Os sambas de 1982

A GRAVAÇÃO DO DISCO - 1982 é um ano que reúne algumas obras-primas do carnaval, entre elas Bumbum Paticumbum Prugurundum (Império Serrano) e É Hoje (União da Ilha). O formato de gravação da bateria no disco é a seguinte: os tamborins são os instrumentos de maior destaque, aparecendo com muita força e mostrando uma excelente harmonia com o cavaquinho. Cuíca e agogô também estão bem presentes (este último instrumento, porém, com menos destaque em relação aos discos de 83 e 84. O prato de bateria também aparece em alguns trechos dos sambas. Já o formato do canto é o clássico: a voz do intérprete é destaque na primeira passada e o coral entra na segunda passada do refrão primeiramente e, em seguida, assume em definitivo o canto na segunda passada do samba. Trata-se de um ano com uma safra bem qualificada, não tão destacada em relação aos dois anos seguintes, mas de nada podemos nos queixar dos sambas de 1982. NOTA DA GRAVAÇÃO: 9 (Mestre Maciel).

1A - IMPERATRIZ - Um clássico da escola, que vivia na época o regozijo de seu primeiro bicampeonato (em 80 e 81). No último ano de Dominguinhos do Estácio em sua primeira passagem pela Imperatriz, o intérprete, também autor do samba, canta um que é a sua cara: com muita animação, aliado a uma melodia muito qualificada e variada. Os dois refrões são sensacionais (o primeiro é envolvente, aliás, este adjetivo até está presente nele e o segundo possui um tom mais clássico) e o seu canto é bem fácil com audição bastante agradável. Não é a toa que, como diz a letra, "neste samba envolvente, nossa gente chegou". NOTA DO SAMBA: 9,3 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

2A - UNIDOS DA TIJUCA - Legítima obra-prima do carnaval! A letra é algo extraordinário, feita em momento de inspiração singular do compositor Adriano (isso mesmo, o samba é de um homem só). E a melodia clássica é daquelas que de maneira nenhuma enjoamos. Dá gosto ouvir um sambaço desses, ainda mais cantado pelo fenomenal intérprete Sobrinho. O hino da Unidos da Tijuca de 1982 possui um formato bastante antigo, dos anos 50 e 60, que infelizmente está ausente nos dias de hoje. Um exemplo claro de que o formato é antigo: o primeiro verso "Vamos recordar Lima Barreto". Antigamente era de praxe a letra do samba começar ressaltando que estava homenageando alguma personalidade ou alguma cidade. NOTA DO SAMBA: 9,7 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

3A - MANGUEIRA - Sobre o hino mangueirense de 1982, é pouquíssimo comentado pelos bambas - quer dizer, quase nunca. Mas trata-se de um outro primor de samba-enredo. Sua melodia é toda envolvente, de alto astral, e o formato da mula-manca no disco é interessante: possui um ritmo de batucada africana que fica evidente no refrão central (incrementado com o verso "os negros batucando na senzala em louvor à Oxalá"). Uma parte na minha opinião magistral em termos de melodia está no final do samba: "Os nossos carnavais de antigamente/o pierrô e a colombina encantando a gente/e no carnaval de hoje cheio de loucura/Vem a nossa verde-e-rosa que ninguém segura". Este samba-enredo (cantado por Flavinho Machado, também autor do samba), para mim, está na minha lista particular dos dez melhores da Mangueira. NOTA DO SAMBA: 9,7 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

4A - SALGUEIRO - Um dos mais fracos sambas salgueirenses da era pré-Ita (diz-se da época em que a Academia ainda não fazia sambas pra "sacudir e balançar a Sapucaí"). Segundo relatos e declarações, o samba afundou o desfile salgueirense, que finalizou a apuração em oitavo, portanto sua pior colocação de todos os tempos no carnaval (a colocação seria a mesma no ano seguinte, ou seja, o tempo era de vacas magras). Embora sua melodia seja bonita, por ter uma letra longa acaba por acarretar o tão temido arrastamento que destrói a atuação do samba na avenida. É um samba-enredo que os salgueirenses procuram não se recordar muito... Detalhe: a bateria só entra a partir da segunda passada do samba no disco. Curiosidade engraçada: a chiaçada do intérprete e autor do samba Zé Di ao pronunciar a palavra "coche" do refrão central na primeira passada do samba-enredo chega a doer nos ouvidos. Clareia o coshhhhhhhhhe dos leões! Sinixxxxxxxtro... NOTA DO SAMBA: 8,5 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

