A segunda parte é maravilhosa, um dos melhores trechos de um samba-enredo que já ouvi na vida. Pena, mas muita pena mesmo esse samba não ter ganho. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba
QUEM DESCOBRIU O BRASIL FOI SEU CABRAL... (Imperatriz - 2000) - Sambaço, com todas as letras. Se fosse colocar as melhores partes aqui, colocaria a letra do samba inteiro. A primeira parte é maravilhosa, de começo apoteótico. O refrão central é apenas bom. O começo da segunda parte é a melhor deste sambaço: "foi por acaso, aquele dia / da tempestade à calmaria / foi seu Cabral, sequer sabia / que descobriria o nosso Brasil". O refrão principal também é maravilhoso. Uma coisa tem que ser dita: a decadência dos compositores, que nos anos 90 e o começo dos anos 2000 só traziam obras-primas. E hoje... é melhor nem falar, com todo o respeito. Pode ser ouvido neste link. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba
PEGUE CARONA COM A MOCIDADE (Mocidade - 2004) - Sambaço. Seria um dos melhores da história da escola, e o que ganhou é considerado um dos piores, só pra ver a diferença. Este samba do Tôco é maravilhoso. O refrão principal é muito bom e rapidinho. A primeira parte é de intenso agrado. O refrão central também é muito bom. A segunda parte é a melhor desta obra. O trecho: "hoje o samba vem / nesse vai-e-vem / trazer sua mensagem / não corra, não mate, não morra / e boa viagem!" é maravilhosa. Enfim, um samba espetacular. Queria saber porque este sambaço não ganhou... Pode ser ouvido neste link. NOTA DO SAMBA: 10 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba
DO CAOS INICIAL À EXPLOSÃO DA VIDA (Beija-Flor -
2006) - A parceria
liderada por Sidney de Pilares já tinha feito bonito no ano
anterior na Beija-Flor, ao empatar, na final, com a obra assinada
por Serginho Sumaré & Cia, o que resultou na fusão do samba
sobre os Sete Povos das Missões. Para o confuso tema sobre
Poços de Caldas, a maioria dos concorrentes nilopolitanos
recorreu a sambas pesados, dentro da previsível e consagrada
fórmula adotada pela escola desde 1998, com o enredo sobre os
Caruanas: obras com letras longas, melodia em tom menor, caráter
épico, harmonia pesada e triste, com concepções melódicas
parecidas entre si. O samba de Sidney de Pilares fugiu um pouco
desta tônica. Mesmo em tonalidade menor, os compositores
provaram que não é preciso fazer deste recurso uma obra
fúnebre. O entrosamento entre os autores possibilitou o
desenvolvimento de um formato próprio de samba. O trecho Netuno
reinando em local diferente/ Com seus dragões e serpentes/
Ouvindo a sereia cantar..., por exemplo, guarda
semelhanças melódicas com os versos Na liberdade dos
campos e aldeias/ Em Lua Cheia, canta e dança o Guarani,
do refrão do samba de 2005. Esta característica se repete nas
obras da parceria desde então. Este samba foi até a final,
quando foi escolhida a obra de Noel Costa & parceiros. NOTA DO SAMBA:
9,7 (Rixxa Jr). Clique aqui para
ver a letra do samba
BRASIL MARCA A TUA CARA E MOSTRA PARA O MUNDO (Portela - 2006) O samba de Alexandre Fernandes e Caixa d'Água tem uma melodia levíssima, valorizada pela interpretação personalíssima de Preto Jóia. Tirando o excelente refrão do meio, que faz menção a escola, o resto do samba passa perfeitamente como um samba de meio de ano. Um samba desse, p.ex., ficaria excelente na voz de um Zeca Pagodinho ou um Martinho. A letra peca um pouco por ter discursos poéticos diferentes, estilos diferentes de abordar o tema. Em momentos, soa forçada e calcada em clichês, como em vem a imigração / vai florir a comunhão. Em outras partes, é brilhante, como em se a brisa sussura a dor / lamentos murmuram... louvor. Os dois refrões são excepcionais o primeiro, com o seu a marca é Brasil, ninguém pode apagar, que pega pelo ouvido e não sai da cabeça. O do meio, com variações em menor e maior, tem uma melodia espetacular, inusitada, porém bem construída, de forma que não causa estranhamento na audição. O enredo é contado de forma bem mais simples do que o samba que acabou campeão, porém, é até mais eficiente na maneira como passa a mensagem. O samba é uma obra de dois compositores e não de uma pessoa só, como muitas vezes vemos nos escritórios. Alterna estilos contraditórios, é menos certinho que os sambas que a Portela vem escolhendo nos últimos anos, mas acaba tendo uma riqueza que dificilmente se encontra nos sambas atuais, com vários momentos de clímax. NOTA DO SAMBA: 9,3 (João Marcos). Baixe este samba
AMAZONAS, O ELDORADO É AQUI (Grande Rio - 2006) - Este samba de Cláudio Russo é lindo, bem melhor do que o vencedor. O refrão principal é sem igual, que chama totalmente o componente pra cantar. A primeira parte é de intenso agrado. O refrão central segue a mesma linha. mas na minha opinião, a segunda parte do samba é a melhor. O trecho "dos igarapés vejo avenidas / riqueza brota, do seringal" dá vontade até de chorar. Um dos melhores sambas que Cláudio Russo fez com certeza. Este samba pode ser ouvido na seção Fonogramas do site Galeria do Samba através deste link. NOTA DO SAMBA: 9,9 (Vitor Ferreira). Clique aqui para ver a letra do samba
CANDACES (Salgueiro - 2007)
O samba de Pedrinho da Flor, Fernando Baster e Bada era o samba.
