Samba-Enredo em Discussão
Tal discussão foi gerada a partir desta matéria publicada no Caderno B do Jornal do Brasil, no dia 4 de novembro de 2004 (e transcrita logo abaixo). Leia o texto e confira, a seguir, a opinião dos bambas a respeito da questão: o samba-enredo pode voltar a ter um andamento mais lento? Dê também a sua opinião através do sambariobr@yahoo.com.br que ela será publicada nesta seção.
Sambistas querem voltar com sambas-enredo mais lentos, mas encontram resistência
por Paulo Celso Pereira
Dona Ivone Lara vê problemas do
antigo padrão na estrutura atual dos desfiles. A escolha dos
sambas-enredo das escolas do Grupo Especial terminou há duas
semanas. E das finais, voltou a emergir o debate sobre a
velocidade do samba. Isso porque entre as obras na disputa, duas
de andamento mais lento sobressaíram entre as concorrentes em
duas escolas. Na Portela, o samba-enredo cadenciado do veterano
Noca venceu a competição. Na Vila Isabel, a composição de
Luiz Carlos da Vila e Cláudio Jorge, também nos padrões
antigos, foi derrotada, mas levantou polêmicas quanto ao
resultado. Há atualmente um movimento entre sambistas para que o
samba cadenciado volte à passarela, mas os obstáculos não são
poucos.
Para o jornalista Sérgio Cabral, estudioso do assunto, o tema
envolve uma questão histórica:
- Há um certo esforço para que o samba volte a ser
cadenciado, com muita gente boa pensando nisso. O problema é que
houve um momento em que o samba carioca se paulistizou. O samba
dos paulistas já era acelerado, mas o carioca passou e está
mais rápido que o deles.
Uma das explicações para esse processo foi a transformação
dos desfiles em megaespetáculos, que causou um aumento no
número de componentes, alas e até escolas. Com mais atrações
na pista, o ritmo teve que ser acelerado para que tudo coubesse
no tempo exigido pelo regulamento, como ressalta o presidente da
Mangueira, Álvaro Caetano:
- Hoje temos tempo mínimo e máximo para o desfile e as
alegorias cresceram. O samba tem que se adequar a essas
mudanças. Mas o que define se o samba é bom ou não é a
comunicação dele com o público, não o andamento.
Dona Ivone Lara, elogiada compositora, também vê a estrutura
atual como empecilho para uma volta às raízes.
- Era mesmo necessária uma adaptação do samba. Antigamente,
o desfile de cada escola demorava mais de duas horas. Como o
número de escolas cresceu muito, se levássemos todo aquele
tempo ficaríamos uns três dias para desfilar.
Noca aponta ainda outro fator para a aceleração do samba. Tudo
teria começado em 1971, quando o Salgueiro ganhou o carnaval com
o veloz Festa para um rei negro ('pega no ganzê/pega no
ganzá'), de Zuzuca.
- Depois disso, todas as escolas passaram a seguir o modelo
acelerado - lembra Noca.
O medo de fugir de uma fórmula que vem dando certo e desagradar
ao público surgiu na Vila Isabel como outro empecilho para o
samba cadenciado. Após a final que escolheu o samba de André
Diniz, Sidney Sã, Professor e Miguel Bd, no dia 10, o
superintendente geral da escola, Wilson Moisés, afirmou que o
samba de Luiz Carlos só não iria para a avenida por ser mais
lento e correr o risco de não empolgar o público:
- Se fôssemos até a terceira escola a entrar na avenida,
certamente o de Luiz Carlos seria o escolhido. Mas vamos desfilar
às 5h e, por isso, decidimos levar um samba mais animado.
Mesmo com tantos obstáculos, os defensores das composições
cadenciadas têm seus argumentos para promover sua volta,
dizendo, por exemplo, que a aceleração dos sambas-enredo
limitou sua qualidade poética. A idéia foi reforçada depois do
desfile deste ano, quando alguns dos sambas mais aplaudidos na
Marquês de Sapucaí foram as reedições de sambas de pelo menos
20 anos atrás, como Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira, e
Lendas e Mistérios da Amazônia, de Catoni, Jabolô e
Valtenir.