5A - UNIÃO DA ILHA - Dispensa qualquer tipo de comentários! "É Hoje" é, sem exagero, uma das canções mais famosas da MPB. Dezenas de gravações consagraram este samba totalmente animado, e com satisfação e garra o refrão principal é entoado tanto por cantores de chuveiro como por artistas renomados de nossa música: "Diga espelho meu/se há na avenida alguém mais feliz que eu". Com toda a segurança e mais garra ainda é afirmado: "É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar". Presente em qualquer espetáculo, desde uma roda de samba até um show com platéia mais burguesa, é mais um clássico de intenso agrado proporcionado pela queridíssima União da Ilha do Governador e seus sambas-enredos maravilhosos. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

6A - SÃO CARLOS - Samba que passa despercebido no disco. Bem animado a partir da segunda passada com a entrada do coral, talvez o seu único destaque se localize na atuação do saudosíssimo intérprete Abílio Martins e seu timbre clássico, de maneira a fazer o samba-enredo ficar bem lírico na primeira passada, onde sua voz se sobressai. NOTA DO SAMBA: 8,3 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

1B - BEIJA-FLOR - Samba bem animado e de melodia envolvente e contagiante (e também um pouco pesadinha), principalmente na primeira parte, e muito bem interpretado por Neguinho. Embora tenha passado despercebido também, assim como muitas obras em 1982 (mais devido ao sucesso dos sambas da Império Serrano e da União da Ilha), este samba-enredo da agremiação de Nilópolis me agrada muito. NOTA DO SAMBA: 9,2 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

2B - MOCIDADE - De melodia bem lírica e toda emocionante, num tom que chega até a ser triste, a Mocidade canta, na minha opinião, um dos melhores hinos de sua história, embora também não seja tão lembrado pelos bambas mais conhecedores do assunto. "O Velho Chico" é um samba maravilhoso, embora em algumas partes pareça que a melodia fora mal costurada. Mas nada que comprometa este belíssimo hino da Mocidade de 1982. O encerramento da faixa com as vozes do coral baixando aos poucos com o som da bateria dos Herdeiros de André (onde aparecem bem o agogô e o repique) é de emocionar. NOTA DO SAMBA: 9,5 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

3B - VILA ISABEL - Samba regular, não é uma obra-prima, mas também não induz tanto desprezo. A melodia é bonita, bem animada e o samba é muito bem interpretado por Marcos Moran. O samba-enredo da Vila de 1982 é, na minha opinião, esteticamente parecido com o de 1981 da escola de Martinho e Noel. A Vila Isabel, evidentemente, possui hinos melhores. NOTA DO SAMBA: 9 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

4B - PORTELA - A quarta vitória consecutiva de David Corrêa na Águia evidencia um samba cuja melodia é a sua cara, mesclando animação com lirismo. O samba não é muito comentado entre os bambas mais especialistas (não sei por quê), mas, na minha opinião, se trata de mais uma obra-prima portelense. "Meu Brasil Brasileiro" é daqueles sambas que não cansamos de ouvir e com certeza a sua beleza acabou por ajudar a escola a obter o vice-campeonato em 1982. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