Seria o samba do ano. Um samba fortíssimo e fácil de
cantar - samba de verdade e que dá para imaginar na voz de
Quinho. Para começar, o refrão de cabeça, com as saudações
aos Orixás, tem pegada e ginga, sendo completado pelos versos
Magia de Obá, que faz meu Salgueiro imortal / a chama
viva do carnaval, que facilitaria o entendimento do
proposto pela escola. O início, em tom maior, levantando a
auto-imagem da escola, traduzia o que o Salgueiro precisava
naquele momento. Na virada para tom menor, o enredo passa a ser
contado de forma extremamente didática, com uma melodia
envolvente, desaguando no refrão, em maior, com um recurso
simplesmente brilhante, que daria um efeito espetacular na
avenida a repetição da palavra Candaces ao
final dos versos. Além de nunca ter sido utilizado em
samba-enredo, trazendo aquela originalidade que a gente pede aos
compositores, esse efeito facilitaria a harmonia, pois faria o
samba ser mais facilmente memorizável. Quando chega no
verso Mãe Baiana, pisa forte neste chão,
apesar da melodia preparar para a entrada do refrão de cabeça,
o samba ganha mais carga emocional ainda. É impressionante como
o samba não cai em momento algum. É uma aula de como fazer
um ótimo samba enredo. NOTA DO
SAMBA: 9,6 (João Marcos). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe
este samba
É
DE ARREPIAR! (Viradouro - 2008) Logo quando se iniciaram as
eliminatórias para a escolha dos sambas-enredos oficiais do
carnaval de 2008, como já é, anualmente, de praxe, se iniciou
também aquele típico burburinho dentre os internautas dando
suas objetivadas opiniões sobre a qualidade de cada samba
disputado e, por conseguinte, qual deles merecia de fato ir para
a avenida. Entretanto, mesmo com todas as discussões presentes
dentre os sambistas de internet, um samba, em
particular, chamou a atenção de todos e veio ganhando respeito
da maioria dos bambas até a sua derrota. Trata-se da obra do
compositor Gusttavo Clarão e cia., concorrente da Viradouro para
o enredo É de arrepiar!, do já consagrado
carnavalesco Paulo Barros. Tal samba da parceria aderiu tanta
simpatia dos internautas, que fora consagrado logo de cara pela
sabedoria popular como o melhor do ano, o que, a meu
ver, não passa da pura e clara realidade. Inclusive, digo mais:
se ganhasse, poderia ser tachado como, nada menos, um dos
melhores sambas deste novo milênio! Ao compor seu concorrente
para 2008, Gustavo Clarão em momento algum economizou romantismo
e conseguiu novamente a proeza de aliar lirismo e inteligência
à sua obra. A letra de É de arrepiar! é altamente
clássica, narrando todo a temática da escola com completo
desprendimento e assimilando as diversas passagens do enredo da
Viradouro com algumas sacadas poéticas simplesmente geniais, sem
perder ainda o bom humor, presente claramente no trecho Deixa
o bicho pegar/Pode o monstro assombrar/Mas se você me
abraçar/É de arrepiar amor. As próprias alusões às
músicas de Cartola, um dos homenageados do enredo, em inúmeras
partes do samba demonstram com obviedade o nível de qualidade
deste samba e analisar como o título de cada uma delas se
encaixa com o discurso poético da letra é, sem dúvida, um
experiência fascinante. Aliás, a obra acaba virando um grande
quebra-cabeça musical, no qual é necessário interpretá-la
adequadamente e encaixar as peças a fim de
visualizar a magnitude do resultado. As menções aos sambas do
bamba mangueirense estão presentes nos termos Minha,
Beijo, Disfarça e chora,
Vem, Tive sim (este é um clássico do
mestre!), Bate outra vez, Tempos idos,
O sol nascerá e Acontece. A melodia
possui uma interligação sentimental gigantesca com a letra e
suas variações deixam claro isso. Um dos momentos que mais me
impressiona é o trecho Virou minha cabeça amor/Tem
charme jogou o cabelo, não vai enrolar, no qual o
gingado melódico faz um jogo de palavras excepcional com os
versos do samba. Destaco também a entrada dos refrões, que soam
complementares às partes anteriores, sem serem iniciados por uma
variação melódica brusca, recurso muito comum nos sambas
atuais. Enfim, uma obra belíssima! Porém, por incrível que
pareça, o samba fora eliminado descaradamente, sem dó, nem
piedade. A razão? Segundo algumas fontes, seria porque não era
a parceria do Clarão que financiaria a campanha eleitoral de um
membro importante da escola para as eleições de 2008;
financiamento este oriundo de outra parceria bastante forte nas
eliminatórias. Se este boato for realmente verídico, seria um
fato tão terrível, tão pavoroso, tão injustificável, que
chegaria a causar ódio nos torcedores da obra nas
eliminatórias, inclusive eu e 99% dos sambistas. É algo
tenebroso, capaz de passar medo e desesperança a qualquer um que
tenha bom senso. Daí, surge a pergunta: Não deveria vencer o
melhor? Será que o melhor era, de fato, o da parceria campeã?
