Os sambas de 1984

A GRAVAÇÃO DO DISCO - O estilo é bem parecido com o disco de 1983, onde se sobressaem na bateria quase que exclusivamente os tamborins e os agogôs (além de pratos dourados de bateria, no último ano em que estiveram presentes), numa gravação leve, cadenciada e que destaca o samba-enredo. Na primeira passada, o intérprete canta sozinho o samba, com o coral aparecendo na segunda passada do refrão e também na segunda passada do samba (a partir daí, o intérprete passa a soltar cacos). O mesmo estilo de gravação foi utilizado também no disco do Acesso-84. 1984 marcou por ter sido o ano da inauguração do Sambódromo e também pelo extenso número de escolas presentes no Grupo 1A (o Especial da época): quatorze (repetindo 1976), já que não houve rebaixamento no ano anterior devido à queda de energia durante o desfile da Caprichosos. O elevado número fez com que pela primeira vez, após muita polêmica, os desfiles fossem divididos em dois dias (sete no domingo e sete na segunda). Por isso que, no disco, o tempo para cada faixa da escola ficou restrito em três minutos e vinte segundos (o equivalente a uma passada e meia do samba). Num ano em que tivemos um regulamento que apontava a campeã de domingo (que foi a Portela), a campeã de segunda (Mangueira), uma nova disputa no sábado (com a verde-e-rosa levando o chamado Supercampeonato), o desprezo mal-sucedido da Rede Globo por não estar disposta a transmitir os desfiles em dois dias (o que fez a saudosa e estreante na ocasião Manchete, com a exclusividade, detonar o Fantástico, a novela das oito "Champagne" e fuzilar a dupla de bandidos Bonnie & Clyde - o filme da dupla foi exibido na segunda-feira - em audiência) e a apoteose mangueirense com a escola dando a volta na dispersão e fazendo um novo desfile, levando o Brasil ao delírio, tivemos sambas-enredo maravilhosos, uma safra inesquecível. Aliás, essa era uma época de sambas maravilhosos tanto no Especial quanto no Acesso. 1982, 1983 e 1984 foram três anos consecutivos de safras sensacionais. Aliás, esse carnaval é, sem dúvida, muito especial para mim, pois, a um mês antes dos desfiles, despontei para a vida. E no mês clássico de carnaval que é fevereiro. Ou seja, assim como o Sambódromo, também comemorei vinte anos em 2004 (no dia 6 de fevereiro para ser mais exato). NOTA DA GRAVAÇÃO: 10 (Mestre Maciel).