Assim, a Portela resolveu arriscar e apostou na tradição para o
próximo carnaval, com um samba de Noca, que pela sexta vez será
o responsável pela música da escola na avenida. Entusiasmado, o
músico, que compôs um samba mais cadenciado, com Darcy
Maravilha, J. Rocha e Noquinha (seu filho), chega a dizer que sua
obra fará com que o modelo adotado hoje pelas escolas
mude.
- Hoje em dia, todas as escolas têm um número correto de
componentes. Dá tranqüilamente para a escola desfilar em 80
minutos, mesmo com um samba mais lento. A volta do samba-enredo
verdadeiro é muito importante para a melodia e a harmonia -
diz Noca.
Sérgio Cabral também não acha
que o crescimento dos desfiles - que considera excessivo - ainda
seja desculpa para impedir a volta do samba cadenciado.
- Nos anos 70 eram no máximo dois mil componentes. Hoje são
cinco mil. Isso prejudicou muito a bateria, que perdeu
inteiramente a sutileza e toca como uma máquina industrial.
Mesmo assim, não estouraria o tempo se fosse um samba mais
cadenciado.
Reflexão de quem é Bamba
Eis agora a opinião dos bambas, extraídas do fórum Espaço Aberto do site Galeria do Samba
- Nos moldes de hoje, se as escolas colocassem sambas cadenciados e longos como Chico Rei, História do Carnaval Carioca, Memórias de um Sargento de Milícias entre outros, certamente seus desfiles se arrastariam. Diariamente penso nesta questão! Contemporaneamente, a nível de samba-enredo, perde a poesia, perde a melodia, mas ganha o espetáculo. E isso é triste para a qualidade musical do samba. (Mestre Maciel)
- Infelizmente a evolução dos desfiles não agraciou os sambas de enredo. Acho que todo o espetáculo de hoje serve mais aos carnavalescos do que aos componentes, sambistas, foliões, etc. Nos transformamos em mini-alegorias ambulantes. Para nós que participamos dos desfiles, a cada ano que passa a disciplina vigiada e monitorada fica insuportável. É entrar nas malditas filas e ali ficar. O quesito evolução e harmonia também não foi agraciado com a evolução dos desfiles. Todo o espetáculo está sendo direcionado para a plástica. E acho que é muito mais fácil a escola perder o fôlego e se arrastar com um samba rápido e dito como empolgante, do que se arrastar com um samba melodioso, bem construído e de qualidade. (Luiz Tadeu Soares)
-
Melodia nada tem a
ver com o andamento. Um samba acelerado pode ser melódico,
afinal, Kizomba, que já é uma samba com andamento dentro dos
padrões atuais, tem melodia magnífica. O andamento mais
acelerado descaracterizou o samba-enredo tradicional, pois
prejudicou a dança, a poesia (para uma letra que tem que ser
cantada muito rápido, tem de se reduzir o número de palavras e
não se podem usar vocábulos mais rebuscados) e a bateria (que
ficou parecendo uma máquina de costura). Uma questão fundamental no
empobrecimento do samba-enredo é o flerte (quando não o
casamento consumado) com a marcha, que NÃO É SAMBA. Acho
ridículo o Noca querer falar alguma coisa a respeito do
empobrecimento do gênero samba-enredo após ter composto aquela
marchinha safada que é o samba da Portela para 2005. Um cara que
compôs "O Homem do Pacoval" sabe muito bem que esta
marcha que ele compôs para o desfile de 2005 é uma bomba, mas
cinicamente vem a público com a maior cara de pau dizer que o
samba dele vai influenciar as outras escolas. Melhor ouvir isso
do que ser surdo. Outra coisa: o desfile desse ano provou que
samba de qualidade vence, independentemente da necessidade de a
escola passar com muitos componentes dentro de um tempo
determinado. Os sambas de hoje são um lixo porque o que os
compositores querem é ganhar dinheiro. Aí apelam para as gírias boçais, as melodias
batidas (quando ouço os sambas de hoje, já na segunda audição
já sei a melodia, pois são repetições de clichês melódicos
batidíssimos) e as marchinhas. Antigamente, demorávamos semanas para decorar
os sambas, mas a recompensa a cada audição fazia o esforço
valer a pena. Hoje, por causa da ganância, a disputa de
samba-enredo virou um festival de corrupção e politicagem, com
os compositores da comunidade sendo engolidos por escritórios de
composição. O resultado é esse que a gente ouve por aí. Só
que a boquinha está minguando. Os discos de samba-enredo, que
já venderam na casa do milhão na década de 80, hoje nem sonham
mais em atingir os sete dígitos de vendagem. (Cláudio Souza)
- Como em todas as boas linhas de raciocínio, tanto o Sergio, o
Noca e a Dona Ivone tem razões em suas argumentações, porém,
meu entendimento se aproxima muito mais do Alvinho. Como tudo na
vida, também o samba tem e deve ser modernizado e adequado a
tempos modernos e, aí, não estou falando somente do samba de
enredo, mas em tudo que tange o desempenho das escolas em
desfile. A Vila Isabel talvez seja das escolas no Grupo Especial
a última a tomar o caminho da modernidade no sentido simples do
andamento do samba de enredo, mas vale lembrar que, no Grupo de
Acesso, ainda algumas escolas desfilam com sambas mais lentos e
considerados "grandes", como por exemplo a União de
Jacarepaguá e o faz com um tempo bem inferior que o Grupo
Especial, mesmo levando em consideração a menor quantidade de
desfilantes. É ela um bom exemplo de que pode a escola se
adequar à cadência da bateria, através da sua harmonia... sem
ter que torná-la uma verdadeira metralhadora, sem prejudicar o
canto do seu intérprete e sem fazer o componente chegar ao fim
da avenida, sem fôlego e/ou completamente rouco. Soube por
terceiros que este ano o próprio Alvinho, embora tendo ficado
impressionado por um dos sambas concorrentes, tipicamente nos
moldes dos anos 60 e 70 da Mangueira, teve que se render a
pressão do modelo atual, que no meu entender, não tem nada de
paulistano, uma vez que a estrutura melódica dos sambas de lá
são completamente diferentes dos de cá, incluindo aí as
composições dos rifes de instrumentos na bateria, com a rara
exceção na Tucuruví, isso devido a passagem do Mestre Jorjão
por lá. No Grupo Especial, resta somente a Mocidade Independente
como ícone de resistência a esse processo. Com a escolha do
samba deste ano, a escola demonstrou estar muito mais voltada
para a estruturação da sua harmonia, do que simplesmente trocar
o samba de enredo por um samba de empolgação. Desde do Ita no
Norte e do Teleporto, a grande maioria das escolas vem tentando
impressionar os jurados, conquistando o canto das arquibancadas e
vale lembrar que, mesmo depois disso, o grande feito pertence a
um samba um pouco mais pra trás, com a Vila Isabel. Um grande
exemplo vem da Beija-Flor. Tendo optado pela modernização da
harmonia, fazendo inclusive ensaio de canto com seus componentes,
não tem esta a preocupação com o andamento do samba, buscando
apenas aquele que se completa no enredo para satisfazer os
jurados, apurando sua letra e melodia, mas tendo como fator
primordial o comportamento junto ao canto dos desfilantes, no que
frisa muito bem o Alvinho. Completo-me dizendo totalmente à
modernização das escolas, achando que isso não passa somente
pelo andamento dos sambas ou no ritmo das baterias. (Walter Nicolau)
- Discordo do Sérgio Cabral, as baterias cariocas não se
paulistizaram como ele diz apenas por acelerar o andamento. Até
porque a diferença não era apenas de velocidade do andamento e
as baterias cariocas, que não perderam o swing e a Macumba e a
qualidade de seus ritmistas que praticamente continua a mesma
desde que os primeiros instrumentos e as primeiras baterias
começaram a nascer no final da década de 20. Embora hoje
estejam bem mais aceleradas do que há 20 anos atrás e são
todas. E o samba do Luís Carlos não estava com andamento lento
coisa nenhuma. Simplesmente a escola optou pelo outro, e o
resultado vamos ver na avenida. É folclore esta história de
samba pra cima, pra baixo, pro lado, das seis da manhã, da
meia-noite... O QUE EXISTE É SAMBA BOM. E particularmente estou
bastante otimista em relação à safra de 2005. Samba enredo hoje não
é pra quem tem talento e sim pra quem tem dinheiro e fôlego pra
encarar aquela maratona.
Mas cadência não é velocidade, tanto que o Maestro Ivan Paulo,
infelizmente, chamou a bateria de Padre Miguel de fanfarra de
Rancho em 2003. E Padre Miguel apenas reproduziu uma velocidade
dos anos 60. As baterias não estão descadenciadas e quem
fala isso é ignorante no assunto, Cadência é uma coisa,
andamento é outra. A ACELERAÇÃO no andamento dos sambas É
FATO E NENHUMA ESCOLA DESFILA COM VELOCIDADE DOS ANOS 60 E 70 E
ATÉ DE 80: 5000 CABEÇAS, 15 CARROS GIGANTESCOS (acoplados em 8)
e tudo isso pra passar em 80 minutos não tem jeito em 700 metros
de avenida, e ainda tem o viaduto, a curva em 90 graus,
destaques... A Sapucaí só não sambou porque JCP não tem
trens, metrô, av. Brasil, Linha Vermelha. MAS AS GRANDES
BATERIAS CONTINUAM CADENCIADAS, swuingadas e exportando
percussionistas para todo o país e todo o planeta, além de
vários artistas nacionais, quase todos têm um ritmista do
carnaval. O PROBLEMA CONTINUA NA FALTA DE QUALIDADE DOS SAMBAS. O
Império passou este ano 10 vezes maior do que em 64 com um samba
aceleradíssimo em relação a 64 e levantou aquela avenida e
emocionou a todos. E metade da Escola era composta de gente da
Zona Sul, gringos, turistas e artistas globais, e a bateria deu
show e merecidamente levou o Estandarte. E ai? Cadência não tem
nada a ver com velocidade. Pode se ter uma bateria cadenciada mais lenta
ou mais rápida, não é a velocidade do sambas que define isso e
sim tem a ver com qualidade de ritmista e com armação de
bateria e a harmonia entre samba e bateria, é claro que numa
velocidade mais lenta. E COM UM SAMBA DE QUALIDADE. É claro que
numa velocidade menor fica mais fácil tirar o som do
instrumento, e o cantor e as cordas conseguem tirar uma nota
melhor. Aliás na década de 60 e 70 também tinham muitos sambas
ruins, e alguns sambas são tão inaudíveis como os de hoje,
pros menos avisados. Mas uma bateria bem armada, harmônica, com
ritmistas de qualidade, onde não se ouve apenas uma naipe. O som
é uníssono e essa arregimentação da bateria que dá a
cadência, ALÉM, É CLARO, DA QUALIDADE DO SAMBA. E outra que
surpreendeu foi a Viradouro. O Ciça não veio no andamento da
São Carlos de 75. E a bateria, que veio no mesmo andamento dos
últimos anos, fez o samba sobrar, proporcionando um espetáculo.
Não defendo o atual andamento das baterias, MAS TEMOS QUE SER
REALISTAS. O Gigantismo do carnaval não tem mais volta. E QUEM SONHA OUVIR UM
ANDAMENTO DOS ANOS 70... Acorda, não vai ouvir mais. Mas a melhora das qualidades dos
sambas, isso é perfeitamente viável. Basta vontade política
das Escolas. (Rodrigo Alves Gomes)
- A melhor música do mundo, tocada numa cadência equivocada,
pode se tornar um fiasco, ou no mínimo, ser prejudicada. É
conversa fiada dizer que as escolas têm que vir com ritmo
acelerado por causa do número de figurantes, de carros, etc.
Basta lembrar que a Portela, entre outros inúmeros exemplos,
passou com mais de 4500 componentes em 84 com um samba de verdade
e com a cadência correta (havia harmonia entre canto, dança e
ritmo). Eu, na verdade, tenho a impressão que o ritmo acelerado
e inaceitável das baterias atualmente agrade aos dirigentes, aos
novos desfilantes, etc. Mas quem gosta de cadência, harmonia e
boa melodia sofre com isso. (Marcelo Guireli)
- Essa parada de samba empolgado ou pesado para fechar desfile
é balela. Qualidade é qualidade e não importa se vai abrir,
vir nas posições intermediárias ou fechar desfiles. Hoje, o
regime imposto para os desfiles é rígido e anti-carnaval. O
modelo é desanimador para qualquer componente mais entusiasmado.
E nem quero colocar a questão de cangalhas, ombrites ou roupas
leves. Quando alguém tá a fim de cantar, sambar e evoluir, isso
atrapalha, mas não impede. E os sambas que se mostram nas
disputas possuem um vigor aparente e falso. É tudo fachada essa
tal medida de sambas pra cima. Na hora do desfile, tudo se
acelera, mas raramente dá motivação. Acho que, primeiramente,
o compositor tem que ter liberdade de inspiração. E não apenas
reproduzir sinopses. Os enredos estão cada vez mais complexos,
com excessos de informações, e nem as pessoas que estão com a
sinopse ou o roteiro nas mãos na hora do desfile e lendo a letra
do samba conseguem entender o que se passa. Outra coisa
lamentável é que, a cada ano que passa, os compositores estão
tendo gastos tenebrosos com as eliminatórias. Muitos
compositores competentes estão ficando de fora, em função da
dureza do bolso. E tudo isso e mais outras coisas estão se
refletindo na hora em que as nossas escolas desfilam. Tudo isso
tem que ser revisto. Essa evolução está derrubando o
espetáculo. Em
meados da década de 80, diversas escolas de sambas desfilavam
com mais de 4000 componentes. E muitos sambas eram cadenciados,
não fazendo que com as escolas se arrastassem. Então, acho que
esse negócio de acelerar e colocar o samba para o alto, na
intenção de propor um vigor para o desfile, um equívoco.
Aliás, além de todas as crises, na maneira como o carnaval vem
sendo conduzido, os sambas de enredos estão no fundo do poço.
Aonde os imperadores do carnaval querem chegar? Isso está
fazendo um mal imenso ao carnaval, à medida em que os anos
passam. (Luiz
Tadeu Soares)
- Não defendo a aceleração do samba, mas, para cadenciar, tem
que reduzir o número de desfilantes. Nos anos 80, NÃO HAVIA
LIMITE DE TEMPO PARA DESFILAR. Tinha escola que ficava duas horas
na avenida. (Mauro
Santos)
- A limitação do tempo dos desfiles iniciou-se em 77, isto
porque o abuso no tempo de desfile chegou ao limite em 76, quando
muita gente não agüentou ficar até o final. Eu fui a esse
desfile e me lembro que ele terminou por volta das 14h de
segunda-feira. Portanto, na década de 80 já havia limitação
no tempo do desfile. Concordo que o problema maior não é a
velocidade (ou o andamento, como queiram) e sim a qualidade dos
sambas que aliás, não costumam ser sambas, mas marchas. O que
eu acho incrível é que mesmo depois do "sacode" que
os sambas antigos deram nos sambas originais (exceto o da
Beija-Flor que era muito bonito) no carnaval desse ano, ainda se
ouve muita gente dizer que samba nos moldes antigos não empolgam
ou que atrapalham a escola. O que está acontecendo é a perda,
pelas novas gerações, da referência de qualidade dos sambas
antigos. A garotada anda tão acostumada com o baixo nível dos
últimos 20 anos e anda tão desinteressada em pesquisar e se
informar sobre o samba, suas origens e tradições, que acha que
o carnaval é só luxo e que samba-enredo é isso que se tem
ouvido por aí. Esse é o grande inimigo do espetáculo: as
pessoas já não sabem mais diferenciar um samba de uma marcha,
não sabem mais o que é poesia e só querem melodias óbvias e
batidas. (Cláudio Souza)
- Aliás, outra bobagem foi dita lá em cima pelo Noca. De que o
samba do Zuzuca era acelerado? O samba passou lentíssimo e até
hoje é tocado na quadra do Salgueiro com andamento muito lento
pros dias de hoje. O refrão e a melodia é que foram a
inovação. Até então ambos não tinham função de
arrasta-povo e de salão. Mas, sobre Pega no Ganzê, segundo
Zuzuca, ele inventou a palavra ganzê apenas para fazer rima e,
com aquela melodia fácil de salão, entrou pra história da MPB
e até hoje é uma das músicas brasileiras mais conhecidas no
exterior, ao lado de Garota de Ipanema e Aquarela do Brasil.
Aliás, em 70, a Portela já havia vindo com um refrão fácil e
foi campeã. A
partir daí, muitos compositores passaram a se preocupar com
refrões arrasta-povo, letras fáceis e melodias leves e
empolgantes. Pra justamente cair na boca do povão. E aí os críticos inventaram o termo
samba-marcheado. O samba perde sua função principal de contar o
enredo, para empolgar e levantar a avenida. EU ESTOU FALANDO DE
DÉCADA DE 70. Cadê a aceleração? (Rodrigo Alves Gomes)
- Uma demonstração clara de como a garotada só conhece as
marchinhas-de-enredo me foi dada na Unidos da Tijuca. Fui a um
ensaio recente e a bateria, formada na sua maioria por garotos na
faixa dos 20 anos, apresentava-se muito bem nas
marchinhas-de-enredo mais recentes. Quando o intérprete resolveu
puxar "Lendas e Mistérios da Amazônia",
"Aquarela Brasileira" e "Arte Negra na Legendária
Bahia", foi um desencontro só. A molecada não sabia tocar
samba-enredo e tocou numa cadência marcheada que, obviamente,
ficou totalmente desencontrada da melodia. Parecia o samba do
crioulo doido. E olha que eles fazem parte de uma escola que já
fez, numa seqüência, "O Que Dá Pra Rir Dá Pra
Chorar", "Lima Barreto, Mulato Pobre Mas Livre" e
"Brasil: Devagar Com o Andor Que o Santo é de Barro",
três obras-primas da década de 80! É triste saber que um
ritmista não pesquisa nem a história da escola que ele vai
defender na avenida. Por isso é que qualquer porcaria
pseudo-animada seduz essa gente. Devem ser os mesmos que acham
aquela batida pobre da axé-music o máximo! (Cláudio Souza)
- Só acrescento que esse trabalho de conhecer a história da
escola teria que ser feito pela própria escola e garanto que se
alguém for na Imperatriz qualquer dia, os jovens da bateria
tocarão certinho "Brasil, flor amorosa de três
raças" sem marchear. A escola deveria ensinar sua história e se
fazer conhecida para os componentes, isso é claro, se a escola
quiser preservar sua história. Afinal, são ESCOLAS de samba. (Taty Condor)
- O que os sambinhas pobres do Zuzuca fizeram foi influenciar
as demais escolas no sentido de reduzirem o tamanho dos sambas e
usarem esses refrões onomatopaicos e pobres de rima, como forma
de competir com o Salgueiro. Tanto é assim que a safra de 72 é
cheia de sambas curtinhos, inclusive o da Portela, que nem por
ser curto deixou de ser lindo. Mas essa tendência foi logo
abandonada e em 73 as escolas já tinham sambas maiores e mais
próximos do estilo tradicional.
Outra coisa: o termo "samba marcheado" não é uma
invenção vazia de críticos que não têm o que falar. Samba
marcheado existe mesmo e é o que mais se faz hoje em dia. O
problema é que muita gente fala de samba e marcha e não sabe
identificar um e outro. Pros que estão interessados em aprender
a diferenciar samba-enredo de marcha-de-enredo, aí vai um macete
que eu acho interessante:
1-
Pegue uma marcha-rancho qualquer - pode ser um hino de clube de
futebol, pois todos são marchas-rancho;
2 - Tente reproduzir aquela batida com as duas mãos;
3 - Acelere essa batida até mais ou menos o andamento de um
samba-enredo;
4 - Tente cantar o samba que você deseja avaliar em cima dessa
batida.