No final das contas, concluo eu que o samba-enredo da Viradouro
para o carnaval de 2008 não será a obra de PC Portugal... Mas
sim um verdadeiro hino de exaltação à mediocridade humana!!! NOTA
DO SAMBA: 9,9 (Gabriel Carin). Clique aqui para ver a letra do samba
1+1+1+1+1 (Unidos da Tijuca - 2008)
Referindo-se ao samba de Lula e Márcio Bijú, o Mestre Maciel
expressou-se da seguinte forma: credo, ainda bem que ISSO
não ganhou. Não quero tecer considerações sobre se este
samba merecia ganhar ou não. Acho, apenas, que sua estranheza,
que despertou tantas reações de paixão ou repúdio, é
justamente o que o tornou especial e um dos concorrentes mais
comentados nas eliminatórias de 2008. É esta estranheza que
rompe barreiras, criando novas possibilidades estéticas. O samba
tinha seus problemas técnicos, como na pouca definição
melódica do trecho Esta é a razão da minha vida... e
hoje canto. Também tenho a impressão que Ciganerey
jogou o samba num tom ruim, o que certamente atrapalhou sua
performance. Entretanto, pela primeira vez em muitos anos, um
samba transgressor, claramente experimental, era, ao mesmo tempo,
acessível, assobiável e gostoso de cantar. Os trechos
diferenciados se sucedem: Pavãããããããão... de
azul e amarelo, pavããããããããão; 1+1+1...+1+uuuuuuuuuuuuuum
; pois só eu viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii,
Pra alíííííííííííííííí....
Pra láááááááááááááá. É, ao
mesmo tempo, experimental e despretencioso. Diria que é um samba
até ingênuo, o que torna sua estranheza ainda mais fascinante.
Infelizmente, o desfile das escolas de samba se tronou apenas uma
competiçãozinha, fazendo as escolas optarem por sambas que
seguem a receita do bolo em detrimento a obras que mexam com os
sentimentos. Por isso, independente de qualquer coisa, o
1+1+1+1+1 merece o meu respeito e o respeito de quem quer arte no
carnaval. NOTA DO SAMBA: 9,2 (João
Marcos). Clique aqui para
ver a letra do samba
TRABALHADORES DO BRASIL - MART'NÁLIA (Vila Isabel - 2008) - O samba-enredo concorrente da filha de Martinho em parceria com Jorge Agrião possui uma melodia diferenciada, nunca ouvida numa canção do gênero. Além dela ser bela, também é marcada por um balanço contagiante, um swing maravilhoso aliado a soberbas variações melódicas de arrepiar! Porém, a possível razão pelo corte desta obra nas eliminatórias da escola é o fato de muitos versos serem entoados de forma rápida, principalmente no refrão central e no começo da segunda parte, esta última de conjunto melódico fantástico. A força dos refrões, principalmente o central, é louvável. Se fosse o samba escolhido, certamente levaria o Estandarte de Ouro e possivelmente seria um dos melhores sambas-enredo dos últimos anos. Porém, os freqüentadores da quadra da Vila consideraram pífio o seu desempenho nas eliminatórias. Como o samba é ousado, talvez a diretoria tenha previsto dificuldades no canto e no funcionamento desta obra em um desfile. Por isso, esta obra-prima infelizmente acabou sendo preterida pela polêmica e irregular fusão dos sambas de André Diniz e de Dedé Aguiar. Na disputa entre a beleza de um samba-enredo e a sua mera funcionalidade na avenida, infelizmente a segunda opção vai levando a melhor. Essa pode ser a verdadeira razão pela queda de qualidade do gênero nos últimos tempos. NOTA DO SAMBA: 10 (Marco Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba - Baixe este samba
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