1A - BEIJA-FLOR - Seu único refrão é bem oba-oba (E tem fuzuê alegrando o patropi...), bastante diferente da característica de sambas da agremiação de Nilópolis. A mesma dupla de compositores do título de 1983, o intérprete Neguinho da Beija-Flor e seu irmão (e futuro dono de três Estandartes como intérprete) Nêgo, fizeram um samba bem mais pesado em relação ao ano anterior. Não há um refrão central, e o restante do samba é cantado num tom bastante alto e dividido, conforme a melodia, em cinco partes (três delas com quatro versos). O samba com formato mais semelhante a este provavelmente seja o da Império da Tijuca de 1997. O hino da Beija-Flor de 1984 é uma mescla de sambas bem antigos (a parte restante) com o contemporâneo oba-oba do refrão. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - VILA ISABEL - O samba Estandarte de Ouro de 1984 possui o toque de magia e a originalidade do grande Martinho da Vila. Numa letra bem feita e detalhada de maneira a dar espaço a todos os profissionais que atuam numa escola de samba (até hoje as bordadeiras, os carpinteiros, os vidraceiros, as costureiras e os demais empenhados em construir a ilusão devem estar gratos ao Zé Ferreira pela homenagem), mesclada a uma melodia leve e adorável que é a cara da Vila, a escola conseguiu abocanhar mais um Estandarte superando as obras-primas da Portela, da Mangueira e do Salgueiro. No disco, ao ouvirmos o samba, podemos pensar que sua execução na avenida foi difícil pelos versos serem cantados de forma rápida. Mas aquela era uma época em que, no desfile, o samba era entoado de forma mais cadenciada em relação ao disco. Por isso, o samba fez um verdadeiro sucesso no novo Sambódromo. Na faixa, poucos notam, mas a bateria só entra a partir da segunda passada. Destaque para o agradecimento de Martinho da Vila a Vinícius de Moraes e a Tom Jobim no começo da faixa e pelas boas atuações dos intérpretes Marcos Moran (eterna voz da escola), Gera (que estreava na Vila Isabel) e Valcy (quem fim deu?). NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - IMPÉRIO SERRANO - Um samba de letra bastante coloquial, com toda a malandragem presente no enredo. Destaque para esses trechos, compostos num momento de ponto G de inspiração do compositor Bicalho: "D. João VI pega o ouro e se arranca/dizendo ó Pedrito filho meu/Segura esse foguete, entendeu" e "Na lei de Chico Rei, o fim justifica os meios/assim libertou seu povo/com a poupança do alheio", entre outros que apresentam a malandragem de personagens históricos de forma peculiar. No disco, o samba é cantado de forma bem acelerada. Mas, na avenida, a cadência do samba foi exagerada demais, o que acabou por arrastá-lo. Seria muito melhor manter o estilo no qual foi gravado no disco. Ney Vianna, a imortal voz da Mocidade, manteve a média no seu único ano defendendo a verde-e-branco da Serrinha. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - UNIDOS DA PONTE - Sempre direi que a escola de São Mateus possui a melhor safra particular dos anos 80, superando todas as agremiações de ponta. A Ponte manteve a qualidade impressionante do ano anterior com um samba um pouco mais pra cima e de letra exemplar com melodia envolvente. Trata-se de um dos melhores sambas de 1984, muito bem executado no disco e cantado de maneira mais brilhante na Sapucaí, com uma cadência extraordinária. O samba-enredo maravilhoso, porém, não evitou a queda da Ponte para o Acesso em 1985, de onde sairia campeã, garantindo o regresso ao Especial em 1986. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - UNIÃO DA ILHA - Ao lado do samba da Imperatriz, é considerado o mais fraco do ano. Este é considerado o primeiro samba-enredo da União da Ilha de tom animado que seria a característica dos hinos da escola posteriormente. Na época, a escola estava mais acostumada com sambas mais líricos. Nem o fato de ter sido composto por uma dupla lendária, Didi e Aurinho da Ilha, o livrou das críticas. Por sua letra simples e pela melodia mais leve do que uma pena, é um dos sambas de enredo mais fáceis de ser cantados de todos. Não é exagero dizer que o bamba decora o samba logo na primeira audição. Detalhe que o samba é tão curto que é executado no disco com as duas passadas completas, mais algumas repetições do refrão principal (Vovó falou, falou, eslcareceu...), totalizando três minutos redondinhos. Detalhe: no disco, a voz de Quinzinho, no seu único ano na União da Ilha, está super diferente na primeira passada do samba. NOTA DO SAMBA: 8,8 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

6A - MANGUEIRA - Trata-se de um dos maiores clássicos da história da verde-e-rosa. Com o enredo "Yes, nós temos Braguinha", a Mangueira quebrava um tabu de onze anos sem títulos (o último foi com "Lendas do Abaeté" em 1973). Mesmo sendo longo, o samba-enredo em nenhum momento cansa. De melodia lírica e uma bela interpretação de Jurandir no disco, o hino mangueirense foi conduzido na avenida de maneira como sempre magistral por Jamelão, que havia sido embebedado pelo pessoal da Portela com champanhe momentos antes do desfile com o objetivo de prejudicar a voz do cantor. Que nada... A promessa feita para o ano seguinte foi que a tentativa de enferrujar o vozeirão do melhor intérprete (puxador, não) de todos os tempos seria feita com água. Hehehe... Com este samba, a Mangueira realizou a apoteose pensada por Darcy Ribeiro: como foi a última escola a desfilar, ao chegar na dispersão, percebendo que não havia mais ninguém para vir da concentração, os componentes da escola decidiram dar a volta a fim de proporcionar mais um desfile ao público, fazendo daquele momento um dos mais marcantes da história do carnaval. SUPERCAMPEÃ mesmo, com todas as letras maiúsculas por justiça e com todos os méritos. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