5 - Se a melodia se encaixar perfeitamente, não se trata de um
samba-enredo, mas de uma marchinha-de-enredo.
Tente cantar um samba-enredo tradicional (por exemplo "A
Lapa Em Três Tempos" ou "Bumbum Paticumbum") em
cima dessa batida de marcha acelerada para ver se você
consegue!!! Você perceberá que só alterando a melodia será
possível encaixá-la na batida. (Cláudio Souza)
Isto tudo é uma grande verdade, mas, com a evolução do
carnaval e as super negociações que ocorrem por trás disso
tudo, o samba evoluiu sem se preocupar com as belas melodias e
aí estamos diante disso tudo que vemos em uma escolha de samba:
no fim, uns dizendo isso, outros dizendo aquilo, mas saiba que todo o samba é
escolhido em prol do horário, da sinopse, então não adianta
ter um samba que ganhe Estandarte de Ouro e não seja
suficientemente capaz de mostrar o que o desfile em si precisa, que bem foi o caso da Portela esse ano
e que muitos falaram tanta besteira, só quem está fazendo o
carnaval é que tem condição para tal definição. (Jose Marinho)
Na minha opinião, não
dá pra comentar sobre mudança dos sambas de enredo sem
citar o Salgueiro. A escola, que ficou famosa por seus hinos
antológicos e gigantescos como ''Chico Rei'', deu uma guinada de
360 graus com ''Festa para um rei negro'' e, hoje, é a maior
fonte de ''marcha-enredos'' do carnaval, e não tem como mudar
essa estrutura, tamanha a quantidade de desfilantes em suas
fileiras. Infelizmente, o
samba-enredo também sofreu com as mudanças pelas quais passaram
os desfiles nos últimos anos. É raro ver alguma coisa que
preste hoje em dia, e eu, saudoso dos sambas das décadas de 70 e
80, gostaria muito que houvesse uma mudança de mentalidade na
concepção de um desfile. (Cláudio Carvalho)
Não consigo ver mais solução para melhoria dos sambas-enredos infelizmente, na realidade o que acontece é uma inversão de valores por parte das direções das escolas de sambas, o objetivo maior é o mega-espetáculo, a suntuosidade dos desfiles, imaginem só a que ponto chegamos: a grande preocupação nas vésperas do carnaval são as rainhas de baterias e os destaques globais, o samba-enredo na realidade é um mero detalhe nessa história toda. Eu que sou um apaixonado por carnaval hoje em dia não consigo escutar os sambas da minha cidade com o menor prazer, é um formato muito chato de musica. O pior disso tudo é que esse formato de samba já está contaminando o grupo de acesso que por tradição sempre teve grandes sambas. Nunca poderia imaginar que hoje o meu maior prazer em termos de samba é o CD das escolas de samba de São Paulo, nem sei se vou comprar o do Rio. Peço aos verdadeiros sambistas que tomem uma providencia ou corre-se o risco do fim da maior tradição cultural do nosso estado. O VERDADEIRO SAMBA ESTÁ MORRENDO! (Júlio Cezar)
A Liesa vem rapidamente encarecendo o carnaval carioca. E quer tornar os desfiles das escolas de samba numa das várias atrações turísticas mundiais, claro que com objetivo comercial. É fácil achar no Sambódromo pessoas de várias partes do mundo. Mas os espetáculos estão longe da tradição do samba. Argumenta-se que o samba precisa evoluir e modernizar-se, mas e se ele perde a graça? Eu nunca desfilei, mas percebo a reação do componente, que era muito mais vigorosa no passado. Será que são os componentes que não sabem cantar ou as escolas que não conseguem empolgá-los? Pode ser um misto por causa da invasão de turistas em todas as escolas. O samba é considerado uma Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Deveria ser tratado com mais cuidado. (Fernando Naumann)
Dê também a sua opinião através do sambariobr@yahoo.com.br que ela será publicada nesta seção.