5B - IMPÉRIO SERRANO - Quem vê a extensa letra do clássico "Bumbum Paticumbum Prugurundum" imagina que o samba é oriundo da década de 50 ou de 60, época em que as letras dos sambas de enredo eram quilométricas. E também pode achar iminente o arrastamento nos desfiles dos moldes de hoje. Talvez este conteúdo estético do samba tenha sido traçado propositalmente pela lendária dupla de compositores Beto Sem Braço e Aluísio Machado para dizer que um samba das antigas ainda podia fazer parte do estilo contemporâneo do carnaval, incrementando ainda com uma crítica marcante a este estilo que recém usava fraldas na época. Embora a crítica na letra esteja presente em apenas quatro versos, ela marcou de maneira a citarmos como exemplo até hoje o inconformismo de muita gente com o fato do sambista e as pessoas da comunidade terem ficado em segundo plano para enfatizar as alegorias luxuosas (as super-alegorias), artistas e turistas burgueses que sequer sabem cantar o refrão do samba e, sobretudo, o fato emergente na época, mas já evidente, de que as escolas de samba priorizavam os ganhos financeiros, nem que tivesse que desprezar o melhor samba cantado nas eliminatórias ou um enredo mais rico e qualificado (isso hoje com a contemporânea necessidade de enredos patrocinados). Eram as Super Escolas de Samba S/A, do tipo que havia afastado para sempre o mangueirense Cartola por aquilo parecer desfile militar segundo suas palavras, da mesma laia que proibira Ismael Silva, o fundador da primeira escola, de ver os desfiles por não ter dinheiro para comprar o ingresso. Era a primeira crítica pública do novo estilo das escolas de samba, que para muitos, fora obra do luxo Joãosinho Trinta e do dinheiro do bicheiro Anísio da Beija-Flor. Voltando a falar de Ismael, fora ele quem inspirou o nome do enredo campeão da Império Serrano em 1982. Ele balbuciara, em uma entrevista a Sérgio Cabral, o "Bumbum Paticumbum Prugurundum" numa forma de executar o som da bateria através da boca. O restante da letra conta um pouco da história do carnaval, como se estabilizou o seu formato no Brasil, e ela a descreve numa evolução verso a verso até chegar em 1982 com as Super Escolas de Samba S/A, super-alegorias que escondiam gente bamba numa grande covardia. Já diria Sérgio Cabral: "Brancos, devolvam a escola de samba aos negros". Como este pedido será atendido hoje em dia? Quem sustentaria o carnaval, de maneira a manter o luxo hoje imprescindível que faz atrair milhares de turistas de lugares do mundo inteiro até as arquibancadas da Marquês de Sapucaí? É brabo de admitir, mas os desfiles das escolas de samba de hoje se resultam numa festa capitalista, pouco importando a qualidade do samba e desprezando os mais humildes das comunidades que amam o samba para dar lugar aos endinheirados caras-pálidas que sequer gostam deste ritmo musical tipicamente brasileiro. Esta crítica da Império Serrano fora feita em 1982 e, na época, ainda tínhamos muitas obras-primas do carnaval. A escola acabou, no seu desfile, dando um alerta para mostrar no que o carnaval estava se transformando naquele momento. E, lamentavelmente, o dinheiro e as super-alegorias que escondem ainda mais a gente bamba acabaram definitivamente por diminuir um pouco a apoteose e a magia do carnaval. Por isso que as vendas dos discos de sambas-enredo despencaram consideravelmente, ao ponto de uma pesquisa divulgada no começo de 2004 mostrar que 60% das pessoas não gostam de carnaval, a prova concreta de que a popularidade do samba-enredo descera por ralo abaixo. Tal rejeição melancólica faz com que as músicas mais tocadas do carnaval sejam da estirpe de "Egüinha Pocotó", "Tapinha não Dói" e genéricos. É duro admitir! Isso é profundamente triste para quem tem amor ao carnaval e ao samba-enredo: ver este gênero musical ser desprezado por muita gente (sobretudo os jovens). Sobre o hino da Império Serrano de 1982, se trata indiscutivelmente de um dos melhores sambas-enredo de todos os tempos, daqueles que até hoje se encontram na ponta da língua até de quem não é bamba. Mesmo com uma letra enorme, sua melodia simples, bem variada e encantadora consagram o samba de enredo Estandarte de Ouro de 1982. Foi uma estréia em grande estilo do intérprete Quinzinho na Serrinha, sucedendo muito bem ao imortal Roberto Ribeiro. A propósito, desde 1982 a Império Serrano amarga um jejum de títulos. Outro detalhe é que a escola, no ano anterior, acabou em último lugar. Como não houve rebaixamento naquela ocasião, no ano seguinte, a agremiação da Serrinha simplesmente inverteu a ponta. Só mesmo "Bumbum Paticumbum Prugurundum" para gerar um desabafo desses por minha parte. Dá tempo para mais uma curiosidade? Então lá vai: é o primeiro samba cuja letra consta o nome da avenida onde os desfiles ocorrem desde 1978: Marquês de Sapucaí. NOTA DO SAMBA: 10 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba

6B - IMPÉRIO DA TIJUCA - O refrão principal lembra muito a canção que embala as rodas de capoeira (a do Paranauê, Paranauê Paraná). É um dos melhores sambas de 1982 e um dos melhores da história da Império da Tijuca e sua bela safra musical. Sua melodia é sensacional, de refrões envolventes e incrementada com a bela voz grave de Almir Saint-Clair. Um primor realmente. NOTA DO SAMBA: 9,6 (Mestre Maciel). Clique aqui para ver a letra do samba