7A - IMPERATRIZ - O samba não foi bem aceito por possuir uma melodia animadinha, mas sem nada de especial, e uma letra coloquial com expressões incomuns em samba-enredo na época, como "que abacaxi", "pacotão comeu", "o resto que se exploda", "toda noite um vampiro leva a grana e me destrói". A Imperatriz, em 1984, mesmo com um samba quase que inexpressivo e um refrão meio sem noção "Alô, mamãe/assim não agüento/almoçar pirão de areia/e jantar sopa de vento" pode ter sido a precursora dos enredos críticos que seriam desenvolvidos por Caprichosos e São Clemente nos anos seguintes. NOTA DO SAMBA: 8,4 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - PORTELA - Samba que seria reeditado vinte anos depois pela Tradição. Os portelenses, que ainda colhiam as fagulhas devido à prematura perda de Clara Nunes, conseguiram desenvolver um enredo extraordinário de homenagem a Claridade e também a Paulo e Natal da Portela. Sobre o samba... não é exagero dizer que chega a superar a qualidade do enredo, tamanha é a sua beleza. De canto fácil e melodia contagiante, Contos de Areia é mais um dos sambas que compõem o hall riquíssimo de sambas-enredo da escola. Um primor de samba, para mim o melhor de 1984 e um dos melhores de todos os tempos. Ah, no disco de 1984 Contos de Areia ganha mais pontos com a intepretação marcante do imortal Silvinho da Portela. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - ESTÁCIO - Pela primeira vez a antiga Unidos de São Carlos desfilava com seu novo nome: Estácio de Sá. E começou mostrando um samba de tom clássico, com melodia animada e envolvente. Os cinco primeiros versos mostram pra que a Estácio veio: "Chegou a hora/A hora da cobra fumar/É o velho Estácio na avenida/Que feliz da vida/Vem se apresentar". Dominguinhos do Estácio também regressava à sua escola do coração depois de sete anos (a última vez foi em 1977, quando cantou um samba de sua autoria sobre os 50 anos da Rádio Nacional). O novo nome deu força à agremiação, que desfilou no Grupo Especial por quatorze carnavais consecutivos (com direito ao título em 1992). A Estácio passa por uma crise sem fim desde 1997, quando desceu de grupo. A escola desfilará no Grupo B em 2005 e, se Deus quiser, como bom estaciano que sou, vamos sair dessa e voltar a brigar por um lugar no Especial de 2007, lugar de onde nunca deveríamos ter saído. NOTA DO SAMBA: 9,4 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - SALGUEIRO - Um samba com o chamado Padrão David Corrêa de Qualidade, cheio de animação e, ao mesmo tempo, com uma melodia encantadora e de estilo clássico. É mais um daqueles sambas-enredo que não cansamos de ouvir. É mais uma obra-prima salgueirense, na minha opinião. Uma passagem de 100% de aproveitamento de David Corrêa na Academia, pois, na única vez em que concorreu na escola, ganhou com um samba considerado unanimidade entre os bambas. NOTA DO SAMBA: 9,7 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

4B - UNIDOS DA TIJUCA - Excelente samba! Com mais um enredo exaltando a origem africana do negro, o samba-enredo da escola acaba sendo agraciado. A escola vivia uma época de sambas brilhantes e o de 1984 não foge à regra. Longo, o samba apenas falha ao citar na letra nomes como o título do enredo "Salamaleikum" e "Luiza Mahim", "Licutam" e "Nassim" de forma consecutiva, o que deve ter dificultado o canto dos componentes, já que o samba foi entoado na avenida de forma acelerada, ao contrário da belíssima cadência no disco. Destaque para o maravilhoso refrão central (Valia ouro, valia prata...). Não é novidade ressaltar, mas a atuação de Sobrinho é brilhante! Pena que a Unidos da Tijuca foi rebaixada depois do desfile. NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

5B - IMPÉRIO DA TIJUCA - Samba de letra e melodia simples, mas cativantes, e dois refrões encantadores (principalmente o principal - A roleta da vida/Não pára de girar...). De forma direta, a Império da Tijuca, em mais um samba-enredo brilhante, "reabre os cassinos na avenida", como diz a letra. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

6B - MOCIDADE - Aroldo Melodia completou na Mocidade a dança dos intérpretes de 1984. Para se ter uma idéia: Aroldo era da União da Ilha e foi pra Mocidade, escola onde estava Ney Vianna que foi pra Império Serrano, agremiação onde cantava Quinzinho, que migrou para... a União da Ilha. Eu, hein? Sobre o samba, foi o primeiro em tom animado (característica diferente dos sambas da Mocidade) que Aroldo Melodia, até então acostumado com os líricos sambas da União da Ilha, cantou. O refrão principal (Sou muambeiro...) é bem cativante! NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

7B - CAPRICHOSOS - A última faixa do disco apresenta a obra de Chico Anysio num samba de letra bem coloquial e bem-humorada, assim como o homenageado. De melodia pra cima, a Caprichosos, com este samba, começava a adquirir a simpatia do público que a impulsionaria a desenvolver os enredos animados que fariam a escola, no ano seguinte, ser aclamada como "a campeã do povo". O carismático intérprete Carlinhos de Pilares é um dos grandes responsáveis por este feito. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba